[ Invisibilidade progressiva ]

Vamos desaparecer devagar, feito o homem invisível.

Primeiro sumirá nossa pele, deixando aparentes os órgãos internos. Depois sumirão os órgãos internos, deixando aparente o esqueleto. Por fim sumirá o esqueleto: invisibilidade total.

De nós restará apenas o toque e o movimento.

Apenas?!

Toque e movimento não são a presença mais potente de uma pessoa?!

Vamos desaparecer devagar, essa invisibilidade progressiva será uma forma de protesto. Uns fazem greve de fome, outros fazem greve de sexo. Nós desaparecemos.

Primeiro sumiu nosso autógrafo.

Recentemente, durante as viagens que fizemos, presenteamos vários amigos com nossos livros. Todos notaram que o exemplar recebido não estava autografado.

Metade nos agradeceu pelo presente e não comentou esse detalhe. Metade nos agradeceu e pediu o autógrafo.

Então explicamos: não autografamos mais nossos livros. Não enquanto a ficção fantástica e a ficção futurista brasileiras continuarem na invisibilidade.

Não enquanto as instâncias legitimadoras, realistas-naturalistas, continuarem invisibilizando a ficção fantástica e a ficção futurista brasileiras.

Uns fazem greve de fome, outros fazem greve de sexo. Cada um protesta como pode.

Primeiro sumiu nosso autógrafo (pele simbólica).

Se em cinco anos nada mudar, então sumirá nosso rosto: não nos deixaremos mais fotografar ou filmar (órgãos simbólicos).

Se em mais cinco anos nada mudar, então sumirá nossa fala: não daremos mais entrevistas, nem participaremos de lançamentos ou mesas-redondas (esqueleto simbólico).

De nós restará apenas nossa literatura.

Apenas?!

Poemas, contos, romances e ensaios não são a presença mais potente de um escritor?!

Cada um protesta como pode. Contra a invisibilidade institucional imposta de fora pra dentro, respondemos com a invisibilidade pessoal lançada de dentro pra fora.

[ Nelson de Oliveira + Luiz Bras + Valerio Oliveira + Teo Adorno + Sofia Soft ]

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Manifesto : Convergência

Por uma nova ilusão utópica

§

Um acerto e um erro. No final do século 20 foi decretado o fim das velhas utopias, pois ficou provado que uma utopia é uma ilusão conceitual, uma fantasia da infância. Esse foi o acerto. O carrasco das velhas utopias argumenta que precisamos abandonar urgentemente nossas ilusões se quisermos amadurecer. Esse está sendo o erro. Acertamos ao decretar o fim das velhas utopias, mas erramos ao impedir que uma nova utopia ocupe o lugar vazio em nosso psiquismo coletivo, que está doente. Uma utopia é sempre uma ilusão, mas uma ilusão verdadeira e saudável, necessária para nossa sobrevivência. A ilusão utópica facilita o fluxo social, impedindo a expansão e a permanência de ideias e regimes totalitários. A ilusão utópica é uma necessidade humana, uma poderosa ferramenta evolutiva.

§

Um planeta sem muros é uma impossibilidade prática e teórica. Muros são necessários: muros protegem, muros preservam. Nossa sociedade é dividida por centenas de muros simbólicos, por poderosos muros políticos, étnicos, sexuais, religiosos, financeiros, culturais, evolutivos. Lutar por um planeta sem muros é uma estupidez romântica. Mais inteligente seria lutar por um tipo mais maleável de muro, feito de outro material simbólico, feito principalmente de aproximações pacíficas. Uma utopia necessária: muros que protejam e preservem, mas não separem as pessoas.

§

A utopia necessária não difundirá a antiquada divergência desarmônica − guerreira −, mas uma transformação muito mais sutil: a convergência sintônica. Não está na hora de artistas e escritores começarem a modelar o novo projeto de futuro?

§

Utopia (matriz política) e mito (matriz poética) são abstrações concretas que apresentam a mesma expressão genética. Numa sociedade dividida por muros sintônicos − anteparos que protegem e preservam, mas não separam as pessoas −, estejam certos de que uma nova utopia fecundará e gestará um novo mito, e vice-versa.

§

A convergência sintônica precisará de um novo mito que seja completo, cuja poderosa substância simbólica entrelace, muito bem entrelaçados, ingredientes das quatro formas básicas de conhecimento do mundo: arte, religião, ciência e política. Precisará de uma nova narrativa inaugural que articule as oposições − vida e morte, masculino e feminino, matéria e espírito, civilização e natureza, razão e intuição, misticismo e tecnologia, tradição e ruptura, erudito e popular − sem domesticar seu impulso original, sem simplificar os traços de complexidade nem dissolver um dos extremos no outro, evitando assim qualquer síntese artificial.

§

Uma nova utopia e um novo mito exigirão uma nova fraternidade, formada por artistas, escritores e pensadores dispostos a cultivar a convergência e a elaborar coletivamente os fundamentos do novo movimento. O carrasco das velhas utopias disseminou a crença no individualismo, na força do sujeito sozinho, indiferente a qualquer tradição e antipático a qualquer confluência teórica e criativa. Outro erro estúpido. Uma multidão de sujeitos sozinhos jamais conseguirá habitar todas as áreas vazias de nosso psiquismo coletivo. Repito: não haverá uma nova utopia nem um novo mito se não houver uma nova fraternidade.

§

No campo da arte e da literatura, fraternidade é sinônimo de escola. O fim das velhas utopias artísticas e literárias também foi o fim das escolas-fraternidades que as cultivavam: romantismo, naturalismo, simbolismo, impressionismo, cubismo, suprematismo, dadaísmo, surrealismo, por art, concretismo etc. Os artistas e os escritores contemporâneos evitam formar fraternidades, com medo de perder a liberdade criativa ao aderir a qualquer programa coletivo. Quer reconheçam explicitamente quer não, para esses artistas e escritores o conceito romântico de originalidade continua bastante ativo. Cada um se julga autor de uma obra única e singular, e o carrasco das velhas utopias reforça diariamente essa ilusão individualista. Contrário a essa visão superficial, o filósofo Luigi Pareyson, em Os problemas da estética, argumenta que fraternidade e originalidade genuína não são noções excludentes. Quando alinhadas, são noções que se alimentam reciprocamente, fortalecendo-se. A singularidade verdadeiramente original não rejeita a comunidade e a comunidade não enfraquece a singularidade verdadeiramente original.

