R u a s

Teresa

Em São Paulo, logo na entrada da rua dos Cães − uma rua íngreme e muito estreita − há um dobermann descomunal, de olhar feroz e turbulento, sentado sobre as patas traseiras. Onde está o dono de tão irascível criatura? Trancado em casa, é óbvio. Bem como todos os seus vizinhos. Afinal quem se arriscaria a sair à rua em pleno dezembro, no alto verão, com o sol escaldante cozinhando o miolo de seus queridos animaizinhos de estimação? É claro que se houvesse mais árvores nessa rua o problema estaria, se não resolvido, pelo menos atenuado. Todavia, como podem ver, em toda a extensão da rua dos Cães há pouquíssimas árvores. Isso deixa os animais, principalmente os dobermanns, enlouquecidos. Presos a uma realidade que tanto os oprime, eles passam todo o tempo zanzando, indo de uma calçada a outra, de matilha em matilha, misturando-se com os dálmatas, filas, pastores-alemães, buldogues, incontáveis vezes por dia. Línguas de fora, ofegantes, afiadas, enchem-me de pavor. A rua dos Cães é um prolongamento de minha rua, que, por sua vez, é um prolongamento de todas as demais ruas de São Paulo. Dizem − não sei, nunca tive a oportunidade de ver confirmada essa desajeitada afirmação − que em Buenos Aires também é assim. Dizem que lá todas as ruas da cidade, semelhante a uma serpente sinuosa e infinita, fazem parte da mesma e única rua. Pode ser. Contudo, a superioridade dos portenhos − superioridade que muito nos constrange − deve ser reflexo de sua inteligente configuração urbana. Questão de bom senso: não existem cães sem coleira em Buenos Aires, nem ruas tão selvagens quanto as nossas. Isso, pelo menos, é o que dizem os viajantes.

Um verdadeiro milagre. Ao abrir a portinhola da gaiola, meu papagaio saiu de lá de dentro como um raio, atravessou a sala, passou pela janela aberta e ganhou a rua, deixando atrás de si um rastro de ar comprimido. Corri com o binóculo na mão. Fora do apartamento não esperei pelo elevador. Desci as escadas atabalhoadamente, sem respirar. O porteiro abriu o portão e, caramba!, quando apontei as lentes do binóculo para o final da rua, vi que meu papagaio já estava chegando lá, já estava lá, já não estava mais lá, mas muito mais adiante, no começo da rua seguinte. Minha rua emenda com a rua dos Cães, que por sua vez emenda com a rua dos Gatos, que por sua vez emenda com a rua dos Papagaios. Meu papagaio passou da minha rua pra rua dos Papagaios sem o menor problema. Esse, o inconveniente milagre.

Atravessei a rua dos Cães sem olhar para os lados, andei por toda a sua extensão quase sem piscar. Atravessei a maldita rua, a coluna ereta, os músculos rijos, sem pressa, controlando meus movimentos. Qualquer gesto mais afoito e seria o meu fim, disso eu tinha certeza. Enquanto andava ia sentindo nas faces o hálito quente dos cães. Por pouco não desfaleci, não manchei a calçada com meu covarde excremento. Mais do que o bafo, era o rosnar abafado, autocontrolado, cheio de ira e vigor, dos animais, o que mais me intimidava. Silenciosos feito gárgulas, os cães maiores, monstruosos e negros, permaneciam sentados sobre as patas traseiras, como se guardassem as portas do inferno. Esses me aterrorizavam apenas com sua presença pétrea. Eram, contudo, os menores, os malditos poodles, fox-terriers, pinschers − os endemoninhados pinschers de pescoço comprido e orelhas retas −, que me azucrinavam mais. Ah, os menores! Alguns soltos na rua, outros atrás da grade dos portões. Sacudindo os portões, estes. Abocanhando a barra da minha calça, aqueles. Todos latindo sem parar, auauauauauauouououououou!, avançando e recuando.

