Insônia ou amnésia

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O plano era visitar o Mário de Andrade ou o Murilo Mendes, não me lembro bem qual dos dois, nessa época a poesia já havia arrebatado todos os meus mapas emocionais, então os nomes e os endereços se misturavam naturalmente, sem GPS nem sapatos era fácil se perder na cidade invisível.

Lembro apenas que era uma tarde de 1999, talvez de março, as torres gêmeas ainda estavam de pé em Nova York e o Orkut não passava de um sonho no horizonte das possibilidades, o porteiro do prédio indicou o caminho, entrei e saí do elevador, e fui recebido por uma gentil Ligia que não era a mulher do Mário nem do Murilo, mas do Walter. Foi assim, sem GPS nem sapatos, que conheci pessoalmente Campos de Carvalho, nosso último iconoclasta.

− 1998 − ele disse, indicando uma poltrona na sala banhada pela luz de seis sóis insondáveis. − Você me visitou em noventa e oito, não em noventa e nove. Foi em fevereiro, não em março. Porque eu morri em abril de noventa e oito.

− Tem razão. Falha minha. Posso gravar nossa conversa? Costumo usar o gravador pra evitar os desvios e os saltos no tempo, que sempre me confundem.

Ligia pediu à empregada-sereia que nos servisse café, pão de queijo e bolo de cenoura. Havia qualquer coisa da disciplina onírica de Remedios Varo na organização do Ocidente e da sala cenográfica em que estávamos. Ligia pegou sua bolsa e se despediu, dizendo que precisava sair. A verdade de sua última fala − “fiquem à vontade, meninos” − brilhou tanto no cenário que Walter logo trocou o café ainda não servido por uma dose de uísque.

Mais à vontade, repeti a ele o que havia dito a Ligia, por telefone, quando marcamos essa primeira visita. Expliquei que estava relendo seus livros, com a intenção absurda de escrever uma estúpida dissertação de mestrado.

− Isso foi antes, no passado do pretérito, agora estamos no passado do futuro. Esta conversa já ocorreu. Quando conversamos você não disse “intensão absurda” nem “estúpida dissertação” − ele comentou, descansando na mesinha de andarilho as pernas de centro, ou o contrário. − Mas entendo que você e eu não estamos sozinhos, que o meu eu passado e o seu eu futuro estão interferindo em nosso presente. Observando a partir do futuro, a intensão foi absurda e a dissertação foi estúpida, mas hoje ainda não são.

− Foram. Digo, são. Porque a ideia toda foi um gigantesco contrassenso. Um insulto, senhor, à sua obra incendiária. Fomos neutralizados pela metodologia científica, você, eu, o brilho nos olhos, estes peixes, a lua e a chuva, esta conversa e a própria literatura. Porque a universidade, senhor, é o túmulo da inteligência.

− Mas isso você só descobrirá amanhã.

− Exato.

Ele pegou a garrafa, encheu os copos e brindamos ao futuro do pretérito. Senti que um vínculo forte, de natureza espartana, nos unia. Os peixes aproveitaram o silêncio oceânico e atravessaram a janela. Meu anfitrião lembrou da antiga crença:

− Sempre que um mestrando defende uma dissertação, um escritor morre. Ou uma fada, não sei… Se é um doutorando defendendo uma tese, a desencarnação ocorre em dobro.

− A universidade não se dá bem com as grandes forças da natureza: o entusiasmo, a possessão demoníaca…

− O esquecimento progressivo, que vai projetando fantasmas na tela da realidade.

− Adoro esses fantasmas.

− Depois de certa idade, meu jovem, só existem fantasmas.

Três sóis se punham atrás dos prédios, a tarde ardorosa de Higienópolis em breve deixaria de existir, obediente à lei do menor esforço. Entreguei a Walter meus dois livros de contos e pedi a ele que autografasse meu exemplar da Obra reunida.

− Por que você ficou trinta anos sem escrever? − perguntei, fazendo do lugar-comum um clichê de chiclete.

− Ah, por um motivo terrível. Você.

− Não entendi.

− Você. Gente igual a você.

− Escritores mais jovens?

− Escritores mais jovens, editores mais jovens, jornalistas mais jovens, críticos mais jovens, professores mais jovens, você, gente igual a você, do século vinte e um, gentinha que escreve resenhazinha, dissertaçãozinha, tesezinha, essas merdinhas todas, que desrespeitam a explosão visceral, não honram o impulso criativo, que é sempre um impulso destrutivo.

Sentiram o tremor de terra? A fala de Walter era ritmada, a pausa nas vírgulas durava uma estação inteira, ecoando as ondas da primavera, os tombos do verão, as escaladas do outono e os cristais do inverno.

− Literatura não é assistência social, não é relações públicas, literatura não é propaganda e marketing, você acha que é ruim não ser lido, mas pior ainda é ser lido por patetas bem-intencionados, baba-ovos inocentes, por gente infantilizada que negocia doces e sorvetes com o sistema, que ambiciona condecoraçõezinhas, adulaçõezinhas institucionais, estou falando de você, querido, de você e dessa gentinha que escreve artiguinhos sobre os mísseis radioativos da Clarice, do Murilo, sobre os meus teleguiados anarquistas, essa gentinha amável que multiplica dissertaçõezinhas e tesezinhas sem glúten, que não explodem nem implodem, apenas peidam e arrotam (baixinho, afinal, os bons modos…), você e essas criaturinhas sem ossos não me interessam, por isso fiquei trinta anos sem escrever, e ficaria quarenta, cinquenta − respirou fundo, deu uma boa golada no vácuo alcoólico. Lançou em minha direção o sorriso do gato de Alice. − Sem ofensa.

Não me ofendi. Afinal ele disse tudo isso com a doçura de um sábio chinês que, em vez de rebaixar o interlocutor, eleva-o ao topo do Everest. Os pés afundados na neve, os pulmões inundados de um vapor sideral, foi de lá − do apogeu do mundo − que eu respondi:

− Você é um misantropo incurável.

− Um pronome, um verbo, outro pronome, um substantivo e um adjetivo. Cinco palavras que não significam nada.

− Nossos malditos copos estão vazios.

− Um pronome, um adjetivo, um substantivo, um verbo e outro adjetivo. Cinco palavras que significam tudo.

A empregada-sereia selenita retirou a bandeja de café, intocada, deixando apenas os pães de queijo e o bolo. A respeito dos copos e da garrafa secreta de uísque, suas pupilas comentaram qualquer coisa em búlgaro. Pedi a ela que tirasse uma foto impossível, pois não levei a câmera digital e o celular que eu carregava no bolso de trás da calça ainda não havia sido inventado. Clicou e me mostrou.

− Ficou ótima. Obrigado.

− Za nishto.

Da porta da cozinha a empregada-sereia avisou que já estava indo embora porque dona Ligia já estava chegando, como se tivesse recebido da patroa um recado por telepatia. Partiu. Nosso aquário etílico não possuía mais fêmea alguma. Da rua movimentada vinha uma buzinaria em espiral, eram as máquinas movendo o planeta.

Walter deu a última golada e tratou de esconder os copos e a garrafa numa sombra oblíqua da quarta dimensão. Desliguei e guardei o gravador numa prosaica bolsa de couro tridimensional mesmo.

− Você voltará em duas semanas − ele profetizou. − Será nosso último encontro. Após minha partida definitiva, porém, você virá mais uma vez a este apartamento. Deixarei com minha mulher uns livros potentes: Rimbaud, Breton, Mário, Murilo, Clarice… Serão seus.

Já na porta para outra época, outra cidade, eu comentei:

− A ideia ainda não me ocorreu, mas surgirá em seis ou sete meses. Um livrinho breve, chamado Campos: retratos surrealistas. Uma colagem de textos variados, uns recortados, outros inventados.

− Uma colagem-homenagem?

− Exatamente. Uma colagem-homenagem. Cem exemplares, apenas. Numerados. O primeiro livro de uma coleção que se chamará 100 (Sem) Leitores. Pretensão comercial: zero. O que acha?

− À merda o que eu acho. Vocês, vivos, são tão obcecados por medalhas, prêmios e homenagens… Sofrem de insônia, não descansam nunca. No Hotel Terminus a preocupação é outra, no fim tudo é amnésia. Mas uma amnésia vingativa. Se depender de mim, mesmo morto continuarei dando meu testemunho de morto. Boa noite.

Desci. Ganhei a calçada, ou foi a calçada que herdou mais um descalço. Nessa hora a Albuquerque Lins refletia a luz declinante do último sol. Admirei por uns segundos nossa foto impossível, enquanto subia a rua, sem GPS nem sapatos. Em minha mente alienígena chovia a faiscante chuva imóvel.

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Ficção fantástica: notas de uma palestra para cronópios, famas e esperanças

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Dois modos opostos de pensar a realidade e a ficção: o realismo fragmentário de Memórias sentimentais de João Miramar e a fantasia mitológica de Macunaíma.

Na juventude, eu me identificava mais com a ficção cubista de Oswald de Andrade. Na maturidade, identifico-me mais com a ficção fantástica de Mario de Andrade.

A maior parte dos comentaristas de Macunaíma puxa rapidamente a análise da rapsódia para o debate sobre a identidade nacional e o patrimônio cultural brasileiro. Esse papo nacionalista nunca me interessou.