§

Suspeito que uma nova utopia e um novo mito, para realmente merecerem o atributo de novo, precisarão enfrentar a crença mais nefasta do nosso tempo: o antropocentrismo. Não se trata de extirpar essa crença tão antiga quanto o próprio sapiens, isso seria ridículo, seria como tentar extirpar para sempre a sombra das pessoas. Trata-se de enfraquecer essa noção chauvinista, que justifica, por exemplo, a devastação ambiental. Todas as formas de vida, da mais simples à mais complexa, são intrinsecamente narcisistas, e o antropocentrismo é a forma coletiva do narcisismo humano. Hoje sabemos que o sapiens não ocupa a posição central no universo. Mas no dia a dia nosso narcisismo antropocêntrico apaga essa verdade tão inconveniente, espalhando doenças intelectuais e emocionais. Há bilhões de anos o universo teve um centro, mas durou muito pouco, e garanto que esse centro fugaz não se parecia em nada comigo ou com vocês. Uma nova fraternidade, formada por artistas, escritores e pensadores dispostos a cultivar a convergência, precisará manter visível na teoria e na prática a certeza de que a suprema beleza estética e existencial está inteira em nossa descentralização evolutiva, política e cosmológica.

§

O narcisismo surdo a críticas, o ego cego aos valores mais valiosos da vida, apaixonado apenas pelo brilho trivial das medalhas e dos falsos sorrisos… A nova fraternidade precisará enfrentar − sem jamais pretender vencer, pois ela é invencível − a força centrípeta da vaidade artística e literária. Força que sempre arrasta e esfacela o talento mal orientado, antes que o infeliz tenha tempo de se fortalecer. Muito cuidado: “Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um teto sobre a cabeça, um prato quente no fim do dia e o que mais deseja: o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que com certeza viverá mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço.” [ Carlos Ruiz Zafón ]

§

Outra doença contemporânea que uma nova utopia e um novo mito precisarão enfrentar será a infantilização cultural, promovida pela indústria do entretenimento. Uma distorção severa em nossa percepção crítica está aumentando exponencialmente uma estranha confusão valorativa: obras de menor valor artístico ou literário têm sido confundidas com verdadeiras obras-primas. Artistas e escritores medianos, quando não medíocres, têm sido confundidos com verdadeiros mestres. A indústria do entretenimento alimenta a infantilização cultural, confundindo produtores, instâncias legitimadoras e consumidores. As obras e os profissionais do entretenimento, menos sofisticados, desempenham uma função social importante, mas não devem ser promovidos artificialmente a grande arte e a grandes artistas. Essa confusão valorativa favorece apenas o caixa da indústria. Essa confusão valorativa não faz bem à arte e ao artista, muito menos às obras de entretenimento de qualidade e aos profissionais talentosos que as produzem. O popular e o erudito são categorias distintas, que podem até dialogar, beneficiando-se mutuamente, mas cada qual tem seus critérios e sua escala de valor, que estruturam sua identidade indissolúvel.

§

A infantilização cultural vaza cotidianamente, preenchendo outros compartimentos da vida social e enfraquecendo debates e reflexões. No plano da administração pública, políticos despreparados são confundidos com verdadeiros estadistas, enquanto partidos inconsistentes, sem raiz ou substância, chegam ao poder de maneira atrapalhada e realizam perigosos projetos de governo. No plano da pesquisa acadêmica, dissertações repetitivas e teses anódinas são confundidas com investigações científicas sólidas e originais, apenas porque os pesquisadores souberam usar apropriadamente o discurso impessoal e as normas da ABNT.

§

O novo mito pode muito bem começar expressando a tão desejada comunicação total entre todas as pessoas do planeta, ou seja, a transmissão-recepção completa de mensagens verbais, visuais, sonoras, táteis, olfativas, gustativas e afetivas. A história da comunicação humana começa com mímicas e grunhidos. Até que surgem a dança, a música, o desenho, a pintura, a escultura e a palavra falada e cantada. Mais tarde surge a palavra escrita. Pouco tempo atrás surgiram a fotografia, o cinema, a tevê e os meios eletrônicos. Por mais sofisticadas que sejam essas formas de comunicação, elas são usadas por pessoas literalmente fechadas em si mesmas. Cada ser humano é uma caixa-preta separada de todas as outras caixas-pretas, um primata que precisa usar a voz, a escrita, o desenho e qualquer outro recurso externo para se comunicar, porque ninguém consegue transmitir-receber pensamentos puros. Agora pensem numa sociedade interconectada mentalmente. Imaginem os membros dessa sociedade trocando pensamentos refinados e experiências emocionais profundas. O novo mito pode muito bem começar expressando as sutilezas da futura telepatia cibernética. “Para mim não é nada surreal imaginar que futuras proles humanas poderão adquirir habilidade, tecnologia e sabedoria ética necessárias para estabelecer um meio através do qual bilhões de seres humanos consensualmente estabelecerão contatos temporários com outros membros da espécie, unicamente através do pensamento. Como será participar desse colosso de consciência coletiva, ou o que ele será capaz de realizar e sentir, ninguém em nosso tempo presente pode conceber ou descrever.” [ Miguel Nicolelis imaginando a brain-net ]

§

Exercício de subversão da noção capitalista-fetichista de propriedade autoritária: escreva e publique um poema com sua assinatura, permitindo que outros reescrevam e publiquem livremente o mesmo poema, porém alterando a autoria: substituindo sua assinatura e jamais mencionando a autoria original. O mesmo poema, é verdade, logo deixará de ser o mesmo poema. Então, aprecie a beleza exotérica da experiência, a força convergente da livre apropriação criativa, a riqueza das variações sintáticas e semânticas dos versos em mutação. Também é verdade que a autoria original jamais será perdida, afinal seu registro no banco de dados do sistema literário permanecerá até o fim do antropoceno, no mínimo. Apesar disso, as muitas apropriações autorizadas sempre reforçarão um fato novo: a reavaliação da noção capitalista-fetichista de propriedade autoritária.

§

No princípio rogávamos ao Divino que satisfizesse nossos desejos, agora rogamos ao Humano. No princípio era o teocentrismo, agora é o antropocentrismo. Saltamos de um extremo ao outro, mas não abandonamos o maior inimigo da convergência: o egocentrismo.

§

A natureza nos evoluiu assim: autocentrados. O indivíduo passa sua breve existência submetido a si mesmo, vivendo e revivendo suas vitórias e derrotas, suas alegrias e aflições. Nos livros ruins e nos filmes ruins, a infantilização cultural reforça docemente: “Você, indivíduo, consumidor, protagonista, você é maior que o universo”. A infantilização cultural alimenta o instinto de autopreservação, e o instinto de autopreservação, agradecido, alimenta a infantilização cultural. Um modo de aquietar por um momento as fomes do ego e desacelerar o egocentrismo inato é contemplar a inquietante noção de infinito.

