R u a s

Teresa

Em São Paulo, logo na entrada da rua dos Cães − uma rua íngreme e muito estreita − há um dobermann descomunal, de olhar feroz e turbulento, sentado sobre as patas traseiras. Onde está o dono de tão irascível criatura? Trancado em casa, é óbvio. Bem como todos os seus vizinhos. Afinal quem se arriscaria a sair à rua em pleno dezembro, no alto verão, com o sol escaldante cozinhando o miolo de seus queridos animaizinhos de estimação? É claro que se houvesse mais árvores nessa rua o problema estaria, se não resolvido, pelo menos atenuado. Todavia, como podem ver, em toda a extensão da rua dos Cães há pouquíssimas árvores. Isso deixa os animais, principalmente os dobermanns, enlouquecidos. Presos a uma realidade que tanto os oprime, eles passam todo o tempo zanzando, indo de uma calçada a outra, de matilha em matilha, misturando-se com os dálmatas, filas, pastores-alemães, buldogues, incontáveis vezes por dia. Línguas de fora, ofegantes, afiadas, enchem-me de pavor. A rua dos Cães é um prolongamento de minha rua, que, por sua vez, é um prolongamento de todas as demais ruas de São Paulo. Dizem − não sei, nunca tive a oportunidade de ver confirmada essa desajeitada afirmação − que em Buenos Aires também é assim. Dizem que lá todas as ruas da cidade, semelhante a uma serpente sinuosa e infinita, fazem parte da mesma e única rua. Pode ser. Contudo, a superioridade dos portenhos − superioridade que muito nos constrange − deve ser reflexo de sua inteligente configuração urbana. Questão de bom senso: não existem cães sem coleira em Buenos Aires, nem ruas tão selvagens quanto as nossas. Isso, pelo menos, é o que dizem os viajantes.

Um verdadeiro milagre. Ao abrir a portinhola da gaiola, meu papagaio saiu de lá de dentro como um raio, atravessou a sala, passou pela janela aberta e ganhou a rua, deixando atrás de si um rastro de ar comprimido. Corri com o binóculo na mão. Fora do apartamento não esperei pelo elevador. Desci as escadas atabalhoadamente, sem respirar. O porteiro abriu o portão e, caramba!, quando apontei as lentes do binóculo para o final da rua, vi que meu papagaio já estava chegando lá, já estava lá, já não estava mais lá, mas muito mais adiante, no começo da rua seguinte. Minha rua emenda com a rua dos Cães, que por sua vez emenda com a rua dos Gatos, que por sua vez emenda com a rua dos Papagaios. Meu papagaio passou da minha rua pra rua dos Papagaios sem o menor problema. Esse, o inconveniente milagre.

Atravessei a rua dos Cães sem olhar para os lados, andei por toda a sua extensão quase sem piscar. Atravessei a maldita rua, a coluna ereta, os músculos rijos, sem pressa, controlando meus movimentos. Qualquer gesto mais afoito e seria o meu fim, disso eu tinha certeza. Enquanto andava ia sentindo nas faces o hálito quente dos cães. Por pouco não desfaleci, não manchei a calçada com meu covarde excremento. Mais do que o bafo, era o rosnar abafado, autocontrolado, cheio de ira e vigor, dos animais, o que mais me intimidava. Silenciosos feito gárgulas, os cães maiores, monstruosos e negros, permaneciam sentados sobre as patas traseiras, como se guardassem as portas do inferno. Esses me aterrorizavam apenas com sua presença pétrea. Eram, contudo, os menores, os malditos poodles, fox-terriers, pinschers − os endemoninhados pinschers de pescoço comprido e orelhas retas −, que me azucrinavam mais. Ah, os menores! Alguns soltos na rua, outros atrás da grade dos portões. Sacudindo os portões, estes. Abocanhando a barra da minha calça, aqueles. Todos latindo sem parar, auauauauauauouououououou!, avançando e recuando.

Uma hora atrás, Vilma, ao me ver na rua, chamara da janela do nosso apartamento: − Consegue ver o Querubim? − Sim. Está na rua dos Papagaios, o desgraçado. − Que merda! Como você pôde ser tão descuidado? Matilde jamais nos perdoará por isso. Emudeci. Matilde, histérica. Só de pensar nessa possibilidade meu corpo estremeceu. Corri para o apartamento, escancarei as portas do guarda-roupa, agarrei o rifle, a capanga de munição e a rede de pegar borboleta. − Sou um homem amaldiçoado se não trouxer o bicho de volta. − Boa sorte. − Espero estar de volta antes que anoiteça. Respirei fundo. No momento em que eu estava saindo Vilma me segurou e, com lábios de mel, me beijou como havia muito não beijava. Não gostei nada disso. Temi por meu destino. Um beijo desses, numa hora dessas, tinha o sabor da morte.

Na rua dos Gatos, estaquei. Peguei o binóculo e olhei o mais longe que pude. Lá estava o desgraçado, dezenas de quarteirões à frente, na rua dos Papagaios. Pensei em desistir. Tive medo. Lembrei de Matilde e tal lembrança deu-me forças pra continuar. A rua dos Gatos era tremendamente mais soturna, mais ensombrecida que a dos Cães. Entrar nela era como entrar numa caverna. Tudo porque, diferente da anterior, possuía essa um grande número de árvores − jabuticabeiras, ciprestes, pinheiros, até mesmo um grande carvalho − cuja sombra caía pesada e impiedosamente sobre prédios e gatos, tornando o sol quase invisível.

Protegidos pela copa das árvores, ai Jesus, sombras, vultos e silhuetas moviam-se silenciosamente, parecendo espectros de uma noite eterna. Possuíam contornos mal definidos, tais espectros. Deslocavam-se, dentro dessa selva insana, semelhantes a entidades imateriais, sem produzir o menor ruído. Prossegui, sempre ereto, sempre firme em meu propósito, fingindo total indiferença, você já entendeu: esnobando os felinos. A cada passo podia sentir o toque de suas patas, o roçar de duas dúzias de caudas em minhas mãos, primeiro, depois em minhas pernas, por baixo da barra da calça. O toque aveludado, acolchoado, sinuoso, da mais desfrutável das fêmeas… De repente um gemido, um salto no escuro e meu reflexo pego de surpresa no branco duns olhos arregalados e aterradores, realmente horripilantes. E então mais outro salto, e mais outro, e outro. Depois, sussurros, como se conspirassem baixinho. E então mais outro salto, e mais outro, e outro. Vi pelos curtos e pelos longos, unhas retráteis e afiadas, caninos agudos e fortes. Siameses, persas, angorás, nos galhos mais baixos de uma figueira. Ao perceberem que eu não pretendia fugir, começaram, os mais audaciosos, a saltar do galho e a me rodear. Havia luz no fim do túnel. De onde me encontrava podia ver sua aura prismática, apesar de muito pequena. Eu estava num túnel? Estava. O fim do túnel era, eu sabia, o início da rua dos Papagaios. As casas e os prédios da rua dos Gatos tinham, todos, extensos jardins cujas plantas, alegres e exuberantes, escorriam pelos muros e pelas grades, e caíam na calçada dificultando e muito a visão. Era planta ornamental por toda a parte. Onde terminava a copa da árvore mais próxima e onde começava o jardim do prédio em frente era algo difícil de dizer. Desviei de uma raiz que já começava a quebrar o concreto em alguns pontos da calçada e topei, assustado, com um vulto tão grande, tão sólido, que, logo concluí, só podia se tratar de um grupo compacto de dez, doze gatos sentados uns sobre os outros. Contudo, logo após o esbarrão dois olhos iluminados grudaram nos meus, feito lanternas. − Putamerda! Nessa hora mudei de ideia. Não, definitivamente não era um grupo de gatos. Recuei num pulo, feito um chimpanzé que tivesse pisado numa cascavel. O vulto arreganhou a boca, exibindo os dentes branquíssimos. Gelei. Seus olhos estavam emparelhados com os meus. Éramos quase da mesma altura. Ele não piscava, muito menos eu. Então, quando pensei ter finalmente atingido o ápice do surpreendente, quando ficou bem claro que nada mais poderia me tirar o fôlego, o vulto começou, devagar, a crescer, chegando a atingir o dobro do tamanho inicial. Quando parou de crescer foi que eu vi que ele, na verdade, tinha era ficado em pé. Devia ter uns três metros de altura. Apoiado apenas nas patas traseiras, estendeu uma das patas dianteiras e me tocou no ombro. Era um toque quente, quase afetuoso. O tipo de toque que só um pai conseguiria proporcionar a um filho. Não esperei pelo momento em que ele abriria a boca e me sussurraria palavras do além. Corri, ah, corri muito, do jeito que só os desesperados e os loucos conseguem correr.