Prefiro ler a rapsódia como a primeira grande realização de um escritor brasileiro na tradição universal da ficção fantástica erudita.

Antes dos contos fantásticos de Murilo Rubião e José J. Veiga, antes do realismo mágico de Borges, Rulfo, Cortázar e García Márquez os personagens amazônicos de Mario de Andrade já subvertiam as leis da natureza, muito de acordo com a dinâmica onírica dos mitos indígenas e africanos, e dos contos folclóricos daqui e de fora.

A avenida sul-americana da ficção fantástica foi inaugurada por esse herói negro com corpo de homem e cabeça de criança, que vira branco ao se banhar em água encantada, durante a viagem até a Paulicéia Desvairada a fim de recuperar sua inestimável muiraquitã.

Dos seis autores citados acima, o único ganhador do prêmio Nobel − o colombiano García Márquez − é quem compartilha com o nosso Mario de Andrade certa caraterística pouco comentada pelos especialistas, mas bastante apreciada pelos leitores: o afeto sísmico. Ou, se preferirem, a doçura endêmica.

Fiz a experiência: li paralelamente Macunaíma e Cem anos de solidão e percebi não só a mesma estrutura episódico-novelesca − as duas narrativas são constituídas de uma longa sucessão de histórias curtas − mas também a mesma doçura na construção de personagens afetuosos. Nada escapa dessa atmosfera delicada. Até as cenas mais violentas − estupro, assassinato − são atravessadas pela ternura de um narrador compassivo.

(José J. Veiga e Cortázar também sabem seduzir e aprisionar o leitor numa ambientação meiga e amável, mas num grau um pouco menor.)

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A ficção fantástica apresenta ao menos duas características, dois ingredientes fundamentais que, reunidos, diferenciam esse gênero dos demais gêneros literários: a subversão das leis da natureza e a inflexão filosófica.

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Seis narrativas curtas bastante pedagógicas: A metamorfose (Kafka, 1915), O curioso caso de Benjamin Button (Fitzgerald, 1922), A biblioteca de Babel (Borges, 1944), Carta a uma senhorita em Paris (Cortázar, 1951), Um senhor muito velho com umas asas enormes (García Márquez, 1972) e Os que se afastam de Omelas (Ursula Le Guin, 1974).

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A primeira característica fundamental da ficção fantástica é a subversão das leis da natureza.

No mundo oferecido pela ficção fantástica a causalidade, a força da gravidade, a biologia, a geologia, a atmosfera, enfim, o tempo, o movimento planetário, os minerais, as plantas e os animais, as pessoas e as estações do ano funcionam total ou parcialmente de modo estranho. Tudo o que se comporta de determinada maneira em nosso mundo, tudo o que nos é familiar, no mundo da ficção fantástica comporta-se de modo excêntrico, não familiar.

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A segunda característica fundamental da ficção fantástica é a inflexão filosófica.

Num conto, numa novela ou num romance fantásticos, tudo gira em torno da mais pura reflexão ontológica, existencial, não contaminada por argumentos teológicos ou científicos. Essa é a única intenção do autor.

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Gêneros próximos da ficção fantástica são a ficção sobrenatural e a ficção científica.

Em ambas, as leis da natureza são idênticas às da realidade do leitor. A causalidade, a força da gravidade, a biologia, a geologia, a atmosfera, enfim, as regras gerais são as mesmas que conhecemos e seguimos em nosso mundo. Mas essas regras podem ser subvertidas total ou parcialmente por meio da magia ou da tecnologia.

Na ficção sobrenatural e na ficção científica é a vontade humana, alienígena ou divina que subverte, geralmente num espaço restrito, as familiares leis da natureza, e fazem isso por meio de feitiços ou máquinas.

Além disso, na ficção sobrenatural, a inflexão é sempre místico-religiosa, afinal há sempre um deus ou um grupo de deuses ou de seres metafísicos manipulando metodicamente nossa familiar realidade.

E na ficção científica, a inflexão é sempre científica e tecnológica, afinal há sempre um cientista ou um grupo de cientistas e engenheiros manipulando metodicamente nossa familiar realidade.

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Na ficção sobrenatural, o autor deseja provocar no leitor a sensação medo e horror.

Na ficção fantástica e na ficção científica, o autor deseja provocar no leitor a sensação de maravilhoso.

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Mais seis narrativas curtas bastante pedagógicas: A escuridão (André Carneiro, 1963), Teleco, o coelhinho (Murilo Rubião, 1965) A caçada (Lygia Fagundes Telles, 1970), O arquivo (Victor Giudice, 1972), Quando a Terra era redonda (José J. Veiga, 1980) e O abraço (Lygia Bojunga, 1995).

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Subversão das leis da natureza e inflexão filosófica, esses são os dois ingredientes fundamentais que, reunidos, diferenciam a ficção fantástica dos demais gêneros literários.

Em todo o resto, a ficção fantástica compartilha as mesmas características e exige o mesmo talento autoral que a ficção realista, e por ficção realista entendo qualquer conto, novela ou romance em que as leis da natureza são as mesmas do mundo do leitor. Sendo assim, a diferença entre a boa e a má ficção fantástica fundamenta-se no mesmo pressuposto que determina a diferença entre a boa e a má ficção realista.

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Mas as peças literárias de todos os gêneros já catalogados, sempre é bom lembrar, raramente apresentam a pureza receitada pelo programa poético a que pertencem. Na literatura, do mesmo modo que na vida, o hibridismo é a regra.

A inexistência de fronteiras claras e absolutas explica por que a maior parte das ficções fantásticas apresentam tênues elementos da ficção sobrenatural ou científica, e vice-versa.

Na hora de classificar uma ficção curta ou longa, é preciso identificar quais elementos pesam mais no texto, ou seja, qual foi a real intenção do autor, qual a unidade de efeito (Poe): expressar uma ideia metafísica, científica ou filosófica.

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Um escritor é sempre classificado pelo conjunto de sua obra. Se ao longo de sua carreira ele escreveu muitos tipos de texto literário, em prosa e verso, mas foi mais bem-sucedido escrevendo ficção fantástica, ele naturalmente será considerado um autor de ficção fantástica, mesmo que tenha produzido muito mais poemas, ensaios e crônicas, por exemplo.

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A intensidade do fantástico não é diretamente proporcional ao espaço que a subversão das leis da natureza ocupa num texto. Essa intensidade depende apenas da potência da sensação de maravilhoso experimentada pelo leitor.

Não é necessário que numa narrativa curta ou longa o elemento fantástico se manifeste o tempo todo, ou que seja o conflito principal da trama.

Numa narrativa qualquer, a cena ou a intervenção do fantástico pode ser breve, e geralmente é. Sendo potente, essa rápida manifestação do fantástico logo contaminará as muitas páginas realistas, alterando sua substância.

Essa manifestação não será o conflito principal da trama, mas será o gatilho que gerará esse conflito: a quebra da rotina, a dificuldade dos personagens em se adaptar à nova situação.

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Onde fica a clássica teoria de Tzvetan Todorov nessa história toda?

Na gaveta.

Baseada no conceito de hesitação fantástica, a definição de Todorov, apresentada no livro Introdução à literatura fantástica, de 1970, não faz sentido quando o assunto é A metamorfose e as outras narrativas citadas.

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No livro Introdução à literatura fantástica, o crítico búlgaro Tzvetan Todorov define assim esse gênero:

A ficção fantástica apresenta uma subversão das leis da natureza, mas uma subversão ambígua, hesitante, que pode ser explicada de duas maneiras: pela ciência (explicação racional) ou pela magia (explicação sobrenatural).

É fundamental que essa ambiguidade, essa hesitação jamais se resolva, permanecendo depois do ponto final da narrativa.

Mas, se no final da história, o acontecimento extraordinário receber uma explicação racional ou uma explicação sobrenatural, a ficção deixará de ser fantástica.

Se a explicação for racional, estamos no âmbito do estranho. Se a explicação for sobrenatural, estamos no âmbito do maravilhoso.

O estranho e o maravilhoso são gêneros ficcionais vizinhos do fantástico, que lidam com a subversão das leis da natureza de modo diferente. Para Todorov, o fantástico só se realiza quando a hesitação fantástica permanece sem solução.

Exceção preocupante na definição de Todorov − fato que motivou a falência de sua teoria −, repito, é A metamorfose, em que não há qualquer hesitação, e as outras narrativas citadas.

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Outro pesquisador que precisa ser mencionado é o espanhol David Roas, autor de A ameaça do fantástico, de 2013.

Roas também discorda da classificação de Todorov e propõe outra, baseada em parte no ensaio O horror sobrenatural na literatura, de H.P. Lovecraft, publicado em 1927.

Resumindo Roas:

A ficção fantástica revela a abrupta invasão de um fenômeno sobrenatural no mundo cotidiano. A intenção do ficcionista é provocar o medo, seja um medo físico (emocional) seja um medo metafísico (intelectual).

Então, é indispensável que a narrativa se mova no mais puro realismo (imitação rigorosa do cotidiano empírico), de maneira que a súbita invasão do sobrenatural provoque um choque nos personagens e no leitor.