§

A noção de infinito é uma das mais assustadoras que nossa espécie já formulou. O espaço é infinito? O tempo é infinito? Se o universo for realmente infinito, e se existirem infinitos universos compondo um multiverso, continuar atento apenas à restrita dimensão humana é um hábito muito empobrecedor. O novo mito pode muito bem expandir nossos limitados limites de tempo e espaço, conduzindo nossa imaginação um bilhão de anos no futuro ou no passado, um bilhão de anos-luz à esquerda ou à direita. Nessa escala sobre-humana, de que tamanho ficaria nosso egocentrismo cotidiano? Maravilhosamente pequeno. E nem sequer começamos a vislumbrar a camada mais externa da ideia geral de infinito. Uma vida de cem anos ou de um bilhão de anos chegam tão perto do infinito quanto uma vida de um segundo, uma viagem de cem quilômetros ou de um bilhão de anos-luz chegam tão perto do infinito quanto uma viagem de um milímetro. Quantas realidades alternativas e quantos universos paralelos cabem na noção sem fim de infinito? Não há antropocentrismo que não fraqueje diante da beleza poética e matemática desse devaneio.

[ Manifesto em progresso ]

Mensagem do Paulo Lai Werneck

Capa Subsolo infinito

Nelson,

Sei que você está com inúmeros ateliês por aí e desejo todo sucesso em todos eles, é claro, principalmente na sua trajetória literária, que eu aprendi a admirar logo que li os primeiros poemas do Valerio Oliveira e agora este livro.

Não quero te atrapalhar com lengalenga, por isso direi a meu favor que a minha mensagem tem uma boa intenção.

Acabei dobrando as páginas para não riscar essa edição comemorativa do teu primeiro romance, mas foi uma grande besteira, depois fiquei procurando nas páginas o porquê das marcações, uns porquês mais fáceis de achar do que outros. Mas no Distrito federal irei assinalar impiedosamente com um marcador amarelo.

Arrisco então a emitir uns o-bla-dis o-bla-das sobre a leitura desse livro. Subsolo infinito: como não começar pelo final se o final define determinadas questões?

Você já havia se referido à vampirização, e agora li a mesma declaração no final do livro. Eu que me autovampirizo sem qualquer piedade também tenho pudor em fazer isso com histórias de pessoas próximas, se eu não estiver incluído, mas mesmo assim reservo a mim apenas o ônus da indiscrição, caso ela exista.

Me pergunto se quase toda literatura não é embrionária de seu próprio meio, a literatura gerando a literatura não é apenas uma força de expressão, mas talvez a realidade mais presente dela.

Creio, entretanto, que as paródias, citações e afins é que nos permitem o exorcismo de nossas mais impactantes leituras, mas pergunto se crer nisso não seria um contrassenso, ao mesmo tempo que partilho da mesma visão, de que a leitura engendra ou impregna a escrita na maior parte dos casos.

Outra coisa com que me identifico é a viagem insólita. É que acabo num mundo à parte, de uma realidade quase delirante, entre esse ofício e a própria vida − se eu, ainda aspirante a escritor, posso dizer isso a você. Talvez eu seja muito emocional para a coisa toda, às vezes penso nisso.

Com certeza, lendo seu livro, não dei conta de todas as citações e nem darei, mesmo que leia outra vez. É rica demais a construção do texto, com amarras e costuras por todo lado, dos autores que você citou e outros mais, seja em ideias, seja em nomes de personagens etc., que figuram como aplicações nesse tecido literário juntamente com muitas das invenções, feito o hino com sílabas ao contrário, entre outras, intercaladas com alguns bordados pop e/ou almanaqueanos, desde o o-bla-di o-bla-da repetido duas vezes no livro, figurando com o mesmo sentido (derivado da sacada da similaridade sonora?) do nosso patati patatá, que você também empregou em “um pequeno passo para o homem patati patatá”, faze o que tu queres pois é tudo da Lei, a hexacosioi-hexeconta-hexafobia…

Muitas brincadeiras literárias com as palavras, como o jogo com o título do livro de Lautréamont: “Mal de amor, mal de olor, mal de dolor, ah maldito Maldoror, ouvi alguém praguejar num canto, em todos os cantos da cidade”. E outras: “Absolutas estrelas obsoletas!”, “O gloglogló de água passando sobre pedras e plantas”.

Borges ou Pessoa, fogos-fátuos. O que acha desse encontro? Fernando Pessoa e Borges se encontram em Lisboa.

Dar o título de Ex-libris ao capítulo que narra a perda de identidade, achei bom demais. Enfim, lança o mote principal: um livro sobre livros. Entre cartapácios e alfarrábios. Os livros-objetos que aparecem mais para frente, livros somente para se manusear, aqueles do contêiner, que às vezes cheiram a mofo, mas sempre parecem cheirar melhor que o mundo não literário.

Van Gogh de bafo impressionista citando Dante, a transformação kafkiana, não só do personagem, mas do ambiente (demais isso), indo do desespero ao humor debochado: “terei inadvertidamente tocado uma parede recém-pintada?” Um desespero em torno da suposta pureza perdida de uma alvura viking, abrindo a unhas a nossa ferida do racismo. Ao contrário de Edu, o meta-sagrado, que tem seu dia de Gregor Samsa, de cuja “boca nojenta saíam os filamentos luminosos de um crustáceo escondido”.

O título dos capítulos e sua inversão: a descida subida, a subida descida. Muitos trechos poéticos, seja no registro da prosa poética, seja nas fortes imagens que se impõem.

Começando a tatear o vazio
A escada havia acabado
Não existiam mais degraus
A coluna estreita
Por onde vínhamos descendo
Pouco a pouco foi se alargando
Separando as paredes
Como num funil invertido
Até transforma-se numa abóbada descomunal

(…)

Pequenos pontos de luz
Talvez vaga-lumes, piscavam
Não são vaga-lumes, são pessoas
Descendo por outros respiradouros

Igual a um funil invertido, abre-se uma abóbada descomunal − grande e bela imagem sobre um ambiente escuro onde aparecem “pequenos pontos de luz” (lembrei que no final do romance, se não me engano, você fala de “abóbada abobada”), a trama das luzes, inúmeras fileiras que acendiam e apagavam na queda dos que tentavam a descida-subida pendurados em cordas. Voltando um pouco, um trecho que descreve a formação da nuvem primordial e termina na passagem do cajado ao peregrino Tolstói, também achei quase um poema.

E em A queda para o alto (último capítulo):

Está escutando?
Que força é essa que atravessa paredes
Escorre por degraus
Desliza entre a sombra e a superfície
Sem perturbar nem uma nem a outra?