Uma hora atrás, Vilma, ao me ver na rua, chamara da janela do nosso apartamento: − Consegue ver o Querubim? − Sim. Está na rua dos Papagaios, o desgraçado. − Que merda! Como você pôde ser tão descuidado? Matilde jamais nos perdoará por isso. Emudeci. Matilde, histérica. Só de pensar nessa possibilidade meu corpo estremeceu. Corri para o apartamento, escancarei as portas do guarda-roupa, agarrei o rifle, a capanga de munição e a rede de pegar borboleta. − Sou um homem amaldiçoado se não trouxer o bicho de volta. − Boa sorte. − Espero estar de volta antes que anoiteça. Respirei fundo. No momento em que eu estava saindo Vilma me segurou e, com lábios de mel, me beijou como havia muito não beijava. Não gostei nada disso. Temi por meu destino. Um beijo desses, numa hora dessas, tinha o sabor da morte.

Na rua dos Gatos, estaquei. Peguei o binóculo e olhei o mais longe que pude. Lá estava o desgraçado, dezenas de quarteirões à frente, na rua dos Papagaios. Pensei em desistir. Tive medo. Lembrei de Matilde e tal lembrança deu-me forças pra continuar. A rua dos Gatos era tremendamente mais soturna, mais ensombrecida que a dos Cães. Entrar nela era como entrar numa caverna. Tudo porque, diferente da anterior, possuía essa um grande número de árvores − jabuticabeiras, ciprestes, pinheiros, até mesmo um grande carvalho − cuja sombra caía pesada e impiedosamente sobre prédios e gatos, tornando o sol quase invisível.

Protegidos pela copa das árvores, ai Jesus, sombras, vultos e silhuetas moviam-se silenciosamente, parecendo espectros de uma noite eterna. Possuíam contornos mal definidos, tais espectros. Deslocavam-se, dentro dessa selva insana, semelhantes a entidades imateriais, sem produzir o menor ruído. Prossegui, sempre ereto, sempre firme em meu propósito, fingindo total indiferença, você já entendeu: esnobando os felinos. A cada passo podia sentir o toque de suas patas, o roçar de duas dúzias de caudas em minhas mãos, primeiro, depois em minhas pernas, por baixo da barra da calça. O toque aveludado, acolchoado, sinuoso, da mais desfrutável das fêmeas… De repente um gemido, um salto no escuro e meu reflexo pego de surpresa no branco duns olhos arregalados e aterradores, realmente horripilantes. E então mais outro salto, e mais outro, e outro. Depois, sussurros, como se conspirassem baixinho. E então mais outro salto, e mais outro, e outro. Vi pelos curtos e pelos longos, unhas retráteis e afiadas, caninos agudos e fortes. Siameses, persas, angorás, nos galhos mais baixos de uma figueira. Ao perceberem que eu não pretendia fugir, começaram, os mais audaciosos, a saltar do galho e a me rodear. Havia luz no fim do túnel. De onde me encontrava podia ver sua aura prismática, apesar de muito pequena. Eu estava num túnel? Estava. O fim do túnel era, eu sabia, o início da rua dos Papagaios. As casas e os prédios da rua dos Gatos tinham, todos, extensos jardins cujas plantas, alegres e exuberantes, escorriam pelos muros e pelas grades, e caíam na calçada dificultando e muito a visão. Era planta ornamental por toda a parte. Onde terminava a copa da árvore mais próxima e onde começava o jardim do prédio em frente era algo difícil de dizer. Desviei de uma raiz que já começava a quebrar o concreto em alguns pontos da calçada e topei, assustado, com um vulto tão grande, tão sólido, que, logo concluí, só podia se tratar de um grupo compacto de dez, doze gatos sentados uns sobre os outros. Contudo, logo após o esbarrão dois olhos iluminados grudaram nos meus, feito lanternas. − Putamerda! Nessa hora mudei de ideia. Não, definitivamente não era um grupo de gatos. Recuei num pulo, feito um chimpanzé que tivesse pisado numa cascavel. O vulto arreganhou a boca, exibindo os dentes branquíssimos. Gelei. Seus olhos estavam emparelhados com os meus. Éramos quase da mesma altura. Ele não piscava, muito menos eu. Então, quando pensei ter finalmente atingido o ápice do surpreendente, quando ficou bem claro que nada mais poderia me tirar o fôlego, o vulto começou, devagar, a crescer, chegando a atingir o dobro do tamanho inicial. Quando parou de crescer foi que eu vi que ele, na verdade, tinha era ficado em pé. Devia ter uns três metros de altura. Apoiado apenas nas patas traseiras, estendeu uma das patas dianteiras e me tocou no ombro. Era um toque quente, quase afetuoso. O tipo de toque que só um pai conseguiria proporcionar a um filho. Não esperei pelo momento em que ele abriria a boca e me sussurraria palavras do além. Corri, ah, corri muito, do jeito que só os desesperados e os loucos conseguem correr.