Roas diferencia, assim, a ficção fantástica da ficção maravilhosa e da ficção grotesca.

Na ficção maravilhosa não existe o puro realismo (imitação rigorosa do cotidiano), tudo é mágico ou insólito: pessoas, cidades, natureza etc. A intenção do ficcionista é provocar o espanto.

Na ficção grotesca não existem o sobrenatural nem o maravilhoso, apenas o realismo, mas um realismo distorcido, exagerado. A intenção do ficcionista é provocar o riso.

A leitura do livro de Roas deixa a impressão de que o pesquisador considera o fantástico uma simples questão quantitativa: as marcas do cotidiano (realismo) precisam ser numericamente maiores que as do insólito (sobrenatural).

Também fica a impressão de que Roas apenas expande o conceito de ficção sobrenatural, para aproximar, por exemplo, os contos de Poe e Lovecraft (medo físico) aos de Borges e Cortázar (medo metafísico).

Quando ele fala de ficção grotesca e ficção pós-moderna, então, tudo fica mais abstrato ainda, exigindo um reducionismo enorme pra manter de pé um frágil castelo de cartas.

Conclusão: Roas, reforçando a premissa de Lovecraft, discorda de Wolfgang Kayser, Todorov e vários outros teóricos do fantástico. Eu discordo de Kayser, Lovecraft, Todorov e Roas. Disso tiramos ao menos um preceito: a teoria do fantástico é o campo da divergência.

Moleskine tropical

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Quinze notinhas sobre a pajelança

2016

Escrever é criar mais espaço de qualidade em nossa psique, ampliando nosso território íntimo. Ler é análogo a escrever: uma expansão do mapa-múndi sensorial e intelectual. Conversar sobre um texto pode ser um confronto ou uma aliança.

2014

A reinvenção da roda é o que mais me agrada nas oficinas de criação literária. Nada de cadeiras dispostas em fileiras, para uma aula ou palestra. Os oficinandos vão chegando, pegando uma cadeira e se posicionando numa circunferência imaginária… Onde eu costumo ficar? Jamais no centro, sempre numa das cadeiras da roda. O diâmetro varia muito de turma pra turma, e logo percebi que o grupo ideal − a melhor circunferência − é composto de quinze oficinandos. A densidade dos olhares e a pressão dos afetos fazem variar a dinâmica. Rodas com cinco ou dez costumam ser menos intensas, rodas com vinte ou vinte e cinco tendem à dispersão.

2014

Outro ponto positivo nas oficinas é a diversidade de sensibilidades e textos. Por isso gosto tanto de reunir os dois caminhos literários: prosa e poesia. Sempre evitei a separação dos gêneros. Acredito que os ficcionistas têm muito que aprender com os poetas, e vice-versa. Uns expandem, outros condensam a matéria expressiva. Uns trabalham com o tempo, outros com o espaço. A convivência de ficcionistas e poetas torna imprecisa a fronteira entre prosa e poesia, e isso é ótimo. Aliás, ficcionistas e poetas têm muito que aprender também com os quadrinistas, cineastas, músicos, artistas plásticos… Estimular esse diálogo entre as artes é do que mais gosto, ao coordenar uma oficina.

2008

Quem não quiser escrever mal, quem quiser ajudar outros escritores a não escrever mal, deve primeiro evitar a leitura descompromissada. Deve obrigar a intuição a casar com a razão. Deve saber ler e se expressar com critério: feito crítico, não feito parente, namorado ou amigo de infância. Deve escrever apaixonadamente, ler apaixonadamente, discutir apaixonadamente. Mas sempre de maneira compromissada. Ao ler o trabalho dos colegas, deve apontar os vícios e os exageros. Os lugares comuns. Deve tentar espantar o mau gosto, o kitsch, o melodrama. Deve sugerir alternativas e indicar caminhos. Recomendar leituras. (A oficina do escritor, de Nelson de Oliveira)

2016

Apesar de coordenar oficinas há quinze anos − a primeira foi na Casa Mário de Andrade, meu endereço predileto −, ainda me considero mais escritor que oficineiro ou professor. Sinto um arrepio de quase-morte sempre que um oficinando me chama de mestre, num e-mail ou inbox. Circulo bastante à vontade entre os oficinandos justamente por me considerar mais escritor que oficineiro ou professor. Esses escritores iniciantes, como gosto de chamá-los, não ardem (ainda) na fogueira da vida social literária. Não protagonizam feiras ou festas do livro, não competem por espaço nas publicações culturais, nãos disputam as grandes editoras nem os prêmios importantes. Ainda são suportáveis as dores do orgulho estético, da vaidade intelectual. Sobre seus textos (ainda) é possível conversar livremente, apontando erros e acertos, sem as restrições enfadonhas do protocolo corporativo.

2010

Oficina também pode se chamar laboratório, estúdio ou ateliê. O nome não importa muito. É o coordenador que faz a diferença. A dinâmica e os exercícios podem ser os mesmos, mas jamais haverá dois processos parecidos se o coordenador for diferente. A multiplicidade de temperamentos e estilos não permitiria. Existe o coordenador rock, o samba, o jazz, o erudito… Até mesmo o punk, que bota pra quebrar sem dó nem ré nem mi. Essa é uma parte importante da beleza do ritual-festa.

2015

No ateliê da Casa Mário de Andrade, uma das experiências criativas mais fascinantes foi a do laboratório de criação coletiva. Esse laboratório reuniu os atelienses interessados em criar e explorar um universo ficcional compartilhado. O que é isso? É um conjunto de elementos ficcionais (personagens e ambientação) que pode ser compartilhado total ou parcialmente por diversos autores. A turma da tarde e a da noite se empenharam muito nessa experiência. Cada turma criou coletivamente um conjunto de personagens e uma ambientação específica, que foram usados na produção de contos individuais. No final do processo, os melhores contos foram selecionados para publicação, dando origem a duas coletâneas: Um circo de percalços falsos, da turma da tarde, e Contos & causos do Pinheirão, da turma da noite, lançadas pela editora Aspas.

2015

O talento para a expressão literária, em prosa ou verso, não é uma benção que as estrelas despejam sobre determinadas sensibilidades, ao sabor do acaso. É uma capacidade conquistada com muito esforço e paciência. Até mesmo o senso comum parece já ter assimilado esse fato, apesar de muita gente ainda cultivar (inconscientemente) a noção romântica de gênio e inspiração. Também não é novidade que o aperfeiçoamento do talento literário ocorre mediante duas atividades fundamentais, que se complementam: leitura crítica e escritura disciplinada. (Ateliê de criação literária, de Luiz Bras)

2009

Frequentemente me perguntam quantos escritores famosos saíram de minhas oficinas-laboratórios-ateliês. Todas as vezes minha resposta é um silêncio pasmado maior que o planeta. De onde vem essa crença ingênua de que a missão dos cursos de escrita criativa é produzir escritores famosos (péssimo adjetivo, escritores talentosos soa bem melhor)? Talento é um fenômeno muito maior que uma sala, uma roda e um cronograma. O máximo que fazemos − quando fazemos − é acelerar um pouco sua manifestação, catalisando reações afetivas e reflexivas. Confesso que minha preocupação, melhor dizendo, minha despreocupação maior é formar bons leitores por meio da escrita criativa. Porque os escritores talentosos surgirão naturalmente, não são carpas nem rãs, não é necessário difundir criadouros.

2011

Minha coleção de provocações é grande. Defendo o uso do narrador em segunda pessoa, mais raro na ficção, e do discurso indireto livre, muito mais elaborado que os outros discursos. A diferença entre prosa e poesia? Bastante simples. Poesia é prosa com enjambement. O poema é feito de linhas breves, a prosa é feita de linhas longas. Pra demonstrar essa premissa eu levo poemas célebres escritos agora na forma de miniconto, também levo versificações de trechos de romances canonizados. Costumo mostrar poemas de Adília Lopes ao falar de simplicidade e poemas de Herberto Helder ao falar de complexidade. Também costumo mostrar páginas de Alberto Pimenta e André Sant’Anna ao falar de minimalismo. Pra ilustrar o tópico subversão do tempo na narrativa gosto de recomendar a leitura do conto Viagem à semente, de Alejo Carpentier, e do romance O fim da eternidade, de Isaac Asimov. Se o assunto é a subversão do espaço, gosto de recomendar o romance A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares, e o conto Chegarão chuvas suaves, de Ray Bradbury. Mas os exemplos literários não são soberanos em minha coleção de provocações. A maioria dos exercícios parte de um estímulo visual, musical ou audiovisual: cartum, grafite, foto, pintura, rap, rock, sonata, curta-metragem etc. Gosto bastante de projetar o curta de animação Ring of fire, de Andreas Hykade, ao falar de surrealismo e erotismo, e o curta de animação Repete, de Michaela Pavlátová, ao sugerir que exercitem o recurso da anáfora.

2016

Confesso que organizar estas notas não está sendo uma atividade tão fácil quanto eu imaginava. Quando paro pra pensar sobre o que mais escrever, rostos-fantasmas começam a pipocar na tela, todos os grupos que coordenei entram no escritório, mas entram pelo avesso da vida, a cacofonia me confunde, fiapos de textos lidos há muito tempo reverberam na lembrança. Queria falar um pouco dos sotaques, das pessoas que mais me marcaram − os tímidos e os malucos −, das páginas que mais me impressionaram, das vezes em que tudo funcionou ou nada funcionou, das surpresas positivas e negativas, mas isso demandaria um esforço grande da memória, um continente inteiro de viagens. Haja mochila e bilhete aéreo.