Tem muita força esse capítulo final, impressionante mesmo.

Chamou a minha atenção, na divisão do romance, a parte específica que trata do subsolo infinito. É quase um livro à parte, uma mini-saga. E as tribos indígenas babélicas, achei demais essa parte.

Deliciosa, a personagem José Maria/Maria José. Genial a sua homenagem a Guimarães Rosa, a Diadorim figura-de-papel, leitura obrigatória do colégio e/ou cursinho, pelo menos. Vou sofismar: ela é a guia da viagem externa e interna de Toni, e inclusive ele revive alguns sentimentos do Riobaldo: ama Maria José e repele José Maria.

O protagonista transfere o dilema para outro patamar, sabe da existência dos dois (macho e fêmea) num só corpo metamorfo, porém desconhece quando será ele ou ela que se fará presente. Até o momento em que Toni avista Maria José, “não Maria José Maria, nem José Maria José”. E no final acontece a reconciliação com José Maria, na pele da irmã. Há também o pacto roseano na encruzilhada, e outra virada: o acerto de contas invertido, levando o demo a viver uma vida quase humana, “perdi a razão, escrevi livros, casei e tive filhos”.

Os personagens se entrelaçam feito fios no fio principal da saga do demônio que virou humano, em contraponto à sombra que se revela lá na frente, do humano que se quis imortal, porém são intrincados fios, igual a uma louca renda de bilros.

Da mística do Edu e/ou Exu? Uma boa referência que eu não conhecia: Edouard Schuré. Há também as constantes repetições esotéricas, cada vez mais diluídas, como um eco que vai se perdendo e ressurge estrondoso na batalha final, não no céu, mas nas margens do caudal mítico, o rio Caiapó.

Com o drama de Fausto e Mefistófeles, de Goethe, e as inúmeras denominações do demo, por Guimarães Rosa, eu tenho mais afinidade, assim como com muitas das referências mitológicas gregas, mas novamente presto atenção nas costuras. Eu me arrisco a beliscar essa camada extra, e me atrevo a tentar entender o seu texto como um momento de afinados expurgos, no qual me referi antes: exorcismo às avessas das referências.

Por falar em exorcismo, em Álvares de Azevedo, Tolstói, Goethe, Rosa e toda uma genealogia da literatura do diabo, o carnaval aflora em outro momento sarcasticamente debochado − Paracelso, Nostradamus e Aleister Crowley −, numa conversa sobre hemorroidas e furúnculos. Tudo ocorrendo dentro da arquitetura de uma viagem dantesca, homérica, através de cenários do centro da Terra de Verne.

Mas vi que não era só isso, claro. Existia um porquê. Pergunto se não é um profundo exercício de liberdade delimitada, depois de escolhido o tema principal, o que determinou a costura da conversa dos autores que você citou. Como nem todo encontro é fluido, também ouso imaginar que daí incide parte do processo criativo que pega não somente referências afins e fáceis de amalgamar, mas referências às vezes díspares, que, no intuito de criar sentido e fluência no texto, estabelecem inúmeras ligações criativas inusitadas.

Subsolo infinito é um romance com um assunto espiritual, mas um tanto quanto físico, digo, de ações e descrições que derivam do ato físico, talvez seja melhor dizer que o livro oferece inúmeras qualidades sensoriais, mas principalmente táteis, por todo lado. Seja o que for que isso signifique. Talvez signifique que percebemos nas descrições a mutabilidade das metamorfoses físicas do ambiente e/ou do corpo biológico dos personagens, através da trama que desemboca nas soluções de caráter fantástico, e nas diversas manipulações da ideia de tempo e espaço.

Termino comentando a citação inicial do livro do Campos de Carvalho, A lua vem da Ásia. Essa é uma leitura que eu me cobro. Não tenho medo nem a superstição do esvaziamento da minha criatividade. Mas, nesse caso, faz um bom tempo que li o começo do romance do autor mineiro. Fiquei tão deslumbrado, embasbacado mesmo, que me perguntei se eu teria tempo hábil de expurgar essa leitura, e fechei o livro. Porém, inadvertidamente, recentemente li Ubik, do Philip K. Dick…

Desculpe se acabo me autovampirizando nessas observações, mas com quem eu poderia falar sobre essas coisas a esta altura da vida?

Quando puder, por favor, diga algo sobre. Assim será mais fácil expurgar você também. Bem que você avisou lá no ateliê, por isso encerrei e fechei qualquer possibilidade de fazer oficinas de escrita criativa com outra pessoa. Já estou bem acompanhado. Afinidades.

O que não expurgarei nunca é minha gratidão.

Abraço!

Paulo

+   +   +

Recebi essa maravilhosa mensagem dias atrás, por e-mail.
Paulo, que eu conheci há dois anos no ateliê de criação literária da Casa Mário de Andrade, mergulhou nas águas nebulosas do Subsolo infinito e trouxe de lá uma trama particular de inquietações. Um tesouro obscuro.
Considero esse romance delirante, talvez psicanalítico, o melhor livro-pesadelo que eu já escrevi. E também o mais difícil. Apesar de não ser muito extenso, conheço poucas pessoas que conseguiram chegar ao final.
Por isso agradeço muito ao Paulo, pela disposição em investigar essa floresta de símbolos e mitos, e mais ainda pela interlocução enriquecedora.
Valeu, camarada!

R u a s

Teresa

Em São Paulo, logo na entrada da rua dos Cães − uma rua íngreme e muito estreita − há um dobermann descomunal, de olhar feroz e turbulento, sentado sobre as patas traseiras. Onde está o dono de tão irascível criatura? Trancado em casa, é óbvio. Bem como todos os seus vizinhos. Afinal quem se arriscaria a sair à rua em pleno dezembro, no alto verão, com o sol escaldante cozinhando o miolo de seus queridos animaizinhos de estimação? É claro que se houvesse mais árvores nessa rua o problema estaria, se não resolvido, pelo menos atenuado. Todavia, como podem ver, em toda a extensão da rua dos Cães há pouquíssimas árvores. Isso deixa os animais, principalmente os dobermanns, enlouquecidos. Presos a uma realidade que tanto os oprime, eles passam todo o tempo zanzando, indo de uma calçada a outra, de matilha em matilha, misturando-se com os dálmatas, filas, pastores-alemães, buldogues, incontáveis vezes por dia. Línguas de fora, ofegantes, afiadas, enchem-me de pavor. A rua dos Cães é um prolongamento de minha rua, que, por sua vez, é um prolongamento de todas as demais ruas de São Paulo. Dizem − não sei, nunca tive a oportunidade de ver confirmada essa desajeitada afirmação − que em Buenos Aires também é assim. Dizem que lá todas as ruas da cidade, semelhante a uma serpente sinuosa e infinita, fazem parte da mesma e única rua. Pode ser. Contudo, a superioridade dos portenhos − superioridade que muito nos constrange − deve ser reflexo de sua inteligente configuração urbana. Questão de bom senso: não existem cães sem coleira em Buenos Aires, nem ruas tão selvagens quanto as nossas. Isso, pelo menos, é o que dizem os viajantes.