Na rua dos Papagaios, olhei pra trás com o binóculo. Lá estava Vilma, diante de nosso prédio, acenando com um lenço azul. Acenei de volta. − Consegui. Estou aqui, gritei. Mas ela obviamente não me ouviu. Na verdade, devido ao fato de não estarmos conseguindo ouvir um ao outro, seus gestos foram ficando mais nervosos, mais desesperados. Na mão direita, o lenço ondulante, escrevendo no ar uma frase que eu não conseguia entender. Com a mão livre, a esquerda irritada, ela apontava alguma coisa no céu. Alguma coisa que, estando muito longe dela, devia estar próximo de mim. Virei-me, em pânico. − Não pode ser, balbuciei. Um silêncio estranho, amargo, imperava por ali. Voltei o binóculo na direção do fim da rua e nada. A rua estava deserta. Não havia qualquer papagaio em toda a sua extensão. Muito menos o meu papagaio.

Matilde jamais me perdoará por isso, pensei. Conheço seu temperamento, ela é capaz de acalentar uma mágoa por anos a fio, à espera do melhor momento pra se vingar. Entrei em parafuso. Matilde, Matilde. Que decepção! Já era mais de meio-dia. O ônibus da escola estava prestes a chegar em casa e Matilde prestes a entrar correndo na sala, na cozinha, nos quartos, no banheiro, à procura de algo que, diferentemente dos dias anteriores, não estará lá à sua espera.

Nenhum papagaio nas árvores, poucas. Nenhum papagaio nos postes, poucos também. Olhei mais uma vez para o céu. Baixei lentamente o binóculo, confuso. − Não pode ser. Tornei a erguê-lo e a olhar o espaço azul acinzentado acima dos edifícios. Vi, estupefato, centenas de pontinhos escuros sobre a linha do horizonte. − Macacos me mordam, resmunguei igual a um personagem de gibi. Os papagaios estavam todos lá, a dezenas de metros do chão, dirigindo-se para o norte. − Os malditos estão migrando, berrei. No mesmo instante a lembrança do rostinho desconsolado de Matilde me veio à mente. Perdi a cabeça. Comecei a praguejar feito um doidivana dos infernos. Chutei uma lata de lixo, depois outra e mais outra. Chutei, ainda, várias caixas de papelão cheias de jornal velho sujo de graxa. Sim, chutei todas as caixas de papelão cheias de jornal velho sujo de graxa que estavam na calçada, esperando pelo caminhão de lixo. Os jornais espalharam-se pela rua. O lixo, não. Este rolou pra fora das latas, mas, mesmo assim, permaneceu quase no mesmo lugar, embolado, grudado na calçada, cheirando mal. Alguns moradores dos prédios em torno apareceram na janela pra ver que algazarra era essa. Respirei fundo, procurando recobrar o autocontrole. Sentei na sarjeta, sempre com os olhos voltados para o céu, para o bando de papagaios. − Filhos da puta, gritei novamente, pondo pra fora todo o ar azedo dos pulmões.

O vento trouxe de volta algumas folhas de jornal, que imediatamente grudaram em mim, no rosto, nas pernas, talvez pra se vingarem dos pontapés que haviam levado. Estraçalhei-as com raiva. Reduzi-as a pedacinhos, a uma infinidade deles, sempre xingando os papagaios: − Trastes desgraçados, filhos da puta! − Mais gente surgiu nas janelas. Cabeças grisalhas e envelhecidas, pestanas cansadas. Ao vê-las, tive o ímpeto de fazer com as mãos muitos sinais obscenos. Todavia, não fiz. Apenas fiquei ali, sentado, olhando os papagaios, puto da vida. Os papagaios: pontos cada vez menores na linha do horizonte. Enquanto os cornudos sumiam, indiferentes aos meus impropérios, eu fiquei pensando com os meus botões embotados… A velha história… Fiquei pensando se seria de fato verdadeira a história muitas e muitas vezes contada pelos viajantes, das mais diferentes formas. A história de que tanto as ruas de São Paulo quanto as de Bueno Aires fariam parte, todas, da mesma e única e infinita rua. Sendo assim, tudo não passaria de uma extensa linha, margeada, a cada nova região, por cidades diferentes, por culturas diferentes. Uma única e extensa linha, de leste a oeste. Bastaria, se a gente quisesse chegar a Buenos Aires partindo da rua dos Papagaios, seguir sempre em frente, de rua em rua. Se estiverem mesmo certos os viajantes, bastaria, se a gente quisesse ir de Buenos Aires a Nova York, seguir sempre em frente, de rua em rua. De Nova York a Paris? De Paris a Tóquio? Sempre em frente, de rua em rua, pra bem longe de Matilde.

[ Conto publicado no segundo número da revista Teresa, da USP, lançado em 2001 ]

T i p o l o g i a

Interrogação

Que tipo de leitor você quer ser?

Sábio
Tempo é um recurso limitado. O tempo de vida e de leitura de todos os seres humanos é finito. O leitor do tipo sábio é alguém que administra bem esse recurso, não acumulando conhecimento sobre um único gênero literário ou uma única escola literária ou um único autor, mas procurando apreender a essência da arte literária por meio de leituras diversificadas, dos vivos e dos mortos, a fim de se conhecer e conhecer melhor seu momento histórico. Obviamente, sábios são raríssimos.

Erudito
Alguém que se aprofunda e se especializada num único gênero ou numa única escola literária ou num único autor, vivo ou morto, a ponto de conhecer, acumular e comentar longamente os detalhes literários e históricos de seu objeto de estudo. Esse é o perfil majoritário do leitor profissional, do pesquisador acadêmico. Obviamente, eruditos são menos raros que sábios.