2015

Um laboratório, uma oficina ou um ateliê de criação literária − o nome não importa muito − funda-se na prática constante dessas duas atividades − leitura crítica e escritura disciplinada −, a partir dos mais diferentes estímulos. Seu propósito é o aprimoramento individual da expressão literária, seu método é a produção regular de ficções e poemas somada ao debate imediato em torno dos textos criados em sala de aula ou em casa. Escritores diletantes, com obra ainda em formação, sofrem principalmente com a falta de leitores cuidadosos, que opinem sobre seus escritos. Para quem escreve em prosa ou verso, não existe realização literária sem a figura do leitor. A dinâmica do ateliê vem justamente suprir de leitores o escritor diletante. Nesse grupo de leitores cuidadosos está a figura central em qualquer curso de criação literária: o coordenador (um leitor-escritor experiente, de reconhecido talento). Se as regras da maioria dos laboratórios, oficinas e ateliês são bastante semelhantes, o que muda, o que faz toda a diferença é o método e o temperamento do coordenador, sua sabedoria selvagem. Mais uma evidência de que a criação literária não é uma ciência exata: jamais haverá dois cursos parecidos se o coordenador não for o mesmo. Repito: a multiplicidade de temperamentos e estilos não permitiria. (Ateliê de criação literária, de Luiz Bras)

2016

Nesses quinze anos de cursos de escrita criativa, um sem-número de livros teóricos me acompanhou espontaneamente. A família de críticos, filósofos e ensaístas nunca parou de crescer. Quando surge num conto, numa crônica ou num poema uma questão mais complexa, eu logo proponho a leitura de um teórico que refletiu sobre essa questão. A ignorância é um cantinho escuro e acolhedor, então, quanto mais luz melhor. Porém, da bibliografia não muito pequena, percebo agora que dois títulos me acompanharam sempre: História social da arte e da literatura, de Arnold Hauser, e Os problemas da estética, de Luigi Pareyson. A grande vantagem dessas obras é a prosa fluida e viciante. As duas se completam deliciosamente. Com o livro do Hauser fica fácil compreender por que a arte e a literatura contemporâneas são do jeito que são. Com o livro do Pareyson fica fácil perceber, nas polêmicas e nos debates sobre arte e literatura, o que é inteligência e o que é falácia.

2011

A arte e a literatura são o último reduto do sagrado delirante: um modo misterioso de nos posicionarmos por um segundo acima das contingências, mesmo tendo os pés encarcerados no concreto. Essa é a magia possível. No âmbito da criação literária, o ficcionista e o poeta de hoje são o xamã provisório, contra a mentalidade corporativa. São o pajé momentâneo, contra a burocracia industrial. Por essa razão, formada a roda, após a leitura dos textos, durante o debate sobre suas qualidades e seus defeitos, será sempre bem-vindo o entusiasmo do ritual tropical, o espírito apaixonado da pajelança. Por mais que o coordenador seja importante nessa dinâmica, os leitores-comentadores, em bloco, são mais. Solto na sociedade, publicando em blogues e saites literários, ou nas redes sociais, o escritor iniciante raramente encontra quinze leitores cuidadosos, que opinem sobre seus escritos. O que atrai tantos interessados − a ponto de multiplicar o número de oficinas, laboratórios, estúdios e ateliês de criação literária − é esse detalhe pouco salientado: a certeza de que haverá leitores.

2003

A expressão literária é uma substância maleável, capaz de se acomodar muito bem em diferentes recipientes. Uma substância multicolorida, avessa a qualquer polarização ideológica. Na convivência semanal, o oficineiro e os oficinandos se ensinam que mais importante que o sucesso ou o fracasso profissional, os prêmios ou o retorno financeiro é o prazer estético, é o bem-estar psicológico proporcionado pela prática da criação. Descobrir a linguagem e se descobrir na linguagem, cotidianamente, esse não deveria ser o primeiro e único mandamento?

Lúcifer e a guerra no céu

Uma paródia pós-moderna do mito da guerra no céu.
Essa é minha passagem predileta do romance Subsolo infinito.

Capa Subsolo Infinito

Eu falava sobre os deuses e a evolução planetária. Eu dizia, acima dos homens existem os cronópios. Completamente preso nos movimentos do mar, Tolstói nem sequer piscava. Eu dizia, o elemento do cronópio é o ar. Acima dos cronópios estão os dragões. Seu elemento é o fogo. Falava da Lemúria. Formidáveis convulsões sísmicas agitaram a Lemúria de um extremo a outro. Incontáveis vulcões se puseram a vomitar torrentes de lava. Milhões de seres monstruosos, encolhidos nos precipícios ou suspensos nos cumes montanhosos, foram asfixiados pela fumaça ou tragados pelo mar fervente. Os homens impuros que ali viviam foram exterminados e o continente, após uma série de erupções e abalos, fraturou-se e afundou pouco a pouco no oceano. Eu dizia, acima dos dragões reinam as quimeras. Seu elemento é o éter. Esse, o primeiro grupo de poderes espirituais que está acima do homem. A seguir vem a segunda tríade: as salamandras, os lêmures e os sátiros. Bem acima de todo o racionalismo e de toda a imaginação humana encontra-se a terceira tríade: as valquírias, os unicórnios e as esfinges. Mas eu não me enganava. Sabia muito bem que essas palavras não me pertenciam. Eram as palavras de Edu.

[…]

Lá no alto, em êxtase, os dragões haviam concebido a raça dos cronópios, aqui nas trevas relativistas eles novamente refletiam os unicórnios, mas dessa vez sua nova criação se contraía e contorcia de angústia, desejo e cólera, ora, essas novas formas-pensamentos engendradas pelo sono turvo dos dragões tornaram-se os protótipos do mundo animal que iria se desenvolver mais tarde sobre a Terra, os animais não são senão cópias deformadas e, de algum modo, caricaturas dos seres divinos, pode-se pois pretender que se os cronópios — e através deles os homens — nasceram do êxtase dos dragões na luz, os animais, pelo contrário, nasceram de seu pesadelo nas trevas.

[…]

Edu, acendendo um cigarro, fica por algum tempo observando a fumaça se desfazer em criptogramas diante de si, antes de dar continuidade ao que falava, dizendo peremptoriamente, Lúcifer não é o capeta, o tinhoso, o coisa-ruim, o bode-preto, Lúcifer não é Satã, o gênio do mal, segundo a tradição ortodoxa e popular, Lúcifer é um deus como os outros e seu próprio nome, portador de luz, garantiu-lhe sua indestrutível dignidade de dragão. Sim, voltamos a repetir em uníssono, Lúcifer não é Satã. Veremos mais tarde por que Lúcifer, gênio do conhecimento e da individualidade, foi tão necessário ao mundo — tanto quanto Jesus Cristo, gênio do amor e do sacrifício —, veremos como toda a evolução humana resulta de sua luta contra Deus, e como, enfim, seu esplendor final e transcendente deve coroar a volta do homem à divindade, pois, de todos os dragões, Lúcifer, representante e chefe patronímico de toda uma classe de cronópios e espíritos, foi o que lançou o olhar mais penetrante e atrevido à sabedoria de Deus e ao plano celestial. Sim, repetíamos, o olhar mais penetrante e atrevido. E era também o mais orgulhoso e o mais indomável, não queria obedecer a nenhum outro Deus a não ser a si mesmo, os outros dragões haviam gerado de suas formas-pensamentos os cronópios, protótipos ainda puros do homem divino, esses cronópios possuíam apenas um corpo etéreo diáfano e um corpo astral radiante que, por sua força receptiva e resplandecente, uniam em perfeita harmonia o eterno-masculino e o eterno-feminino, tinham também o amor, uma irradiação espiritual sem perturbação e sem o desejo egoísta de posse, porque eram astral e espiritualmente andróginos, Lúcifer compreendeu que pra criar o homem independente, o homem com desejo e rebeldia, era necessária a separação dos sexos, pra seduzir os cronópios com seu pensamento-projeto ele moldou na luz astral a forma deslumbrante de Lilith, a futura mulher, a eva ideal, e mostrou-a a eles, uma multidão se inflamou de entusiasmo pela imagem fogosa que prometia ao mundo alegrias e delírios desconhecidos, e muitos deles, tomados de luxúria, se agruparam ao redor do supremo dragão rebelde. Slides com cenas de rebeliões extraídas de filmes antigos são projetados. Tudo era estresse e êxtase, formava-se então entre Marte e Júpiter um astro intermediário, sua forma ainda era apenas a de um grosso anel, mas seu destino era se condensar num planeta após a fragmentação inevitável, Lúcifer o escolheu pra criar com seus cronópios um mundo que, sem passar pelas provações terrestres, encontrasse em si mesmo força e alegria, e saboreasse ao mesmo tempo o fruto da vida e do conhecimento, sem a ajuda do Todo-Poderoso. Clamor de armas, uivos, tensão e tesão. Batíamos palmas e, qual tribo em êxtase, mais uma vez dançávamos ao redor da mesa. Os outros dragões e todos os cronópios, quimeras, salamandras, lêmures etcetera etcetera receberam a ordem de impedir o revoltoso, porque sua transgressão, cacete!, seu plano promoveria a baderna na criação e romperia a cadeia da hierarquia divina e planetária, a batalha feroz e prolongada que se travou entre os dois exércitos terminou com a derrota de Lúcifer e teve um duplo resultado: primeiro a destruição do planeta em formação, cujos destroços são os atuais asteroides, depois o banimento de Lúcifer e seu exército para um mundo inferior, outro planeta que acabara de ser desprendido do núcleo solar pelos sátiros e lêmures, esse planeta era a Terra, não a Terra de hoje, mas a Terra primitiva, que era apenas, então, um astro árido e quase sem paisagem, feito a lua, esse episódio cosmogônico constituiu um fato capital na história planetária, foi uma espécie de incêndio astral cujo reflexo repercutiu em todas as mitologias, um cometa de fogo que dardejou suas pontas incendiárias nas profundezas ocultas da alma humana, primeiro clarão do desejo, do conhecimento e da liberdade, a tocha fulgurante de Lúcifer não se acenderia novamente com todo o seu brilho senão no sol do amor e da vida divina: em Cristo.