Um verdadeiro milagre. Ao abrir a portinhola da gaiola, meu papagaio saiu de lá de dentro como um raio, atravessou a sala, passou pela janela aberta e ganhou a rua, deixando atrás de si um rastro de ar comprimido. Corri com o binóculo na mão. Fora do apartamento não esperei pelo elevador. Desci as escadas atabalhoadamente, sem respirar. O porteiro abriu o portão e, caramba!, quando apontei as lentes do binóculo para o final da rua, vi que meu papagaio já estava chegando lá, já estava lá, já não estava mais lá, mas muito mais adiante, no começo da rua seguinte. Minha rua emenda com a rua dos Cães, que por sua vez emenda com a rua dos Gatos, que por sua vez emenda com a rua dos Papagaios. Meu papagaio passou da minha rua pra rua dos Papagaios sem o menor problema. Esse, o inconveniente milagre.

Atravessei a rua dos Cães sem olhar para os lados, andei por toda a sua extensão quase sem piscar. Atravessei a maldita rua, a coluna ereta, os músculos rijos, sem pressa, controlando meus movimentos. Qualquer gesto mais afoito e seria o meu fim, disso eu tinha certeza. Enquanto andava ia sentindo nas faces o hálito quente dos cães. Por pouco não desfaleci, não manchei a calçada com meu covarde excremento. Mais do que o bafo, era o rosnar abafado, autocontrolado, cheio de ira e vigor, dos animais, o que mais me intimidava. Silenciosos feito gárgulas, os cães maiores, monstruosos e negros, permaneciam sentados sobre as patas traseiras, como se guardassem as portas do inferno. Esses me aterrorizavam apenas com sua presença pétrea. Eram, contudo, os menores, os malditos poodles, fox-terriers, pinschers − os endemoninhados pinschers de pescoço comprido e orelhas retas −, que me azucrinavam mais. Ah, os menores! Alguns soltos na rua, outros atrás da grade dos portões. Sacudindo os portões, estes. Abocanhando a barra da minha calça, aqueles. Todos latindo sem parar, auauauauauauouououououou!, avançando e recuando.

Uma hora atrás, Vilma, ao me ver na rua, chamara da janela do nosso apartamento: − Consegue ver o Querubim? − Sim. Está na rua dos Papagaios, o desgraçado. − Que merda! Como você pôde ser tão descuidado? Matilde jamais nos perdoará por isso. Emudeci. Matilde, histérica. Só de pensar nessa possibilidade meu corpo estremeceu. Corri para o apartamento, escancarei as portas do guarda-roupa, agarrei o rifle, a capanga de munição e a rede de pegar borboleta. − Sou um homem amaldiçoado se não trouxer o bicho de volta. − Boa sorte. − Espero estar de volta antes que anoiteça. Respirei fundo. No momento em que eu estava saindo Vilma me segurou e, com lábios de mel, me beijou como havia muito não beijava. Não gostei nada disso. Temi por meu destino. Um beijo desses, numa hora dessas, tinha o sabor da morte.

Na rua dos Gatos, estaquei. Peguei o binóculo e olhei o mais longe que pude. Lá estava o desgraçado, dezenas de quarteirões à frente, na rua dos Papagaios. Pensei em desistir. Tive medo. Lembrei de Matilde e tal lembrança deu-me forças pra continuar. A rua dos Gatos era tremendamente mais soturna, mais ensombrecida que a dos Cães. Entrar nela era como entrar numa caverna. Tudo porque, diferente da anterior, possuía essa um grande número de árvores − jabuticabeiras, ciprestes, pinheiros, até mesmo um grande carvalho − cuja sombra caía pesada e impiedosamente sobre prédios e gatos, tornando o sol quase invisível.

Protegidos pela copa das árvores, ai Jesus, sombras, vultos e silhuetas moviam-se silenciosamente, parecendo espectros de uma noite eterna. Possuíam contornos mal definidos, tais espectros. Deslocavam-se, dentro dessa selva insana, semelhantes a entidades imateriais, sem produzir o menor ruído. Prossegui, sempre ereto, sempre firme em meu propósito, fingindo total indiferença, você já entendeu: esnobando os felinos. A cada passo podia sentir o toque de suas patas, o roçar de duas dúzias de caudas em minhas mãos, primeiro, depois em minhas pernas, por baixo da barra da calça. O toque aveludado, acolchoado, sinuoso, da mais desfrutável das fêmeas… De repente um gemido, um salto no escuro e meu reflexo pego de surpresa no branco duns olhos arregalados e aterradores, realmente horripilantes. E então mais outro salto, e mais outro, e outro. Depois, sussurros, como se conspirassem baixinho. E então mais outro salto, e mais outro, e outro. Vi pelos curtos e pelos longos, unhas retráteis e afiadas, caninos agudos e fortes. Siameses, persas, angorás, nos galhos mais baixos de uma figueira. Ao perceberem que eu não pretendia fugir, começaram, os mais audaciosos, a saltar do galho e a me rodear. Havia luz no fim do túnel. De onde me encontrava podia ver sua aura prismática, apesar de muito pequena. Eu estava num túnel? Estava. O fim do túnel era, eu sabia, o início da rua dos Papagaios. As casas e os prédios da rua dos Gatos tinham, todos, extensos jardins cujas plantas, alegres e exuberantes, escorriam pelos muros e pelas grades, e caíam na calçada dificultando e muito a visão. Era planta ornamental por toda a parte. Onde terminava a copa da árvore mais próxima e onde começava o jardim do prédio em frente era algo difícil de dizer. Desviei de uma raiz que já começava a quebrar o concreto em alguns pontos da calçada e topei, assustado, com um vulto tão grande, tão sólido, que, logo concluí, só podia se tratar de um grupo compacto de dez, doze gatos sentados uns sobre os outros. Contudo, logo após o esbarrão dois olhos iluminados grudaram nos meus, feito lanternas. − Putamerda! Nessa hora mudei de ideia. Não, definitivamente não era um grupo de gatos. Recuei num pulo, feito um chimpanzé que tivesse pisado numa cascavel. O vulto arreganhou a boca, exibindo os dentes branquíssimos. Gelei. Seus olhos estavam emparelhados com os meus. Éramos quase da mesma altura. Ele não piscava, muito menos eu. Então, quando pensei ter finalmente atingido o ápice do surpreendente, quando ficou bem claro que nada mais poderia me tirar o fôlego, o vulto começou, devagar, a crescer, chegando a atingir o dobro do tamanho inicial. Quando parou de crescer foi que eu vi que ele, na verdade, tinha era ficado em pé. Devia ter uns três metros de altura. Apoiado apenas nas patas traseiras, estendeu uma das patas dianteiras e me tocou no ombro. Era um toque quente, quase afetuoso. O tipo de toque que só um pai conseguiria proporcionar a um filho. Não esperei pelo momento em que ele abriria a boca e me sussurraria palavras do além. Corri, ah, corri muito, do jeito que só os desesperados e os loucos conseguem correr.