Descompromissado
Alguém que lê um pouco de tudo, mais dos vivos que dos mortos, raramente os clássicos, sem a obrigação de um planejamento rigoroso, seguindo as ondulações do gosto geral, do mercado editorial e da vida social literária. Obviamente, descompromissados existem em maior quantidade do que todos os eruditos e sábios reunidos.

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Que tipo de escritor você quer ser?

Deus
Alguém que inventou uma nova maneira de se expressar em prosa ou verso, nadando contra a corrente literária hegemônica de seu tempo. Obviamente, deuses são raríssimos. E seu talento original, excetuando-se pouquíssimas exceções, só é reconhecido pelas gerações posteriores.

Semideus
Alguém que aprendeu com um deus e aperfeiçoou sua nova maneira de se expressar em prosa ou verso, e ajudou a difundir esse conhecimento, legitimando-o. Obviamente, semideuses são menos raros que deuses. O talento de boa parte é reconhecido imediatamente. Publicam pelas melhores editoras, ganham prêmios, são traduzidos etc. Apesar de ser menos intensa que a obra de um deus, a obra de um semideus também sobrevive à morte do autor.

Humano
Alguém que realiza com inegável talento o estilo literário prestigiado pela maioria dos formadores de opinião (outros escritores humanos, editores, críticos, professores, divulgadores etc.). Obviamente, humanos existem em maior quantidade do que todos os semideuses e deuses reunidos. O talento dos humanos é festejado imediatamente. Publicam pelas melhores editoras, ganham prêmios, são traduzidos etc. Mas a obra de um humano quase nunca sobrevive à morte do autor.

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[ Não deviam servir vinho a ficcionistas, é um perigo. A hierarquia acima surgiu num almoço de amigos-escritores, em que falamos de mercado editorial, prêmios, críticos e editores, Proust, Joyce e Kafka, debochamos da vaidade da chamada autoficção (quem escreve autoficção precisa compreender que está correndo na mesma pista que Proust, que inventou esse negócio), classificamos Bolaño e Foster Wallace como bons humanos (iguais a muitos outros), reafirmamos que a única saída possível da crise criativa mundial é a ficção científica, única pista de corrida em que não há (ainda) Shakespeares nem Cervantes nem Prousts, Joyces e Kafkas, brindamos e nos divertimos, fizemos novas listas e classificações, sempre abençoados por Ezra Pound, é claro. Como eu disse, não deviam servir vinho a ficcionistas. In vino veritas. ]

AXIS MUNDI: o jogo de forças na lírica portuguesa contemporânea

axis-mundi

Para baixar o livro, clique aqui: axis-mundi-nelson-de-oliveira

Nova edição, revisada e ampliada, do ensaio sobre poesia e sagrado na literatura portuguesa do início do século 21.

Axis mundi: o jogo de forças na lírica portuguesa contemporânea, de Nelson de Oliveira, reflete sobre as epifanias disfóricas de doze poetas-videntes que estrearam no final do século passado e fizeram da alquimia lírica e do cotidiano sacralizado seu centro de equilíbrio literário e existencial.

Sumário

Nota espiralada

Introdução

1. Que é poesia?
Definições provisórias
O triunfo do sagrado

2. Lírica de superfície e lírica subterrânea

3. Formação da lírica portuguesa contemporânea
Lírica e níveis de consciência
A Geração de 70 e a poética realista
O visível e o invisível
Os vencidos da vida
A modernidade começa a acenar
O decadentismo-simbolismo
A ruptura modernista e o triunfo do pensamento irracional
Psicologia e misticismo
A denúncia da alienação
A indústria cultural
A desconstrução da linguagem e do sujeito lírico
A alquimia do verbo
Os desastres da guerra
A investigação formalista
A Revolução de 25 de Abril
Na virada do século
História, histórias

4. Doze poetas da virada do século
Adília Lopes: intertextualidade e ironia-anacronismo
António Pedro Ribeiro, o poeta maldito que vai aos bares vomitar poesia
Gonçalo Tavares e a função poliédrica da inquietação filosófica
Manuel de Freitas e o tópico distópico da revolta-sarcasmo
Daniel Faria e a certeza-de-incertezas da liturgia profana
Ana Marques Gastão e a solidão-vazio pós-apocalíptica
Inês Lourenço e a condição alada do profano
José Miguel Silva: verve e rancor, inocência-que-ataca
Luís Quintais e o encontro-desencontro dos seres
José Luís Peixoto e a tautologia dos céus impossíveis
valter hugo mãe e a perversa-reversa relação entre os sexos
Luís Serguilha e os limites pictóricos da linguagem verbal

5. O sagrado e o profano na lírica portuguesa contemporânea
Nova sacralidade: ironia, revolta, melancolia

Doze, hoje

Bibliografia

Posfácil de Valerio Oliveira

Insônia ou amnésia

capa-campos

O plano era visitar o Mário de Andrade ou o Murilo Mendes, não me lembro bem qual dos dois, nessa época a poesia já havia arrebatado todos os meus mapas emocionais, então os nomes e os endereços se misturavam naturalmente, sem GPS nem sapatos era fácil se perder na cidade invisível.

Lembro apenas que era uma tarde de 1999, talvez de março, as torres gêmeas ainda estavam de pé em Nova York e o Orkut não passava de um sonho no horizonte das possibilidades, o porteiro do prédio indicou o caminho, entrei e saí do elevador, e fui recebido por uma gentil Ligia que não era a mulher do Mário nem do Murilo, mas do Walter. Foi assim, sem GPS nem sapatos, que conheci pessoalmente Campos de Carvalho, nosso último iconoclasta.

− 1998 − ele disse, indicando uma poltrona na sala banhada pela luz de seis sóis insondáveis. − Você me visitou em noventa e oito, não em noventa e nove. Foi em fevereiro, não em março. Porque eu morri em abril de noventa e oito.

− Tem razão. Falha minha. Posso gravar nossa conversa? Costumo usar o gravador pra evitar os desvios e os saltos no tempo, que sempre me confundem.

Ligia pediu à empregada-sereia que nos servisse café, pão de queijo e bolo de cenoura. Havia qualquer coisa da disciplina onírica de Remedios Varo na organização do Ocidente e da sala cenográfica em que estávamos. Ligia pegou sua bolsa e se despediu, dizendo que precisava sair. A verdade de sua última fala − “fiquem à vontade, meninos” − brilhou tanto no cenário que Walter logo trocou o café ainda não servido por uma dose de uísque.

Mais à vontade, repeti a ele o que havia dito a Ligia, por telefone, quando marcamos essa primeira visita. Expliquei que estava relendo seus livros, com a intenção absurda de escrever uma estúpida dissertação de mestrado.

− Isso foi antes, no passado do pretérito, agora estamos no passado do futuro. Esta conversa já ocorreu. Quando conversamos você não disse “intensão absurda” nem “estúpida dissertação” − ele comentou, descansando na mesinha de andarilho as pernas de centro, ou o contrário. − Mas entendo que você e eu não estamos sozinhos, que o meu eu passado e o seu eu futuro estão interferindo em nosso presente. Observando a partir do futuro, a intensão foi absurda e a dissertação foi estúpida, mas hoje ainda não são.