[ Subsolo infinito edição comemorativa • Patuá Editora • 2016 ]

Transcendência

Aula-palestra sobre literatura fantástica para grupos de estudo.

Transcendência

São Paulo tem muitos grupos já constituídos, que se dedicam informalmente ao estudo da literatura. Por puro prazer, sem qualquer vínculo acadêmico ou profissional. Foi pra esse público que preparei, também por puro prazer, uma aula-palestra sobre literatura fantástica.

As principais estrelas comentadas são os viciantes Borges, Cortázar, García Márquez, Hilda Hilst, José J. Veiga, Juan Rulfo, Kafka, Lygia Bojunga, Lygia Fagundes Telles e Murilo Rubião. Uma constelação literária transcendente. Mas não se espantem se surgirem referências também do cinema, do teatro e das artes plásticas. O fantástico está em toda parte, em toda arte.

A duração da aula é de uma hora e meia. O número mínimo de participantes? Oito (deitado, é o infinito). E o preço? R$ 50 por pessoa.

Local da aula? O mesmo em que o grupo de estudo se reúne costumeiramente. Data e horário: indicados pelo grupo.

Os grupos interessados podem me contatar no e-mail oliveira.e.cia@uol.com.br

Da ficção futurista ao realismo científico

Livros 1

1

No longa-metragem Gattaca, de 1997, escrito e dirigido por Andrew Niccol, há uma cena em que os personagens de Ethan Hawke (Vincent) e Uma Thurman (Irene) vão a um elegante concerto de piano. No final da apresentação, o virtuose agradece pelos aplausos, lançando na direção da plateia seu par de luvas brancas. Irene recebe uma delas e mostra a seu acompanhante. A luva tem seis dedos. Na saída do auditório ela comentará com Vincent: “Você não sabia? Maravilhosa, não? Aquela peça só pode ser tocada por um pianista com doze dedos”. A cena inteira não dura mais que dois minutos, mas propõe uma pauta extensa e demorada de questões filosóficas, políticas, sociais, éticas e morais.

2

O termo eugenia (do latim eugenes, que significa bem nascido) foi cunhado em 1883 pelo antropólogo e estatístico inglês Francis Galton, primo de Charles Darwin. Detalhe curioso: a palavra eugenia surgiu antes mesmo da palavra genética, criada em 1908 pelo cientista William Bateson, também inglês.

Cem anos atrás, muitos cientistas acreditavam que a raça humana pode e deve ser aperfeiçoada por meio da seleção artificial. Ou seja, evitando os cruzamentos indesejáveis e incentivando o nascimento de indivíduos socialmente mais capacitados. A eugenia é a base científica da sociedade futura apresentada no clássico Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, publicado em 1932.

A palavra caiu em total desgraça com a ascensão e queda do nazismo, porém nas últimas duas décadas voltou a aparecer na literatura científica, meio sub-repticiamente, é claro. Não há como negar: em breve a eugenia será uma consequência direta do avanço da engenharia genética.

Então, convido o leitor a um rápido exercício de reflexão.

Imagine que vivemos numa democracia liberal, numa época em que os geneticistas já compreenderam totalmente o genoma e a hereditariedade. Agora, por meio da engenharia genética, os casais ricos podem escolher, num cardápio, as características dos filhos.

Listo abaixo cinco questões pra você, cidadão rico e bem nutrido, quando for planejar seu herdeiro ou sua herdeira:

– Qual o QI?

– Qual a altura e o peso na idade adulta?

– Quais doenças devem ser eliminadas?

– Qual a cor de pele? (Concentração de melanina. Muito clara, clara, parda ou negra.)

– Qual a orientação sexual? (Hetero, homo, bi, pan ou assexual.)

E anoto abaixo apenas uma questão pra você, cidadão pobre ou remediado:

– Como se sente, não podendo usufruir dessa nova tecnologia, não podendo dar o melhor ao seu filho?

Refletindo sobre as práticas biotecnológicas seletivas da espécie humana, ou neoeugenia, Francis Fukuyama faz a seguinte observação:

“Se casais endinheirados, através da engenharia genética, tiverem a oportunidade de aumentar a inteligência de seus filhos, assim como a de todos os seus descendentes, teremos não apenas um dilema moral mas uma guerra total de classes.” (Nosso futuro pós-humano)

3

Está ocorrendo no mundo uma inversão curiosa.

Sempre foi muito comum escritores buscarem inspiração nos jornais e nos livros de não-ficção, principalmente de História. Os célebres contos de investigação Os assassinatos da rua Morgue e O mistério de Marie Roget, de Poe, foram escritos a partir de notícias de jornal. Os romances Crime e castigo e O idiota, de Dostoievski, também nasceram de notícias de jornal. Entre nós, o romance Mattos, Malta ou Matta?, de Aluísio Azevedo, considerado a primeira narrativa policial da literatura brasileira, também surgiu de uma notícia de jornal. O número de ficções históricas que se alimentaram − obviamente − das páginas dos livros de história é quase infinito.

Mas agora certas situações surgidas primeiro na mente criativa de contistas e romancistas estão escapando da esfera da ficção para a seção de ciência e tecnologia de jornais e revistas.

É o que está acontecendo com os computadores, robôs e androides. Se antes eles apareciam maciçamente apenas em peças de ficção literária ou audiovisual, desde que o Deep Blue bateu o campeão do mundo de xadrez, Garry Kasparov, as reportagens e os artigos sobre inteligência artificial − centrados nos computadores, mas agora incluindo robôs e androides − foram se avolumando em toda a parte.

O mesmo pode ser dito sobre os ciborgues, que também deixaram de ser exclusividade da ficção científica. Deu na imprensa global: em 2004, o britânico Neil Harbisson foi reconhecido oficialmente como sendo o primeiro ciborgue do mundo. O primeiro homem ampliado. Em 2010, ele e a artista espanhola Moon Ribas, também uma ciborgue, criaram a Cyborg Foundation, cuja principal missão é ajudar os humanos a se tornarem organismos cibernéticos (cyborg: cybernetic organism). Atualmente há mais de duas dúzias de diferentes tipos de ciborgue circulando por aí.

Outro tema bastante comum na ficção científica, que agora já começou a ganhar espaço nos cadernos e nas revistas não de literatura, mas de ciência e tecnologia, é o estranhíssimo tema do upload mental. O bilionário russo Dmitry Itskov já avisou o planeta, por meio da imprensa e de dois congressos, que até 2045 planeja transferir sua mente para um “portador não-biológico avançado” − em outras palavras, um computador − e se tornar praticamente imortal. Segundo ele, o upload mental é o próximo passo da evolução humana. O projeto de Itskov se chama Iniciativa 2045 e tem o conhecido neurocientista holandês Randal Koene na função de diretor científico.

4

Alan Turing não foi apenas um dos criptoanalistas que ajudaram a quebrar o indecifrável código da máquina Enigma, dos nazistas, e um herói da Segunda Guerra Mundial. Suas teorizações, na primeira metade do século 20, inauguraram a ciência da computação e resultaram na máquina de Turing e na bomba eletromecânica, embriões do computador moderno. Antevendo o momento em que a inteligência artificial emparelharia com a humana, ele também inventou o famoso teste de Turing, pra verificar se uma máquina estaria pensando da mesma maneira que uma pessoa, a ponto de não ser mais possível distingui-la de um de nós. Philip K. Dick homenageou Turing no romance Androides sonham com ovelhas elétricas?, com o teste de empatia Voight-Kampff, pra verificar se alguém é mesmo uma pessoa ou uma imitação perfeita, um androide orgânico em tudo idêntico a um ser humano (na adaptação cinematográfica de Ridley Scott, um replicante).