Na rua dos Papagaios, olhei pra trás com o binóculo. Lá estava Vilma, diante de nosso prédio, acenando com um lenço azul. Acenei de volta. − Consegui. Estou aqui, gritei. Mas ela obviamente não me ouviu. Na verdade, devido ao fato de não estarmos conseguindo ouvir um ao outro, seus gestos foram ficando mais nervosos, mais desesperados. Na mão direita, o lenço ondulante, escrevendo no ar uma frase que eu não conseguia entender. Com a mão livre, a esquerda irritada, ela apontava alguma coisa no céu. Alguma coisa que, estando muito longe dela, devia estar próximo de mim. Virei-me, em pânico. − Não pode ser, balbuciei. Um silêncio estranho, amargo, imperava por ali. Voltei o binóculo na direção do fim da rua e nada. A rua estava deserta. Não havia qualquer papagaio em toda a sua extensão. Muito menos o meu papagaio.

Matilde jamais me perdoará por isso, pensei. Conheço seu temperamento, ela é capaz de acalentar uma mágoa por anos a fio, à espera do melhor momento pra se vingar. Entrei em parafuso. Matilde, Matilde. Que decepção! Já era mais de meio-dia. O ônibus da escola estava prestes a chegar em casa e Matilde prestes a entrar correndo na sala, na cozinha, nos quartos, no banheiro, à procura de algo que, diferentemente dos dias anteriores, não estará lá à sua espera.

Nenhum papagaio nas árvores, poucas. Nenhum papagaio nos postes, poucos também. Olhei mais uma vez para o céu. Baixei lentamente o binóculo, confuso. − Não pode ser. Tornei a erguê-lo e a olhar o espaço azul acinzentado acima dos edifícios. Vi, estupefato, centenas de pontinhos escuros sobre a linha do horizonte. − Macacos me mordam, resmunguei igual a um personagem de gibi. Os papagaios estavam todos lá, a dezenas de metros do chão, dirigindo-se para o norte. − Os malditos estão migrando, berrei. No mesmo instante a lembrança do rostinho desconsolado de Matilde me veio à mente. Perdi a cabeça. Comecei a praguejar feito um doidivana dos infernos. Chutei uma lata de lixo, depois outra e mais outra. Chutei, ainda, várias caixas de papelão cheias de jornal velho sujo de graxa. Sim, chutei todas as caixas de papelão cheias de jornal velho sujo de graxa que estavam na calçada, esperando pelo caminhão de lixo. Os jornais espalharam-se pela rua. O lixo, não. Este rolou pra fora das latas, mas, mesmo assim, permaneceu quase no mesmo lugar, embolado, grudado na calçada, cheirando mal. Alguns moradores dos prédios em torno apareceram na janela pra ver que algazarra era essa. Respirei fundo, procurando recobrar o autocontrole. Sentei na sarjeta, sempre com os olhos voltados para o céu, para o bando de papagaios. − Filhos da puta, gritei novamente, pondo pra fora todo o ar azedo dos pulmões.

O vento trouxe de volta algumas folhas de jornal, que imediatamente grudaram em mim, no rosto, nas pernas, talvez pra se vingarem dos pontapés que haviam levado. Estraçalhei-as com raiva. Reduzi-as a pedacinhos, a uma infinidade deles, sempre xingando os papagaios: − Trastes desgraçados, filhos da puta! − Mais gente surgiu nas janelas. Cabeças grisalhas e envelhecidas, pestanas cansadas. Ao vê-las, tive o ímpeto de fazer com as mãos muitos sinais obscenos. Todavia, não fiz. Apenas fiquei ali, sentado, olhando os papagaios, puto da vida. Os papagaios: pontos cada vez menores na linha do horizonte. Enquanto os cornudos sumiam, indiferentes aos meus impropérios, eu fiquei pensando com os meus botões embotados… A velha história… Fiquei pensando se seria de fato verdadeira a história muitas e muitas vezes contada pelos viajantes, das mais diferentes formas. A história de que tanto as ruas de São Paulo quanto as de Bueno Aires fariam parte, todas, da mesma e única e infinita rua. Sendo assim, tudo não passaria de uma extensa linha, margeada, a cada nova região, por cidades diferentes, por culturas diferentes. Uma única e extensa linha, de leste a oeste. Bastaria, se a gente quisesse chegar a Buenos Aires partindo da rua dos Papagaios, seguir sempre em frente, de rua em rua. Se estiverem mesmo certos os viajantes, bastaria, se a gente quisesse ir de Buenos Aires a Nova York, seguir sempre em frente, de rua em rua. De Nova York a Paris? De Paris a Tóquio? Sempre em frente, de rua em rua, pra bem longe de Matilde.

[ Conto publicado no segundo número da revista Teresa, da USP, lançado em 2001 ]

T i p o l o g i a

Interrogação

Que tipo de leitor você quer ser?

Sábio
Tempo é um recurso limitado. O tempo de vida e de leitura de todos os seres humanos é finito. O leitor do tipo sábio é alguém que administra bem esse recurso, não acumulando conhecimento sobre um único gênero literário ou uma única escola literária ou um único autor, mas procurando apreender a essência da arte literária por meio de leituras diversificadas, dos vivos e dos mortos, a fim de se conhecer e conhecer melhor seu momento histórico. Obviamente, sábios são raríssimos.

Erudito
Alguém que se aprofunda e se especializada num único gênero ou numa única escola literária ou num único autor, vivo ou morto, a ponto de conhecer, acumular e comentar longamente os detalhes literários e históricos de seu objeto de estudo. Esse é o perfil majoritário do leitor profissional, do pesquisador acadêmico. Obviamente, eruditos são menos raros que sábios.

Descompromissado
Alguém que lê um pouco de tudo, mais dos vivos que dos mortos, raramente os clássicos, sem a obrigação de um planejamento rigoroso, seguindo as ondulações do gosto geral, do mercado editorial e da vida social literária. Obviamente, descompromissados existem em maior quantidade do que todos os eruditos e sábios reunidos.