− Foram. Digo, são. Porque a ideia toda foi um gigantesco contrassenso. Um insulto, senhor, à sua obra incendiária. Fomos neutralizados pela metodologia científica, você, eu, o brilho nos olhos, estes peixes, a lua e a chuva, esta conversa e a própria literatura. Porque a universidade, senhor, é o túmulo da inteligência.

− Mas isso você só descobrirá amanhã.

− Exato.

Ele pegou a garrafa, encheu os copos e brindamos ao futuro do pretérito. Senti que um vínculo forte, de natureza espartana, nos unia. Os peixes aproveitaram o silêncio oceânico e atravessaram a janela. Meu anfitrião lembrou da antiga crença:

− Sempre que um mestrando defende uma dissertação, um escritor morre. Ou uma fada, não sei… Se é um doutorando defendendo uma tese, a desencarnação ocorre em dobro.

− A universidade não se dá bem com as grandes forças da natureza: o entusiasmo, a possessão demoníaca…

− O esquecimento progressivo, que vai projetando fantasmas na tela da realidade.

− Adoro esses fantasmas.

− Depois de certa idade, meu jovem, só existem fantasmas.

Três sóis se punham atrás dos prédios, a tarde ardorosa de Higienópolis em breve deixaria de existir, obediente à lei do menor esforço. Entreguei a Walter meus dois livros de contos e pedi a ele que autografasse meu exemplar da Obra reunida.

− Por que você ficou trinta anos sem escrever? − perguntei, fazendo do lugar-comum um clichê de chiclete.

− Ah, por um motivo terrível. Você.

− Não entendi.

− Você. Gente igual a você.

− Escritores mais jovens?

− Escritores mais jovens, editores mais jovens, jornalistas mais jovens, críticos mais jovens, professores mais jovens, você, gente igual a você, do século vinte e um, gentinha que escreve resenhazinha, dissertaçãozinha, tesezinha, essas merdinhas todas, que desrespeitam a explosão visceral, não honram o impulso criativo, que é sempre um impulso destrutivo.

Sentiram o tremor de terra? A fala de Walter era ritmada, a pausa nas vírgulas durava uma estação inteira, ecoando as ondas da primavera, os tombos do verão, as escaladas do outono e os cristais do inverno.

− Literatura não é assistência social, não é relações públicas, literatura não é propaganda e marketing, você acha que é ruim não ser lido, mas pior ainda é ser lido por patetas bem-intencionados, baba-ovos inocentes, por gente infantilizada que negocia doces e sorvetes com o sistema, que ambiciona condecoraçõezinhas, adulaçõezinhas institucionais, estou falando de você, querido, de você e dessa gentinha que escreve artiguinhos sobre os mísseis radioativos da Clarice, do Murilo, sobre os meus teleguiados anarquistas, essa gentinha amável que multiplica dissertaçõezinhas e tesezinhas sem glúten, que não explodem nem implodem, apenas peidam e arrotam (baixinho, afinal, os bons modos…), você e essas criaturinhas sem ossos não me interessam, por isso fiquei trinta anos sem escrever, e ficaria quarenta, cinquenta − respirou fundo, deu uma boa golada no vácuo alcoólico. Lançou em minha direção o sorriso do gato de Alice. − Sem ofensa.

Não me ofendi. Afinal ele disse tudo isso com a doçura de um sábio chinês que, em vez de rebaixar o interlocutor, eleva-o ao topo do Everest. Os pés afundados na neve, os pulmões inundados de um vapor sideral, foi de lá − do apogeu do mundo − que eu respondi:

− Você é um misantropo incurável.

− Um pronome, um verbo, outro pronome, um substantivo e um adjetivo. Cinco palavras que não significam nada.

− Nossos malditos copos estão vazios.

− Um pronome, um adjetivo, um substantivo, um verbo e outro adjetivo. Cinco palavras que significam tudo.

A empregada-sereia selenita retirou a bandeja de café, intocada, deixando apenas os pães de queijo e o bolo. A respeito dos copos e da garrafa secreta de uísque, suas pupilas comentaram qualquer coisa em búlgaro. Pedi a ela que tirasse uma foto impossível, pois não levei a câmera digital e o celular que eu carregava no bolso de trás da calça ainda não havia sido inventado. Clicou e me mostrou.

− Ficou ótima. Obrigado.

− Za nishto.

Da porta da cozinha a empregada-sereia avisou que já estava indo embora porque dona Ligia já estava chegando, como se tivesse recebido da patroa um recado por telepatia. Partiu. Nosso aquário etílico não possuía mais fêmea alguma. Da rua movimentada vinha uma buzinaria em espiral, eram as máquinas movendo o planeta.

Walter deu a última golada e tratou de esconder os copos e a garrafa numa sombra oblíqua da quarta dimensão. Desliguei e guardei o gravador numa prosaica bolsa de couro tridimensional mesmo.

− Você voltará em duas semanas − ele profetizou. − Será nosso último encontro. Após minha partida definitiva, porém, você virá mais uma vez a este apartamento. Deixarei com minha mulher uns livros potentes: Rimbaud, Breton, Mário, Murilo, Clarice… Serão seus.

Já na porta para outra época, outra cidade, eu comentei:

− A ideia ainda não me ocorreu, mas surgirá em seis ou sete meses. Um livrinho breve, chamado Campos: retratos surrealistas. Uma colagem de textos variados, uns recortados, outros inventados.

− Uma colagem-homenagem?

− Exatamente. Uma colagem-homenagem. Cem exemplares, apenas. Numerados. O primeiro livro de uma coleção que se chamará 100 (Sem) Leitores. Pretensão comercial: zero. O que acha?

− À merda o que eu acho. Vocês, vivos, são tão obcecados por medalhas, prêmios e homenagens… Sofrem de insônia, não descansam nunca. No Hotel Terminus a preocupação é outra, no fim tudo é amnésia. Mas uma amnésia vingativa. Se depender de mim, mesmo morto continuarei dando meu testemunho de morto. Boa noite.

Desci. Ganhei a calçada, ou foi a calçada que herdou mais um descalço. Nessa hora a Albuquerque Lins refletia a luz declinante do último sol. Admirei por uns segundos nossa foto impossível, enquanto subia a rua, sem GPS nem sapatos. Em minha mente alienígena chovia a faiscante chuva imóvel.

Ficção fantástica: notas de uma palestra para cronópios, famas e esperanças

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Dois modos opostos de pensar a realidade e a ficção: o realismo fragmentário de Memórias sentimentais de João Miramar e a fantasia mitológica de Macunaíma.

Na juventude, eu me identificava mais com a ficção cubista de Oswald de Andrade. Na maturidade, identifico-me mais com a ficção fantástica de Mario de Andrade.

A maior parte dos comentaristas de Macunaíma puxa rapidamente a análise da rapsódia para o debate sobre a identidade nacional e o patrimônio cultural brasileiro. Esse papo nacionalista nunca me interessou.

Prefiro ler a rapsódia como a primeira grande realização de um escritor brasileiro na tradição universal da ficção fantástica erudita.