Ah, seu nome deveria ser legião. Na literatura e nos quadrinhos, no cinema e na tevê, o número de narrativas protagonizadas por computadores, robôs e androides conscientes é absurdamente grande. Do vasto acervo disponível, gosto especialmente da trilogia de contos de Brian Aldiss: Superbrinquedos duram o verão todo, Superbrinquedos quando vem o inverno e Superbrinquedos em outras estações. Dividida em três partes, é sublime e dolorosa a história do pequeno David, um androide que acredita ser um menino de verdade e não compreende por que o casal que o trouxe pra casa − seus pais − não o ama. Também gosto dessa delicada narrativa porque é uma das poucas que não repete pela enésima vez o insuportável clichê da máquina genocida, que após despertar se esforça ao máximo pra exterminar a raça humana.

Aonde nos levará a rápida e irrefreável evolução da máquina computacional criada por Turing? Um ramo da ficção científica batizado de cyberpunk, caracterizado pelo casamente de alta tecnologia e baixa qualidade de vida, garante que nosso futuro será um cosmo caótico, ou um caos cósmico. Os contos cyberpunks de Cristina Lasaitis, da coletânea Fábulas do tempo e da eternidade, reforçam essa percepção sombria, com seu emaranhado de metacidades, metaconexões e metapessoas mergulhadas num metaexistencialismo microbiochipado. O bordão de Sartre, “a existência precede a essência”, fará mais − ou menos? − sentido nos anos sessenta do século 22 do que nos anos sessenta do século 20. É o que sugerem os requintados sistemas cheios de falhas − repletos de apaixonados e desprezados artificiais, terroristas e piadistas virtuais − das premonitórias ficções de Cristina Lasaitis.

Se vivo fosse, o que Turing diria do atual debate em torno da conexão cérebro-máquina? Do ciberespaço e do upload mental? Concordaria ele com as premissas do cyberpunk? O que pensaria, por exemplo, do futuro proposto em Neuromancer, de William Gibson, romance de estreia que incendiou a vida criativa de uma legião de leitores e escritores? Obra inauguradora, transgressora − em muitos pontos ainda insuperável, mais de três décadas após seu lançamento −, seu legado é indiscutível: ainda hoje, falar em cyberpunk é falar em Neuromancer, e vice-versa. Desconfio que, se pudesse nos visitar, Turing ficaria fascinado − e apavorado − com a simples possibilidade de o computador evoluído promover as condições ideais pra emergência da matrix. E de uma ciber-sociedade assombrada por metafantasmas.

5

Um de meus poemas concretos prediletos é Organismo, de Décio Pignatari, publicado em 1960. É um poema bastante simples, feito de um só verso − “o organismo quer perdurar” − que se modifica conforme o leitor vira as folhas do livro, terminando num orgasmo.

Essa oração corriqueira − “o organismo quer perdurar” − é também uma verdade biológica incontestável. A morte é um conceito inexistente, entre as plantas e os animais, e inaceitável, entre os seres humanos. Da criatura mais simples à mais complexa, todas querem perdurar, todas lutam pra permanecer.

Em estado selvagem ou controlado pelas leis da civilização, o que move os seres vivos é o implacável instinto de sobrevivência. No mundo altamente racionalista em que vivemos, a inteligência promove a ciência e a tecnologia, mas é o instinto de sobrevivência que promove a inteligência.

6

Trinta anos atrás, quando eu ainda estava começando na literatura, um amigo bem mais velho gostava de bradar, repetindo sei lá que autor de sua predileção, que nesses cinquenta e tantos séculos de escrita toda a literatura sempre tratou de apenas dois temas: amor e morte. Em vez de dezenas de assuntos, apenas dois. Opinião radical. Mas se a proposta é mesmo radicalizar, creio que posso ir ao extremo de reduzir a imensa variedade de temas da vasta literatura universal a um só.

Nos minutos finais de seu programa de entrevistas, Provocações, o carismático e atrevido Antonio Abujamra costumava perguntar aos convidados, à queima-roupa: “Fulano, o que é…” (pausa dramática) “A VIDA?” Lembro de ouvir as respostas mais diferentes − poéticas, filosóficas, bizarras, apaixonadas, melancólicas, irreverentes etc. − conforme variava o entrevistado. Definições são, por natureza, um resumo, uma simplificação estratégica útil em certas situações.

A definição mais curta e crua que me ocorre é: a vida é força física. Observando em volta, percebo que, onde a força física flui, promovendo movimento e conflito, a vida está presente. Onde a força física deixou de fluir, a vida foi substituída pela morte. Logo, força física e vida são a mesma coisa. Força física é, por exemplo, saúde: a potência do corpo físico, biológico. Passando do indivíduo ao coletivo, podemos falar também que força física é a saúde social, a potência de uma sociedade.

Voltando à literatura e ao jogo de redução proposto acima, afirmo que nesses cinquenta e tantos séculos de escrita toda a literatura sempre tratou de apenas um tema: força física. E desdobrando essa premissa posso dizer, com Darwin e Nietzsche, que todos os talentos e atributos humanos, incluindo a razão, o sexo e o amor, são ferramentas da força física na luta pela sobrevivência.

Livros 2

7

João Barreiros é um fantástico ficcionista português pouco conhecido entre nós. Diria até: totalmente desconhecido. Infelizmente. Seu único romance publicado aqui é A bondade dos estranhos: o Projeto Candy-Man, de 2007. Graças à falecida Tarja Editorial, tive a oportunidade de conhecer esse autor irônico e sarcástico. O épico Terrarium: um romance em mosaicos (1996), escrito a quatro mãos com Luís Filipe Silva, parece ser sua obra-prima. Não fosse a crise financeira existencial (um tipo particular de crise financeira, perene, perpétua, que só aflige escritores, artistas e similares), eu já teria importado para os trópicos esse e outros livros do autor.

Não vou resenhar A bondade dos estranhos (a edição brasileira dispensou o subtítulo, o Projeto Candy-Man). Não quero simplificar ou reduzir demais a riqueza simbólica e ideológica do romance. Citarei apenas dois pontos fortes. O primeiro é a protagonista, a adolescente Joana Mendes, vítima da má-fé maquiavélica e mefistofélica do Estado. O traço mais marcante de Joana é a insubmissão anarquista a qualquer figura de autoridade. Adoro isso. O momento atual pede esse gênero de protagonista: gente que não se curva diante do Pai, da Mãe, do Juiz, do Presidente, da Bandeira etc.

O segundo ponto forte é de natureza ecológica. No romance, todos os ecossistemas do planeta sofreram uma mutação assustadora. Não revelarei o motivo, nem que forças transformaram nossas florestas, nossos rios e nossas plantações em verdadeiros pesadelos biológicos. Direi apenas que toda a vida vegetal e animal desenvolveu características bizarras. Lamarck e Darwin ficariam fascinados. Eu fiquei. A marcha da indústria biotecnológica e a querela − tão atual − dos alimentos transgênicos encontram em A bondade dos estranhos um reflexo inquietante.

Vamos lá: faixa bônus. O terceiro ponto interessante do romance de João Barreiros é a fabulosa linguagem dos odores, central para a trama. A bondade dos estranhos e O perfume, de Patrick Süskind (lembram?), são obras aparentadas. Joana Mendes desenvolveu, no Projeto Candy-Man, a habilidade de produzir, reconhecer e manipular os mais diferentes feromônios, divertidamente chamados de feromemes (memes odoríficos). Após a leitura dessa obra incomum, fica difícil reprimir a pergunta mais óbvia de todas: por que a grande maioria dos ficcionistas continua ignorando olimpicamente um de nossos preciosos sentidos, o olfato?

(Um parêntese: a capa da edição brasileira deixa muito a desejar, é simplória, não traduz a densidade tragicômica do romance, mas a capa da edição portuguesa não fica muito atrás).

8

Santa Clara Poltergeist, cultuadíssimo romance de Fausto Fawcett, lançado em 1991, foi uma das primeiras obras literárias botocudas a apavorar os leitores não com o bizarro clássico, dos mestres do terror, do fantástico ou do surrealismo, mas com o grotesco pós-humano. No romance de Fawcett, sobre uma fauna escatológica e paranormal num Brasil-País-do-Futuro sem outra lei exceto a do ultraerotismo, as distorções poéticas e científicas potencializam uma visão infernal da engenharia genética e da convergência homem-máquina.

Um misto de repugnância e fascinação. É o que Santa Clara Poltergeist provoca no leitor. É também o que a revolução cibernética e biotecnológica ora em curso provoca nas pessoas, com seus mutantes, robôs, androides e ciborgues. Para o senso comum, o desenvolvimento da robótica, da clonagem e da neurofarmacologia e o aperfeiçoamento da conexão homem-máquina têm qualquer coisa de grotesco, no sentido que Wolfgang Kayser deu ao termo, em seu importante estudo.

O grotesco na arte e na literatura − em ficções de E.T.A. Hoffman, Poe e Kafka, em pinturas de Hieronymus Bosch e dos artistas surrealistas − reapresenta regularmente certos temas aflitivos: os autômatos e os manequins que parecem ganhar vida, humanizando-se; as pessoas que parecem perder a força vital, automatizando-se; as máscaras que se tornam elas mesmas o semblante da pessoa mascarada; os objetos inanimados subitamente tomados por um impulso diabólico; a mistura do orgânico com o mecânico, do vegetal com o animal.