+   +   +

Que tipo de escritor você quer ser?

Deus
Alguém que inventou uma nova maneira de se expressar em prosa ou verso, nadando contra a corrente literária hegemônica de seu tempo. Obviamente, deuses são raríssimos. E seu talento original, excetuando-se pouquíssimas exceções, só é reconhecido pelas gerações posteriores.

Semideus
Alguém que aprendeu com um deus e aperfeiçoou sua nova maneira de se expressar em prosa ou verso, e ajudou a difundir esse conhecimento, legitimando-o. Obviamente, semideuses são menos raros que deuses. O talento de boa parte é reconhecido imediatamente. Publicam pelas melhores editoras, ganham prêmios, são traduzidos etc. Apesar de ser menos intensa que a obra de um deus, a obra de um semideus também sobrevive à morte do autor.

Humano
Alguém que realiza com inegável talento o estilo literário prestigiado pela maioria dos formadores de opinião (outros escritores humanos, editores, críticos, professores, divulgadores etc.). Obviamente, humanos existem em maior quantidade do que todos os semideuses e deuses reunidos. O talento dos humanos é festejado imediatamente. Publicam pelas melhores editoras, ganham prêmios, são traduzidos etc. Mas a obra de um humano quase nunca sobrevive à morte do autor.

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[ Não deviam servir vinho a ficcionistas, é um perigo. A hierarquia acima surgiu num almoço de amigos-escritores, em que falamos de mercado editorial, prêmios, críticos e editores, Proust, Joyce e Kafka, debochamos da vaidade da chamada autoficção (quem escreve autoficção precisa compreender que está correndo na mesma pista que Proust, que inventou esse negócio), classificamos Bolaño e Foster Wallace como bons humanos (iguais a muitos outros), reafirmamos que a única saída possível da crise criativa mundial é a ficção científica, única pista de corrida em que não há (ainda) Shakespeares nem Cervantes nem Prousts, Joyces e Kafkas, brindamos e nos divertimos, fizemos novas listas e classificações, sempre abençoados por Ezra Pound, é claro. Como eu disse, não deviam servir vinho a ficcionistas. In vino veritas. ]

AXIS MUNDI: o jogo de forças na lírica portuguesa contemporânea

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Para baixar o livro, clique aqui: axis-mundi-nelson-de-oliveira

Nova edição, revisada e ampliada, do ensaio sobre poesia e sagrado na literatura portuguesa do início do século 21.

Axis mundi: o jogo de forças na lírica portuguesa contemporânea, de Nelson de Oliveira, reflete sobre as epifanias disfóricas de doze poetas-videntes que estrearam no final do século passado e fizeram da alquimia lírica e do cotidiano sacralizado seu centro de equilíbrio literário e existencial.

Sumário

Nota espiralada

Introdução

1. Que é poesia?
Definições provisórias
O triunfo do sagrado

2. Lírica de superfície e lírica subterrânea

3. Formação da lírica portuguesa contemporânea
Lírica e níveis de consciência
A Geração de 70 e a poética realista
O visível e o invisível
Os vencidos da vida
A modernidade começa a acenar
O decadentismo-simbolismo
A ruptura modernista e o triunfo do pensamento irracional
Psicologia e misticismo
A denúncia da alienação
A indústria cultural
A desconstrução da linguagem e do sujeito lírico
A alquimia do verbo
Os desastres da guerra
A investigação formalista
A Revolução de 25 de Abril
Na virada do século
História, histórias

4. Doze poetas da virada do século
Adília Lopes: intertextualidade e ironia-anacronismo
António Pedro Ribeiro, o poeta maldito que vai aos bares vomitar poesia
Gonçalo Tavares e a função poliédrica da inquietação filosófica
Manuel de Freitas e o tópico distópico da revolta-sarcasmo
Daniel Faria e a certeza-de-incertezas da liturgia profana
Ana Marques Gastão e a solidão-vazio pós-apocalíptica
Inês Lourenço e a condição alada do profano
José Miguel Silva: verve e rancor, inocência-que-ataca
Luís Quintais e o encontro-desencontro dos seres
José Luís Peixoto e a tautologia dos céus impossíveis
valter hugo mãe e a perversa-reversa relação entre os sexos
Luís Serguilha e os limites pictóricos da linguagem verbal

5. O sagrado e o profano na lírica portuguesa contemporânea
Nova sacralidade: ironia, revolta, melancolia

Doze, hoje

Bibliografia

Posfácil de Valerio Oliveira

Insônia ou amnésia

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O plano era visitar o Mário de Andrade ou o Murilo Mendes, não me lembro bem qual dos dois, nessa época a poesia já havia arrebatado todos os meus mapas emocionais, então os nomes e os endereços se misturavam naturalmente, sem GPS nem sapatos era fácil se perder na cidade invisível.

Lembro apenas que era uma tarde de 1999, talvez de março, as torres gêmeas ainda estavam de pé em Nova York e o Orkut não passava de um sonho no horizonte das possibilidades, o porteiro do prédio indicou o caminho, entrei e saí do elevador, e fui recebido por uma gentil Ligia que não era a mulher do Mário nem do Murilo, mas do Walter. Foi assim, sem GPS nem sapatos, que conheci pessoalmente Campos de Carvalho, nosso último iconoclasta.

− 1998 − ele disse, indicando uma poltrona na sala banhada pela luz de seis sóis insondáveis. − Você me visitou em noventa e oito, não em noventa e nove. Foi em fevereiro, não em março. Porque eu morri em abril de noventa e oito.

− Tem razão. Falha minha. Posso gravar nossa conversa? Costumo usar o gravador pra evitar os desvios e os saltos no tempo, que sempre me confundem.

Ligia pediu à empregada-sereia que nos servisse café, pão de queijo e bolo de cenoura. Havia qualquer coisa da disciplina onírica de Remedios Varo na organização do Ocidente e da sala cenográfica em que estávamos. Ligia pegou sua bolsa e se despediu, dizendo que precisava sair. A verdade de sua última fala − “fiquem à vontade, meninos” − brilhou tanto no cenário que Walter logo trocou o café ainda não servido por uma dose de uísque.

Mais à vontade, repeti a ele o que havia dito a Ligia, por telefone, quando marcamos essa primeira visita. Expliquei que estava relendo seus livros, com a intenção absurda de escrever uma estúpida dissertação de mestrado.