Antes dos contos fantásticos de Murilo Rubião e José J. Veiga, antes do realismo mágico de Borges, Rulfo, Cortázar e García Márquez os personagens amazônicos de Mario de Andrade já subvertiam as leis da natureza, muito de acordo com a dinâmica onírica dos mitos indígenas e africanos, e dos contos folclóricos daqui e de fora.

A avenida sul-americana da ficção fantástica foi inaugurada por esse herói negro com corpo de homem e cabeça de criança, que vira branco ao se banhar em água encantada, durante a viagem até a Paulicéia Desvairada a fim de recuperar sua inestimável muiraquitã.

Dos seis autores citados acima, o único ganhador do prêmio Nobel − o colombiano García Márquez − é quem compartilha com o nosso Mario de Andrade certa caraterística pouco comentada pelos especialistas, mas bastante apreciada pelos leitores: o afeto sísmico. Ou, se preferirem, a doçura endêmica.

Fiz a experiência: li paralelamente Macunaíma e Cem anos de solidão e percebi não só a mesma estrutura episódico-novelesca − as duas narrativas são constituídas de uma longa sucessão de histórias curtas − mas também a mesma doçura na construção de personagens afetuosos. Nada escapa dessa atmosfera delicada. Até as cenas mais violentas − estupro, assassinato − são atravessadas pela ternura de um narrador compassivo.

(José J. Veiga e Cortázar também sabem seduzir e aprisionar o leitor numa ambientação meiga e amável, mas num grau um pouco menor.)

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A ficção fantástica apresenta ao menos duas características, dois ingredientes fundamentais que, reunidos, diferenciam esse gênero dos demais gêneros literários: a subversão das leis da natureza e a inflexão filosófica.

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Seis narrativas curtas bastante pedagógicas: A metamorfose (Kafka, 1915), O curioso caso de Benjamin Button (Fitzgerald, 1922), A biblioteca de Babel (Borges, 1944), Carta a uma senhorita em Paris (Cortázar, 1951), Um senhor muito velho com umas asas enormes (García Márquez, 1972) e Os que se afastam de Omelas (Ursula Le Guin, 1974).

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A primeira característica fundamental da ficção fantástica é a subversão das leis da natureza.

No mundo oferecido pela ficção fantástica a causalidade, a força da gravidade, a biologia, a geologia, a atmosfera, enfim, o tempo, o movimento planetário, os minerais, as plantas e os animais, as pessoas e as estações do ano funcionam total ou parcialmente de modo estranho. Tudo o que se comporta de determinada maneira em nosso mundo, tudo o que nos é familiar, no mundo da ficção fantástica comporta-se de modo excêntrico, não familiar.

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A segunda característica fundamental da ficção fantástica é a inflexão filosófica.

Num conto, numa novela ou num romance fantásticos, tudo gira em torno da mais pura reflexão ontológica, existencial, não contaminada por argumentos teológicos ou científicos. Essa é a única intenção do autor.

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Gêneros próximos da ficção fantástica são a ficção sobrenatural e a ficção científica.

Em ambas, as leis da natureza são idênticas às da realidade do leitor. A causalidade, a força da gravidade, a biologia, a geologia, a atmosfera, enfim, as regras gerais são as mesmas que conhecemos e seguimos em nosso mundo. Mas essas regras podem ser subvertidas total ou parcialmente por meio da magia ou da tecnologia.

Na ficção sobrenatural e na ficção científica é a vontade humana, alienígena ou divina que subverte, geralmente num espaço restrito, as familiares leis da natureza, e fazem isso por meio de feitiços ou máquinas.

Além disso, na ficção sobrenatural, a inflexão é sempre místico-religiosa, afinal há sempre um deus ou um grupo de deuses ou de seres metafísicos manipulando metodicamente nossa familiar realidade.

E na ficção científica, a inflexão é sempre científica e tecnológica, afinal há sempre um cientista ou um grupo de cientistas e engenheiros manipulando metodicamente nossa familiar realidade.

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Na ficção sobrenatural, o autor deseja provocar no leitor a sensação medo e horror.

Na ficção fantástica e na ficção científica, o autor deseja provocar no leitor a sensação de maravilhoso.

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Mais seis narrativas curtas bastante pedagógicas: A escuridão (André Carneiro, 1963), Teleco, o coelhinho (Murilo Rubião, 1965) A caçada (Lygia Fagundes Telles, 1970), O arquivo (Victor Giudice, 1972), Quando a Terra era redonda (José J. Veiga, 1980) e O abraço (Lygia Bojunga, 1995).

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Subversão das leis da natureza e inflexão filosófica, esses são os dois ingredientes fundamentais que, reunidos, diferenciam a ficção fantástica dos demais gêneros literários.

Em todo o resto, a ficção fantástica compartilha as mesmas características e exige o mesmo talento autoral que a ficção realista, e por ficção realista entendo qualquer conto, novela ou romance em que as leis da natureza são as mesmas do mundo do leitor. Sendo assim, a diferença entre a boa e a má ficção fantástica fundamenta-se no mesmo pressuposto que determina a diferença entre a boa e a má ficção realista.

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Mas as peças literárias de todos os gêneros já catalogados, sempre é bom lembrar, raramente apresentam a pureza receitada pelo programa poético a que pertencem. Na literatura, do mesmo modo que na vida, o hibridismo é a regra.

A inexistência de fronteiras claras e absolutas explica por que a maior parte das ficções fantásticas apresentam tênues elementos da ficção sobrenatural ou científica, e vice-versa.

Na hora de classificar uma ficção curta ou longa, é preciso identificar quais elementos pesam mais no texto, ou seja, qual foi a real intenção do autor, qual a unidade de efeito (Poe): expressar uma ideia metafísica, científica ou filosófica.

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Um escritor é sempre classificado pelo conjunto de sua obra. Se ao longo de sua carreira ele escreveu muitos tipos de texto literário, em prosa e verso, mas foi mais bem-sucedido escrevendo ficção fantástica, ele naturalmente será considerado um autor de ficção fantástica, mesmo que tenha produzido muito mais poemas, ensaios e crônicas, por exemplo.

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A intensidade do fantástico não é diretamente proporcional ao espaço que a subversão das leis da natureza ocupa num texto. Essa intensidade depende apenas da potência da sensação de maravilhoso experimentada pelo leitor.

Não é necessário que numa narrativa curta ou longa o elemento fantástico se manifeste o tempo todo, ou que seja o conflito principal da trama.

Numa narrativa qualquer, a cena ou a intervenção do fantástico pode ser breve, e geralmente é. Sendo potente, essa rápida manifestação do fantástico logo contaminará as muitas páginas realistas, alterando sua substância.

Essa manifestação não será o conflito principal da trama, mas será o gatilho que gerará esse conflito: a quebra da rotina, a dificuldade dos personagens em se adaptar à nova situação.

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Onde fica a clássica teoria de Tzvetan Todorov nessa história toda?

Na gaveta.

Baseada no conceito de hesitação fantástica, a definição de Todorov, apresentada no livro Introdução à literatura fantástica, de 1970, não faz sentido quando o assunto é A metamorfose e as outras narrativas citadas.

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No livro Introdução à literatura fantástica, o crítico búlgaro Tzvetan Todorov define assim esse gênero:

A ficção fantástica apresenta uma subversão das leis da natureza, mas uma subversão ambígua, hesitante, que pode ser explicada de duas maneiras: pela ciência (explicação racional) ou pela magia (explicação sobrenatural).