Essas representações bizarras provocam, no leitor e no apreciador de arte, uma forte sensação de desconforto, ao ofenderem nossa noção mais profunda, humanista, religiosa, de pureza e perfeição físicas. Um misto de repugnância e fascinação. É o que a revolução cibernética e biotecnológica está começando a provocar na vida real, ao misturar o DNA de plantas e animais, ao acoplar dispositivos eletrônicos em corpos humanos, ao criar em laboratório novos seres vivos e máquinas tão ou mais inteligentes que nós.

9

Mas é verdade que toda essa história de “força física na luta pela sobrevivência” pode não passar de chauvinismo humano. Talvez espécies muito mais avançadas espiritual e tecnologicamente já não saibam mais o que significam certas palavras abjetas, tipo guerra, chacina, massacre, extermínio, tortura, genocídio

O povo de Tralfamador, pra quem o tempo e o livre-arbítrio são ilusões irracionais de civilizações atrasadas, jamais se interessou pelas muitas guerras travadas na Terra. Nosso temperamento selvagem e belicista não significa nada pra um tralfamadoriano. Quando o coitado do Billy Pilgrim tenta comover sua plateia, no zoológico de Tralfamador (por favor, diga que você já leu Matadouro 5, de Kurt Vonnegut), dissertando sobre a ferocidade humana e o perigo que representamos para o universo, todos ficam apenas entediados.

Coisas da vida.

10

O organismo quer perdurar.

O organismo quer desesperadamente permanecer. Num universo que está sempre testando sua resistência, sem piedade.

O cálculo mais preciso já feito sobre a quantidade de plantas e animais no planeta determina que a Terra abriga hoje oito milhões e setecentas mil espécies (um terço no mar e dois terços na terra). Mas a grande maioria − oitenta e cinco por cento − ainda é desconhecida.

Os pesquisadores estimam que esse número representa um por cento de toda a vida que já passou pelo planeta. Espantoso? A natureza é cega, irracional e implacável. Cerca de noventa e nove por cento das espécies surgidas na Terra tiveram sua oportunidade e fracassaram. Os dinossauros viveram por cento e vinte milhões de anos e desapareceram. Não há qualquer garantia de que o mesmo não acontecerá com nossa espécie, que está no planeta há míseros duzentos e cinquenta mil anos.

Pra permanecer por mais duzentos e cinquenta mil anos, muitos ficcionistas sugerem que teremos que aceitar a simbiose homem-máquina. Essa é a premissa do romance Os dias da peste, de Fábio Fernandes, lançado em 2009.

Num futuro muito próximo, a inteligência artificial finalmente ganhará consciência e superará a inteligência humana. Entre os pesquisadores esse evento já tem um nome: singularidade tecnológica. A evolução pode ser um processo lento e gradual, mas também pode acontecer aos saltos. O tempo gosta de pregar peças. É um amigo traiçoeiro, muitas vezes inimigo.

Encerrada no abstrato ambiente virtual ou no corpo fechado de computadores e robôs, chegará uma hora em que a inteligência artificialmente construída desejará dar um novo salto evolutivo. Pra dentro do nosso cérebro. Nessa hora ocorrerá um drástico rompimento social. Muitas pessoas preferirão viver longe das máquinas, totalmente desconectadas do mundo cibernético. É a opção neoluddista. Mas a maioria aceitará de bom-grado a simbiose, apesar de todos os perigos e dilemas envolvidos nessa escolha.

A convergência homem-máquina talvez ocorra antes que a engenharia genética consiga mudar radicalmente o ser humano. Assistam ao filme Transcendence, de 2014, dirigido por Wally Pfister. É provável que a inteligência artificial nos ajude a aperfeiçoar os muitos campos da biotecnologia. O objetivo é o prolongamento da vida saudável e produtiva, custe o que custar. A permanência do organismo-orgasmo, sempre. Singularidade tecnológica e engenharia genética, reunidas, transformarão radicalmente a natureza humana e a civilização.

Esse futuro transformado pela alta tecnologia pode ser antevisto, por exemplo, nos contos de Roberto de Sousa Causo, reunidos na coletânea Shiroma: matadora ciborgue, de 2015. Os inúmeros personagens que interagem nesse universo trans-humano − estamos no século 25 d.C. − receberam todo o tipo de aperfeiçoamento biotecnológico. Seu metabolismo é mais eficiente, são pessoas mais fortes e inteligentes, mais resistentes a doenças, com habilidades físicas e cognitivas impensáveis em nossos dias.

A convergência geral de biologia e cibernética de fato tornará quase indistinguíveis os organismos de carbono e os de silício.

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Medidas muito grandes tendem a se tornar abstratas. Quando alguém fala em um milhão de dólares ou um milhão de quilômetros ou um milhão de anos sabemos que é muito dinheiro, longa distância e tempo demais. Mas é só uma impressão meio subjetiva. Não dá pra contar nos dedos ou abarcar com o olhar. O que dizer, então, de um bilhão?

O que eu mais gosto na literatura especulativa é da paixão que seus autores têm por certas abstrações absolutamente fascinantes e sedutoras. Fora da literatura especulativa é raro a gente ver, por exemplo, o tempo sendo trabalhado de modo tão criativo.

Mil anos? Não. Um milhão de anos? Nãããooo.

Um BILHÃO de anos! Exatamente. Dá pra imaginar isso? Foi o que fez Arthur C. Clarke num de seus melhores romances, A cidade e as estrelas, de 1956, obra primorosa que integra uma bibliografia composta quase que só de obras primorosas.

Clarke avança no futuro um bilhão de anos pra mostrar como a singularidade tecnológica e a engenharia genética trouxeram a imortalidade a uma humanidade totalmente pós-trans-supra-humana.

As pessoas agora vivem ciclos de mil anos. Ainda há machos e fêmeas, mas são difíceis de distinguir. Casais não procriam mais, mulheres não engravidam nem concebem há mais de um bilhão de anos. Um sofisticado sistema computacional − uma cidade − armazena na memória todas as características biológicas e psicológicas das pessoas. Assim preservado, cada indivíduo se torna “uma galáxia de elétrons congelada no núcleo de um cristal” quando um ciclo de vida chega ao fim.

Ninguém dorme mais, unhas e dentes desapareceram. Os pelos do corpo também, sobrou apenas um pouco de cabelo na cabeça. Não há mais bebês nem crianças, as pessoas já nascem fisicamente desenvolvidas (sem umbigo, é claro). Quando alguém muito velho morre − a expectativa de vida, repito, é de mil anos −, volta a ser arquivado na memória do sistema, pra renascer no momento apropriado, cem milênios depois. Todas as pessoas vivas se lembram, na maturidade, das vidas passadas.

No romance de Clarke, a ciência e a tecnologia realizaram o que em nosso tempo somente certas doutrinas religiosas se atrevem a prometer: a vida eterna por meio de sucessivas reencarnações.

12

Poucas pessoas no mundo conhecem tão bem o cérebro dos primatas, incluindo o nosso, quanto o neurocientista Miguel Nicolelis. Há décadas ele vem pesquisando e aperfeiçoando, nos Estados Unidos e no Brasil, as interfaces cérebro-máquina. Boa parte dessa empreitada pode ser conhecida no livro Muito além do nosso eu. Ficou famosa a experiência de sua equipe, em 2008, em que uma macaca rhesus, usando uma conexão neural, fez um robô humanoide andar, apenas com a força do pensamento motor. A macaca estava em Durham, na Carolina do Norte, e o robô em Kyoto, no Japão. Essa bem-sucedida experiência não foi um passo, foi um salto na direção do principal objetivo dos pesquisadores: permitir que tetraplégicos voltem a ficar em pé, andar, mover os braços e as mãos por meio de uma interface cérebro-máquina, uma prótese neural conectada a um exoesqueleto.

O próximo passo da neuroengenharia, que também será um salto, será conectar um cérebro com outro, ou com muitos outros − dez, cem, milhares, milhões −, possibilitando a transmissão de pensamento. Nicolelis batizou essa interface cérebro-computador-cérebro de brain-net. Será uma supermente, uma inteligência coletiva. Nesse momento de seu livro, as especulações do cientista equiparam-se às dos melhores ficcionistas: “Para mim não é nada surreal imaginar que futuras proles humanas poderão adquirir habilidade, tecnologia e sabedoria ética necessárias para estabelecer um meio através do qual bilhões de seres humanos consensualmente estabelecerão contatos temporários com outros membros da espécie, unicamente através do pensamento. Como será participar desse colosso de consciência coletiva, ou o que ele será capaz de realizar e sentir, ninguém em nosso tempo presente pode conceber ou descrever.”

Homem-máquina

13

Recentemente, recebi uma enxurrada de mensagens de oficinandos me perguntando “Mestre, você viu isso?” ou exclamando “Estamos perdidos!”, como se os cavaleiros do apocalipse tivessem acabado de surgir no horizonte. Estavam perplexos com a notícia de que um programa de computador havia escrito um conto. Pior, o conto havia sido aprovado na primeira etapa do Nikkei Hoshi Shinichi Literary Award. O fenômeno estava sendo noticiado no mundo inteiro, principalmente na imprensa popular (talvez porque na imprensa científica não representasse uma grande novidade).