− Isso foi antes, no passado do pretérito, agora estamos no passado do futuro. Esta conversa já ocorreu. Quando conversamos você não disse “intensão absurda” nem “estúpida dissertação” − ele comentou, descansando na mesinha de andarilho as pernas de centro, ou o contrário. − Mas entendo que você e eu não estamos sozinhos, que o meu eu passado e o seu eu futuro estão interferindo em nosso presente. Observando a partir do futuro, a intensão foi absurda e a dissertação foi estúpida, mas hoje ainda não são.

− Foram. Digo, são. Porque a ideia toda foi um gigantesco contrassenso. Um insulto, senhor, à sua obra incendiária. Fomos neutralizados pela metodologia científica, você, eu, o brilho nos olhos, estes peixes, a lua e a chuva, esta conversa e a própria literatura. Porque a universidade, senhor, é o túmulo da inteligência.

− Mas isso você só descobrirá amanhã.

− Exato.

Ele pegou a garrafa, encheu os copos e brindamos ao futuro do pretérito. Senti que um vínculo forte, de natureza espartana, nos unia. Os peixes aproveitaram o silêncio oceânico e atravessaram a janela. Meu anfitrião lembrou da antiga crença:

− Sempre que um mestrando defende uma dissertação, um escritor morre. Ou uma fada, não sei… Se é um doutorando defendendo uma tese, a desencarnação ocorre em dobro.

− A universidade não se dá bem com as grandes forças da natureza: o entusiasmo, a possessão demoníaca…

− O esquecimento progressivo, que vai projetando fantasmas na tela da realidade.

− Adoro esses fantasmas.

− Depois de certa idade, meu jovem, só existem fantasmas.

Três sóis se punham atrás dos prédios, a tarde ardorosa de Higienópolis em breve deixaria de existir, obediente à lei do menor esforço. Entreguei a Walter meus dois livros de contos e pedi a ele que autografasse meu exemplar da Obra reunida.

− Por que você ficou trinta anos sem escrever? − perguntei, fazendo do lugar-comum um clichê de chiclete.

− Ah, por um motivo terrível. Você.

− Não entendi.

− Você. Gente igual a você.

− Escritores mais jovens?

− Escritores mais jovens, editores mais jovens, jornalistas mais jovens, críticos mais jovens, professores mais jovens, você, gente igual a você, do século vinte e um, gentinha que escreve resenhazinha, dissertaçãozinha, tesezinha, essas merdinhas todas, que desrespeitam a explosão visceral, não honram o impulso criativo, que é sempre um impulso destrutivo.

Sentiram o tremor de terra? A fala de Walter era ritmada, a pausa nas vírgulas durava uma estação inteira, ecoando as ondas da primavera, os tombos do verão, as escaladas do outono e os cristais do inverno.

− Literatura não é assistência social, não é relações públicas, literatura não é propaganda e marketing, você acha que é ruim não ser lido, mas pior ainda é ser lido por patetas bem-intencionados, baba-ovos inocentes, por gente infantilizada que negocia doces e sorvetes com o sistema, que ambiciona condecoraçõezinhas, adulaçõezinhas institucionais, estou falando de você, querido, de você e dessa gentinha que escreve artiguinhos sobre os mísseis radioativos da Clarice, do Murilo, sobre os meus teleguiados anarquistas, essa gentinha amável que multiplica dissertaçõezinhas e tesezinhas sem glúten, que não explodem nem implodem, apenas peidam e arrotam (baixinho, afinal, os bons modos…), você e essas criaturinhas sem ossos não me interessam, por isso fiquei trinta anos sem escrever, e ficaria quarenta, cinquenta − respirou fundo, deu uma boa golada no vácuo alcoólico. Lançou em minha direção o sorriso do gato de Alice. − Sem ofensa.

Não me ofendi. Afinal ele disse tudo isso com a doçura de um sábio chinês que, em vez de rebaixar o interlocutor, eleva-o ao topo do Everest. Os pés afundados na neve, os pulmões inundados de um vapor sideral, foi de lá − do apogeu do mundo − que eu respondi:

− Você é um misantropo incurável.

− Um pronome, um verbo, outro pronome, um substantivo e um adjetivo. Cinco palavras que não significam nada.

− Nossos malditos copos estão vazios.

− Um pronome, um adjetivo, um substantivo, um verbo e outro adjetivo. Cinco palavras que significam tudo.

A empregada-sereia selenita retirou a bandeja de café, intocada, deixando apenas os pães de queijo e o bolo. A respeito dos copos e da garrafa secreta de uísque, suas pupilas comentaram qualquer coisa em búlgaro. Pedi a ela que tirasse uma foto impossível, pois não levei a câmera digital e o celular que eu carregava no bolso de trás da calça ainda não havia sido inventado. Clicou e me mostrou.

− Ficou ótima. Obrigado.

− Za nishto.

Da porta da cozinha a empregada-sereia avisou que já estava indo embora porque dona Ligia já estava chegando, como se tivesse recebido da patroa um recado por telepatia. Partiu. Nosso aquário etílico não possuía mais fêmea alguma. Da rua movimentada vinha uma buzinaria em espiral, eram as máquinas movendo o planeta.

Walter deu a última golada e tratou de esconder os copos e a garrafa numa sombra oblíqua da quarta dimensão. Desliguei e guardei o gravador numa prosaica bolsa de couro tridimensional mesmo.

− Você voltará em duas semanas − ele profetizou. − Será nosso último encontro. Após minha partida definitiva, porém, você virá mais uma vez a este apartamento. Deixarei com minha mulher uns livros potentes: Rimbaud, Breton, Mário, Murilo, Clarice… Serão seus.

Já na porta para outra época, outra cidade, eu comentei:

− A ideia ainda não me ocorreu, mas surgirá em seis ou sete meses. Um livrinho breve, chamado Campos: retratos surrealistas. Uma colagem de textos variados, uns recortados, outros inventados.

− Uma colagem-homenagem?

− Exatamente. Uma colagem-homenagem. Cem exemplares, apenas. Numerados. O primeiro livro de uma coleção que se chamará 100 (Sem) Leitores. Pretensão comercial: zero. O que acha?

− À merda o que eu acho. Vocês, vivos, são tão obcecados por medalhas, prêmios e homenagens… Sofrem de insônia, não descansam nunca. No Hotel Terminus a preocupação é outra, no fim tudo é amnésia. Mas uma amnésia vingativa. Se depender de mim, mesmo morto continuarei dando meu testemunho de morto. Boa noite.

Desci. Ganhei a calçada, ou foi a calçada que herdou mais um descalço. Nessa hora a Albuquerque Lins refletia a luz declinante do último sol. Admirei por uns segundos nossa foto impossível, enquanto subia a rua, sem GPS nem sapatos. Em minha mente alienígena chovia a faiscante chuva imóvel.