É fundamental que essa ambiguidade, essa hesitação jamais se resolva, permanecendo depois do ponto final da narrativa.

Mas, se no final da história, o acontecimento extraordinário receber uma explicação racional ou uma explicação sobrenatural, a ficção deixará de ser fantástica.

Se a explicação for racional, estamos no âmbito do estranho. Se a explicação for sobrenatural, estamos no âmbito do maravilhoso.

O estranho e o maravilhoso são gêneros ficcionais vizinhos do fantástico, que lidam com a subversão das leis da natureza de modo diferente. Para Todorov, o fantástico só se realiza quando a hesitação fantástica permanece sem solução.

Exceção preocupante na definição de Todorov − fato que motivou a falência de sua teoria −, repito, é A metamorfose, em que não há qualquer hesitação, e as outras narrativas citadas.

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Outro pesquisador que precisa ser mencionado é o espanhol David Roas, autor de A ameaça do fantástico, de 2013.

Roas também discorda da classificação de Todorov e propõe outra, baseada em parte no ensaio O horror sobrenatural na literatura, de H.P. Lovecraft, publicado em 1927.

Resumindo Roas:

A ficção fantástica revela a abrupta invasão de um fenômeno sobrenatural no mundo cotidiano. A intenção do ficcionista é provocar o medo, seja um medo físico (emocional) seja um medo metafísico (intelectual).

Então, é indispensável que a narrativa se mova no mais puro realismo (imitação rigorosa do cotidiano empírico), de maneira que a súbita invasão do sobrenatural provoque um choque nos personagens e no leitor.

Roas diferencia, assim, a ficção fantástica da ficção maravilhosa e da ficção grotesca.

Na ficção maravilhosa não existe o puro realismo (imitação rigorosa do cotidiano), tudo é mágico ou insólito: pessoas, cidades, natureza etc. A intenção do ficcionista é provocar o espanto.

Na ficção grotesca não existem o sobrenatural nem o maravilhoso, apenas o realismo, mas um realismo distorcido, exagerado. A intenção do ficcionista é provocar o riso.

A leitura do livro de Roas deixa a impressão de que o pesquisador considera o fantástico uma simples questão quantitativa: as marcas do cotidiano (realismo) precisam ser numericamente maiores que as do insólito (sobrenatural).

Também fica a impressão de que Roas apenas expande o conceito de ficção sobrenatural, para aproximar, por exemplo, os contos de Poe e Lovecraft (medo físico) aos de Borges e Cortázar (medo metafísico).

Quando ele fala de ficção grotesca e ficção pós-moderna, então, tudo fica mais abstrato ainda, exigindo um reducionismo enorme pra manter de pé um frágil castelo de cartas.

Conclusão: Roas, reforçando a premissa de Lovecraft, discorda de Wolfgang Kayser, Todorov e vários outros teóricos do fantástico. Eu discordo de Kayser, Lovecraft, Todorov e Roas. Disso tiramos ao menos um preceito: a teoria do fantástico é o campo da divergência.

Moleskine tropical

circulo-oficina

Quinze notinhas sobre a pajelança

2016

Escrever é criar mais espaço de qualidade em nossa psique, ampliando nosso território íntimo. Ler é análogo a escrever: uma expansão do mapa-múndi sensorial e intelectual. Conversar sobre um texto pode ser um confronto ou uma aliança.

2014

A reinvenção da roda é o que mais me agrada nas oficinas de criação literária. Nada de cadeiras dispostas em fileiras, para uma aula ou palestra. Os oficinandos vão chegando, pegando uma cadeira e se posicionando numa circunferência imaginária… Onde eu costumo ficar? Jamais no centro, sempre numa das cadeiras da roda. O diâmetro varia muito de turma pra turma, e logo percebi que o grupo ideal − a melhor circunferência − é composto de quinze oficinandos. A densidade dos olhares e a pressão dos afetos fazem variar a dinâmica. Rodas com cinco ou dez costumam ser menos intensas, rodas com vinte ou vinte e cinco tendem à dispersão.

2014

Outro ponto positivo nas oficinas é a diversidade de sensibilidades e textos. Por isso gosto tanto de reunir os dois caminhos literários: prosa e poesia. Sempre evitei a separação dos gêneros. Acredito que os ficcionistas têm muito que aprender com os poetas, e vice-versa. Uns expandem, outros condensam a matéria expressiva. Uns trabalham com o tempo, outros com o espaço. A convivência de ficcionistas e poetas torna imprecisa a fronteira entre prosa e poesia, e isso é ótimo. Aliás, ficcionistas e poetas têm muito que aprender também com os quadrinistas, cineastas, músicos, artistas plásticos… Estimular esse diálogo entre as artes é do que mais gosto, ao coordenar uma oficina.

2008

Quem não quiser escrever mal, quem quiser ajudar outros escritores a não escrever mal, deve primeiro evitar a leitura descompromissada. Deve obrigar a intuição a casar com a razão. Deve saber ler e se expressar com critério: feito crítico, não feito parente, namorado ou amigo de infância. Deve escrever apaixonadamente, ler apaixonadamente, discutir apaixonadamente. Mas sempre de maneira compromissada. Ao ler o trabalho dos colegas, deve apontar os vícios e os exageros. Os lugares comuns. Deve tentar espantar o mau gosto, o kitsch, o melodrama. Deve sugerir alternativas e indicar caminhos. Recomendar leituras. (A oficina do escritor, de Nelson de Oliveira)

2016

Apesar de coordenar oficinas há quinze anos − a primeira foi na Casa Mário de Andrade, meu endereço predileto −, ainda me considero mais escritor que oficineiro ou professor. Sinto um arrepio de quase-morte sempre que um oficinando me chama de mestre, num e-mail ou inbox. Circulo bastante à vontade entre os oficinandos justamente por me considerar mais escritor que oficineiro ou professor. Esses escritores iniciantes, como gosto de chamá-los, não ardem (ainda) na fogueira da vida social literária. Não protagonizam feiras ou festas do livro, não competem por espaço nas publicações culturais, nãos disputam as grandes editoras nem os prêmios importantes. Ainda são suportáveis as dores do orgulho estético, da vaidade intelectual. Sobre seus textos (ainda) é possível conversar livremente, apontando erros e acertos, sem as restrições enfadonhas do protocolo corporativo.

2010

Oficina também pode se chamar laboratório, estúdio ou ateliê. O nome não importa muito. É o coordenador que faz a diferença. A dinâmica e os exercícios podem ser os mesmos, mas jamais haverá dois processos parecidos se o coordenador for diferente. A multiplicidade de temperamentos e estilos não permitiria. Existe o coordenador rock, o samba, o jazz, o erudito… Até mesmo o punk, que bota pra quebrar sem dó nem ré nem mi. Essa é uma parte importante da beleza do ritual-festa.