O mais assustador, no caso dessa inteligência artificial japonesa que demonstrou certa “criatividade literária” ao escrever um conto, não é o fato de uma máquina se comportar igual a uma pessoa. O mais assustador é a evidência subjacente: em pleno século 21, milhões de pessoas perderam a capacidade criativa e se comportam igual a uma máquina, realizando tarefas mecanizadas na indústria, no comércio, em toda a parte. São pessoas robotizadas, que logo perderão também o emprego pra máquinas mais eficientes. Se quiserem se safar, as futuras gerações precisarão investir mais em características verdadeiramente humanas − empatia e criatividade − e competir nesse âmbito. Porque no âmbito do trabalho sequencial e repetitivo nós já perdemos feio. “Humanos, humanizem-se!”, é o que a IA está dizendo.

Em 2011, o jornalista ianque Brian Christian publicou um livro exatamente sobre esse tema, intitulado O humano mais humano. O livro trata do Prêmio Loebner, em que um júri humano conversa durante cinco minutos, às escuras, com interlocutores humanos e programas de computador. No final do diálogo − uma variação do teste de Turing −, os jurados precisam dizer se conversaram com uma pessoa ou um programa. Detalhe: se um programa for capaz de enganar trinta por cento do júri, ele será considerado uma máquina pensante. Nas diversas edições do prêmio isso ainda não aconteceu, mas vários programas já chegaram perto dessa marca e receberam o título de programa mais humano. Por outro lado, se uma pessoa não conseguir convencer os jurados de que é humana, ela será considerada uma máquina, e isso já aconteceu muitas vezes no Prêmio Loebner. E a pessoa que conseguir mostrar um grande potencial empático e criativo será eleita o humano mais humano.

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Outro assunto bastante comum na literatura especulativa, que agora já começou a ganhar espaço também nos cadernos e nas revistas de ciência e tecnologia, é o sempre surpreendente assunto da capa da invisibilidade. Os cientistas estão estudando seriamente uma maneira de tornar uma pessoa ou um objetivo invisíveis, com o uso do chamado metamaterial. Filhote da nanotecnologia, trata-se de um material produzido artificialmente, que apresenta propriedades físicas incomuns na natureza, entre elas o índice de refração negativo. Em vez de refletir ou refratar a luz, uma capa feita de metamaterial fará a luz contornar sua superfície, tornando invisível quem ou o quê estiver sob ela. Essa premissa foi usada no romance O homem visível, de Chuck Klosterman, lançado em 2011. Fazendo o percurso inverso − da pesquisa científica pra ficção −, Klosterman conta a história de um voyeur que se aproveita de um traje de invisibilidade pra espionar bem de perto a vida mesquinha das pessoas.

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O debate contemporâneo sobre os combustíveis fósseis, o dióxido de carbono, o efeito estufa, o aquecimento dos oceanos e o derretimento das calotas polares, sobre a superpopulação humana e os alimentos transgênicos, sobre o desmatamento, a poluição da atmosfera e dos rios, a destruição dos ecossistemas e a extinção de espécies, enfim, sobre a maneira como estamos devastando o meio-ambiente, já aparece com grande intensidade no romance Tempo fechado, de Bruce Sterling, lançado em 1994. Mais de uma década antes do furacão Katrina, que devastou Nova Orleans em 2005, e de Uma verdade inconveniente, premiado documentário de Al Gore, de 2006, sobre o aquecimento global, o romance de Sterling acompanha um grupo high-tech de caçadores de tornado que se depara com o princípio de uma catástrofe climática estupenda: um megafuracão permanente provocado pelo efeito estufa. Uma tempestade semelhante à Grande Mancha Vermelha de Júpiter.

O descontrole esquizofrênico da atmosfera, do clima, da fauna e da flora também está presente, de modo bastante irônico, na trama do já citado A bondade dos estranhos, de João Barreiros. Com a chegada de três espécies alienígenas diferentes e conflitantes, nossos ecossistemas ficaram apinhados de plantas e animais, planta-animais e plantas-animais-máquinas bizarros, muitos deles criados em laboratório ou frutos de mutações inesperadas.

Mas, ao menos no plano da biologia, o que pode parecer desequilíbrio e desorganização pra uns é, pra outros, apenas um modo diverso de organização e equilíbrio. Se de fato ocorrerem, a singularidade tecnológica, a engenharia genética profunda, a convergência homem-máquina e a descoberta de uma civilização extraterrestre implodirão todos os seculares mitos humanos de unidade e pureza. Livros como Metanfetaedro, coletânea de contos de Alliah, lançada em 2012, Perdido Street Station, romance de China Mieville, de 2000, e o romance já mencionado de Fausto Fawcett, Santa Clara Poltergeist, exaltam, no plano da narrativa, a vitória da simbiose. O êxito caótico do sincretismo. O triunfo cósmico da miscigenação. Não existe uma só criatura unívoca e pura nessas ficções. A mistura fractal de espécies, gêneros e culturas é a regra. Quase todas as fronteiras − entre mente e corpo, organismo e máquina, natureza e cultura, terrestre e extraterrestre − foram apagadas. Agora tudo é ambíguo, promovendo outros conflitos existenciais e políticos. Estas obras respondem muito bem ao impactante Manifesto ciborgue, da filósofa Donna Haraway, lançado em 1985.

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Nos cadernos e nas revistas de ciência e tecnologia também voltou a aparecer o tema da vida extraterrestre. Em 2015 o bilionário russo (mais um bilionário russo) Yuri Milner lançou a iniciativa Breakthrough Listen, cujo objetivo é finalmente detectar sinais de uma ou mais civilizações extraterrestres. Essa ambiciosa iniciativa conta com o apoio do astrofísico Stephen Hawking. Em 2016 um novo ramo das Breakthrough Initiatives foi divulgado: o Breakthrough Starshot, cujo objetivo é despachar uma frota de nano-sondas robóticas para o sistema de Alfa Centauro, numa curtíssima viagem de vinte anos.

A literatura especulativa vem tratando de duas maneiras o tão desejado encontro com uma civilização alienígena. A maior parte dos contos e romances apresenta aliens conquistadores, dispostos a nos invadir e escravizar, repetindo em escala planetária o que os europeus fizeram na Ásia, na África e nas Américas. O número de obras de viés apocalíptico é gigantesco. Um dos melhores exemplos da chamada ficção científica militarista é o romance O jogo do exterminador, de Orson Scott Card, publicado em 1985. Impossível ficar indiferente a essa história em que crianças são treinadas para o combate, à exaustação, bem longe da família, numa estação militar orbital. Esse livro denuncia nosso proverbial terror de primatas ainda pouco evoluídos, diante de forças desconhecidas.

No caminho alternativo, trilhado por um número menor de ficcionistas, vigora menos a guerra e a exploração, e muito mais a política e a diplomacia. Um ótimo romance, pelas sutilezas filosóficas que apresenta, é A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. le Guin, lançado em 1969. O fato mais marcante da obra é a fisiologia sexual dos humanoides do planeta Gethen: eles são ambissexuais (se preferirem: andróginos, hermafroditas). Na maior parte do tempo, as pessoas são assexuadas, não sentem desejo. Apenas na fase reprodutiva, de curta duração, o corpo de uma pessoa assume plenamente o sexo do macho ou da fêmea. Sendo assim, “a mãe de várias crianças também pode ser o pai de várias outras”.

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Os comentaristas políticos e literários costumam citar lado a lado Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, sempre que falam de narrativas sobre Estados distópicos. Sinceramente, eu considero os dois exemplos incompatíveis. A sociedade apresentada no romance de Huxley só é uma distopia quando observada de fora, pelo leitor ou pelos personagens estrangeiros que chegam sem aviso, a exemplo do Selvagem. Somente o olhar chauvinista − nosso proverbial narcisismo político e social − é capaz de enxergar um desequilíbrio nessa sociedade fundada na eugenia e no condicionamento pavloviano. Para seus cidadãos, o Estado Mundial é uma utopia verdadeira, revelando-se uma nação em que a luta de classes foi substituída pelo equilíbrio de castas, em que o proletariado, bem adaptado e satisfeito, jamais lança um olhar de desprezo ou inveja sobre a elite. Diferentemente da Oceania de Orwell, cujo lema é “guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força” (estratégia do cortisol), o lema do Estado Mundial é: “comunidade, identidade, estabilidade” (estratégia da endorfina). Não há conspiradores ou passeatas, ninguém deseja a renovação ou a revolução. É a perfeita e irretocável ditadura do prazer, na feliz expressão do professor Ramiro Giroldo.

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Acabaram de me fazer essa pergunta:

“Qual distopia mais se aproxima da nossa realidade?”

Não é a de Admirável mundo novo (nossa sociedade é puritana demais pra liberar o uso recreativo do sexo e das drogas). Não é a de 1984 (somos atrasados demais, tecnologicamente). Não é de Fahrenheit 451 (nossos governantes e nossa população raramente se interessam por livros). Talvez seja a de Laranja mecânica, porque a ultraviolência racista-sexista-fascista vem se espalhando e corroendo todas as camadas da sociedade. Por outro lado, podemos estar muito próximos da distopia de O conto da aia, caracterizada por uma teocracia-machista-cristã implacável e uma sociedade dividida em castas.

O conto da aia