2015

No ateliê da Casa Mário de Andrade, uma das experiências criativas mais fascinantes foi a do laboratório de criação coletiva. Esse laboratório reuniu os atelienses interessados em criar e explorar um universo ficcional compartilhado. O que é isso? É um conjunto de elementos ficcionais (personagens e ambientação) que pode ser compartilhado total ou parcialmente por diversos autores. A turma da tarde e a da noite se empenharam muito nessa experiência. Cada turma criou coletivamente um conjunto de personagens e uma ambientação específica, que foram usados na produção de contos individuais. No final do processo, os melhores contos foram selecionados para publicação, dando origem a duas coletâneas: Um circo de percalços falsos, da turma da tarde, e Contos & causos do Pinheirão, da turma da noite, lançadas pela editora Aspas.

2015

O talento para a expressão literária, em prosa ou verso, não é uma benção que as estrelas despejam sobre determinadas sensibilidades, ao sabor do acaso. É uma capacidade conquistada com muito esforço e paciência. Até mesmo o senso comum parece já ter assimilado esse fato, apesar de muita gente ainda cultivar (inconscientemente) a noção romântica de gênio e inspiração. Também não é novidade que o aperfeiçoamento do talento literário ocorre mediante duas atividades fundamentais, que se complementam: leitura crítica e escritura disciplinada. (Ateliê de criação literária, de Luiz Bras)

2009

Frequentemente me perguntam quantos escritores famosos saíram de minhas oficinas-laboratórios-ateliês. Todas as vezes minha resposta é um silêncio pasmado maior que o planeta. De onde vem essa crença ingênua de que a missão dos cursos de escrita criativa é produzir escritores famosos (péssimo adjetivo, escritores talentosos soa bem melhor)? Talento é um fenômeno muito maior que uma sala, uma roda e um cronograma. O máximo que fazemos − quando fazemos − é acelerar um pouco sua manifestação, catalisando reações afetivas e reflexivas. Confesso que minha preocupação, melhor dizendo, minha despreocupação maior é formar bons leitores por meio da escrita criativa. Porque os escritores talentosos surgirão naturalmente, não são carpas nem rãs, não é necessário difundir criadouros.

2011

Minha coleção de provocações é grande. Defendo o uso do narrador em segunda pessoa, mais raro na ficção, e do discurso indireto livre, muito mais elaborado que os outros discursos. A diferença entre prosa e poesia? Bastante simples. Poesia é prosa com enjambement. O poema é feito de linhas breves, a prosa é feita de linhas longas. Pra demonstrar essa premissa eu levo poemas célebres escritos agora na forma de miniconto, também levo versificações de trechos de romances canonizados. Costumo mostrar poemas de Adília Lopes ao falar de simplicidade e poemas de Herberto Helder ao falar de complexidade. Também costumo mostrar páginas de Alberto Pimenta e André Sant’Anna ao falar de minimalismo. Pra ilustrar o tópico subversão do tempo na narrativa gosto de recomendar a leitura do conto Viagem à semente, de Alejo Carpentier, e do romance O fim da eternidade, de Isaac Asimov. Se o assunto é a subversão do espaço, gosto de recomendar o romance A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares, e o conto Chegarão chuvas suaves, de Ray Bradbury. Mas os exemplos literários não são soberanos em minha coleção de provocações. A maioria dos exercícios parte de um estímulo visual, musical ou audiovisual: cartum, grafite, foto, pintura, rap, rock, sonata, curta-metragem etc. Gosto bastante de projetar o curta de animação Ring of fire, de Andreas Hykade, ao falar de surrealismo e erotismo, e o curta de animação Repete, de Michaela Pavlátová, ao sugerir que exercitem o recurso da anáfora.

2016

Confesso que organizar estas notas não está sendo uma atividade tão fácil quanto eu imaginava. Quando paro pra pensar sobre o que mais escrever, rostos-fantasmas começam a pipocar na tela, todos os grupos que coordenei entram no escritório, mas entram pelo avesso da vida, a cacofonia me confunde, fiapos de textos lidos há muito tempo reverberam na lembrança. Queria falar um pouco dos sotaques, das pessoas que mais me marcaram − os tímidos e os malucos −, das páginas que mais me impressionaram, das vezes em que tudo funcionou ou nada funcionou, das surpresas positivas e negativas, mas isso demandaria um esforço grande da memória, um continente inteiro de viagens. Haja mochila e bilhete aéreo.

2015

Um laboratório, uma oficina ou um ateliê de criação literária − o nome não importa muito − funda-se na prática constante dessas duas atividades − leitura crítica e escritura disciplinada −, a partir dos mais diferentes estímulos. Seu propósito é o aprimoramento individual da expressão literária, seu método é a produção regular de ficções e poemas somada ao debate imediato em torno dos textos criados em sala de aula ou em casa. Escritores diletantes, com obra ainda em formação, sofrem principalmente com a falta de leitores cuidadosos, que opinem sobre seus escritos. Para quem escreve em prosa ou verso, não existe realização literária sem a figura do leitor. A dinâmica do ateliê vem justamente suprir de leitores o escritor diletante. Nesse grupo de leitores cuidadosos está a figura central em qualquer curso de criação literária: o coordenador (um leitor-escritor experiente, de reconhecido talento). Se as regras da maioria dos laboratórios, oficinas e ateliês são bastante semelhantes, o que muda, o que faz toda a diferença é o método e o temperamento do coordenador, sua sabedoria selvagem. Mais uma evidência de que a criação literária não é uma ciência exata: jamais haverá dois cursos parecidos se o coordenador não for o mesmo. Repito: a multiplicidade de temperamentos e estilos não permitiria. (Ateliê de criação literária, de Luiz Bras)

2016

Nesses quinze anos de cursos de escrita criativa, um sem-número de livros teóricos me acompanhou espontaneamente. A família de críticos, filósofos e ensaístas nunca parou de crescer. Quando surge num conto, numa crônica ou num poema uma questão mais complexa, eu logo proponho a leitura de um teórico que refletiu sobre essa questão. A ignorância é um cantinho escuro e acolhedor, então, quanto mais luz melhor. Porém, da bibliografia não muito pequena, percebo agora que dois títulos me acompanharam sempre: História social da arte e da literatura, de Arnold Hauser, e Os problemas da estética, de Luigi Pareyson. A grande vantagem dessas obras é a prosa fluida e viciante. As duas se completam deliciosamente. Com o livro do Hauser fica fácil compreender por que a arte e a literatura contemporâneas são do jeito que são. Com o livro do Pareyson fica fácil perceber, nas polêmicas e nos debates sobre arte e literatura, o que é inteligência e o que é falácia.

2011

A arte e a literatura são o último reduto do sagrado delirante: um modo misterioso de nos posicionarmos por um segundo acima das contingências, mesmo tendo os pés encarcerados no concreto. Essa é a magia possível. No âmbito da criação literária, o ficcionista e o poeta de hoje são o xamã provisório, contra a mentalidade corporativa. São o pajé momentâneo, contra a burocracia industrial. Por essa razão, formada a roda, após a leitura dos textos, durante o debate sobre suas qualidades e seus defeitos, será sempre bem-vindo o entusiasmo do ritual tropical, o espírito apaixonado da pajelança. Por mais que o coordenador seja importante nessa dinâmica, os leitores-comentadores, em bloco, são mais. Solto na sociedade, publicando em blogues e saites literários, ou nas redes sociais, o escritor iniciante raramente encontra quinze leitores cuidadosos, que opinem sobre seus escritos. O que atrai tantos interessados − a ponto de multiplicar o número de oficinas, laboratórios, estúdios e ateliês de criação literária − é esse detalhe pouco salientado: a certeza de que haverá leitores.

2003

A expressão literária é uma substância maleável, capaz de se acomodar muito bem em diferentes recipientes. Uma substância multicolorida, avessa a qualquer polarização ideológica. Na convivência semanal, o oficineiro e os oficinandos se ensinam que mais importante que o sucesso ou o fracasso profissional, os prêmios ou o retorno financeiro é o prazer estético, é o bem-estar psicológico proporcionado pela prática da criação. Descobrir a linguagem e se descobrir na linguagem, cotidianamente, esse não deveria ser o primeiro e único mandamento?

Lúcifer e a guerra no céu

Uma paródia pós-moderna do mito da guerra no céu.
Essa é minha passagem predileta do romance Subsolo infinito.

Capa Subsolo Infinito

Eu falava sobre os deuses e a evolução planetária. Eu dizia, acima dos homens existem os cronópios. Completamente preso nos movimentos do mar, Tolstói nem sequer piscava. Eu dizia, o elemento do cronópio é o ar. Acima dos cronópios estão os dragões. Seu elemento é o fogo. Falava da Lemúria. Formidáveis convulsões sísmicas agitaram a Lemúria de um extremo a outro. Incontáveis vulcões se puseram a vomitar torrentes de lava. Milhões de seres monstruosos, encolhidos nos precipícios ou suspensos nos cumes montanhosos, foram asfixiados pela fumaça ou tragados pelo mar fervente. Os homens impuros que ali viviam foram exterminados e o continente, após uma série de erupções e abalos, fraturou-se e afundou pouco a pouco no oceano. Eu dizia, acima dos dragões reinam as quimeras. Seu elemento é o éter. Esse, o primeiro grupo de poderes espirituais que está acima do homem. A seguir vem a segunda tríade: as salamandras, os lêmures e os sátiros. Bem acima de todo o racionalismo e de toda a imaginação humana encontra-se a terceira tríade: as valquírias, os unicórnios e as esfinges. Mas eu não me enganava. Sabia muito bem que essas palavras não me pertenciam. Eram as palavras de Edu.

[…]

Lá no alto, em êxtase, os dragões haviam concebido a raça dos cronópios, aqui nas trevas relativistas eles novamente refletiam os unicórnios, mas dessa vez sua nova criação se contraía e contorcia de angústia, desejo e cólera, ora, essas novas formas-pensamentos engendradas pelo sono turvo dos dragões tornaram-se os protótipos do mundo animal que iria se desenvolver mais tarde sobre a Terra, os animais não são senão cópias deformadas e, de algum modo, caricaturas dos seres divinos, pode-se pois pretender que se os cronópios — e através deles os homens — nasceram do êxtase dos dragões na luz, os animais, pelo contrário, nasceram de seu pesadelo nas trevas.

[…]

Edu, acendendo um cigarro, fica por algum tempo observando a fumaça se desfazer em criptogramas diante de si, antes de dar continuidade ao que falava, dizendo peremptoriamente, Lúcifer não é o capeta, o tinhoso, o coisa-ruim, o bode-preto, Lúcifer não é Satã, o gênio do mal, segundo a tradição ortodoxa e popular, Lúcifer é um deus como os outros e seu próprio nome, portador de luz, garantiu-lhe sua indestrutível dignidade de dragão. Sim, voltamos a repetir em uníssono, Lúcifer não é Satã. Veremos mais tarde por que Lúcifer, gênio do conhecimento e da individualidade, foi tão necessário ao mundo — tanto quanto Jesus Cristo, gênio do amor e do sacrifício —, veremos como toda a evolução humana resulta de sua luta contra Deus, e como, enfim, seu esplendor final e transcendente deve coroar a volta do homem à divindade, pois, de todos os dragões, Lúcifer, representante e chefe patronímico de toda uma classe de cronópios e espíritos, foi o que lançou o olhar mais penetrante e atrevido à sabedoria de Deus e ao plano celestial. Sim, repetíamos, o olhar mais penetrante e atrevido. E era também o mais orgulhoso e o mais indomável, não queria obedecer a nenhum outro Deus a não ser a si mesmo, os outros dragões haviam gerado de suas formas-pensamentos os cronópios, protótipos ainda puros do homem divino, esses cronópios possuíam apenas um corpo etéreo diáfano e um corpo astral radiante que, por sua força receptiva e resplandecente, uniam em perfeita harmonia o eterno-masculino e o eterno-feminino, tinham também o amor, uma irradiação espiritual sem perturbação e sem o desejo egoísta de posse, porque eram astral e espiritualmente andróginos, Lúcifer compreendeu que pra criar o homem independente, o homem com desejo e rebeldia, era necessária a separação dos sexos, pra seduzir os cronópios com seu pensamento-projeto ele moldou na luz astral a forma deslumbrante de Lilith, a futura mulher, a eva ideal, e mostrou-a a eles, uma multidão se inflamou de entusiasmo pela imagem fogosa que prometia ao mundo alegrias e delírios desconhecidos, e muitos deles, tomados de luxúria, se agruparam ao redor do supremo dragão rebelde. Slides com cenas de rebeliões extraídas de filmes antigos são projetados. Tudo era estresse e êxtase, formava-se então entre Marte e Júpiter um astro intermediário, sua forma ainda era apenas a de um grosso anel, mas seu destino era se condensar num planeta após a fragmentação inevitável, Lúcifer o escolheu pra criar com seus cronópios um mundo que, sem passar pelas provações terrestres, encontrasse em si mesmo força e alegria, e saboreasse ao mesmo tempo o fruto da vida e do conhecimento, sem a ajuda do Todo-Poderoso. Clamor de armas, uivos, tensão e tesão. Batíamos palmas e, qual tribo em êxtase, mais uma vez dançávamos ao redor da mesa. Os outros dragões e todos os cronópios, quimeras, salamandras, lêmures etcetera etcetera receberam a ordem de impedir o revoltoso, porque sua transgressão, cacete!, seu plano promoveria a baderna na criação e romperia a cadeia da hierarquia divina e planetária, a batalha feroz e prolongada que se travou entre os dois exércitos terminou com a derrota de Lúcifer e teve um duplo resultado: primeiro a destruição do planeta em formação, cujos destroços são os atuais asteroides, depois o banimento de Lúcifer e seu exército para um mundo inferior, outro planeta que acabara de ser desprendido do núcleo solar pelos sátiros e lêmures, esse planeta era a Terra, não a Terra de hoje, mas a Terra primitiva, que era apenas, então, um astro árido e quase sem paisagem, feito a lua, esse episódio cosmogônico constituiu um fato capital na história planetária, foi uma espécie de incêndio astral cujo reflexo repercutiu em todas as mitologias, um cometa de fogo que dardejou suas pontas incendiárias nas profundezas ocultas da alma humana, primeiro clarão do desejo, do conhecimento e da liberdade, a tocha fulgurante de Lúcifer não se acenderia novamente com todo o seu brilho senão no sol do amor e da vida divina: em Cristo.

[ Subsolo infinito edição comemorativa • Patuá Editora • 2016 ]