Na rua dos Papagaios, olhei pra trás com o binóculo. Lá estava Vilma, diante de nosso prédio, acenando com um lenço azul. Acenei de volta. − Consegui. Estou aqui, gritei. Mas ela obviamente não me ouviu. Na verdade, devido ao fato de não estarmos conseguindo ouvir um ao outro, seus gestos foram ficando mais nervosos, mais desesperados. Na mão direita, o lenço ondulante, escrevendo no ar uma frase que eu não conseguia entender. Com a mão livre, a esquerda irritada, ela apontava alguma coisa no céu. Alguma coisa que, estando muito longe dela, devia estar próximo de mim. Virei-me, em pânico. − Não pode ser, balbuciei. Um silêncio estranho, amargo, imperava por ali. Voltei o binóculo na direção do fim da rua e nada. A rua estava deserta. Não havia qualquer papagaio em toda a sua extensão. Muito menos o meu papagaio.

Matilde jamais me perdoará por isso, pensei. Conheço seu temperamento, ela é capaz de acalentar uma mágoa por anos a fio, à espera do melhor momento pra se vingar. Entrei em parafuso. Matilde, Matilde. Que decepção! Já era mais de meio-dia. O ônibus da escola estava prestes a chegar em casa e Matilde prestes a entrar correndo na sala, na cozinha, nos quartos, no banheiro, à procura de algo que, diferentemente dos dias anteriores, não estará lá à sua espera.

Nenhum papagaio nas árvores, poucas. Nenhum papagaio nos postes, poucos também. Olhei mais uma vez para o céu. Baixei lentamente o binóculo, confuso. − Não pode ser. Tornei a erguê-lo e a olhar o espaço azul acinzentado acima dos edifícios. Vi, estupefato, centenas de pontinhos escuros sobre a linha do horizonte. − Macacos me mordam, resmunguei igual a um personagem de gibi. Os papagaios estavam todos lá, a dezenas de metros do chão, dirigindo-se para o norte. − Os malditos estão migrando, berrei. No mesmo instante a lembrança do rostinho desconsolado de Matilde me veio à mente. Perdi a cabeça. Comecei a praguejar feito um doidivana dos infernos. Chutei uma lata de lixo, depois outra e mais outra. Chutei, ainda, várias caixas de papelão cheias de jornal velho sujo de graxa. Sim, chutei todas as caixas de papelão cheias de jornal velho sujo de graxa que estavam na calçada, esperando pelo caminhão de lixo. Os jornais espalharam-se pela rua. O lixo, não. Este rolou pra fora das latas, mas, mesmo assim, permaneceu quase no mesmo lugar, embolado, grudado na calçada, cheirando mal. Alguns moradores dos prédios em torno apareceram na janela pra ver que algazarra era essa. Respirei fundo, procurando recobrar o autocontrole. Sentei na sarjeta, sempre com os olhos voltados para o céu, para o bando de papagaios. − Filhos da puta, gritei novamente, pondo pra fora todo o ar azedo dos pulmões.

O vento trouxe de volta algumas folhas de jornal, que imediatamente grudaram em mim, no rosto, nas pernas, talvez pra se vingarem dos pontapés que haviam levado. Estraçalhei-as com raiva. Reduzi-as a pedacinhos, a uma infinidade deles, sempre xingando os papagaios: − Trastes desgraçados, filhos da puta! − Mais gente surgiu nas janelas. Cabeças grisalhas e envelhecidas, pestanas cansadas. Ao vê-las, tive o ímpeto de fazer com as mãos muitos sinais obscenos. Todavia, não fiz. Apenas fiquei ali, sentado, olhando os papagaios, puto da vida. Os papagaios: pontos cada vez menores na linha do horizonte. Enquanto os cornudos sumiam, indiferentes aos meus impropérios, eu fiquei pensando com os meus botões embotados… A velha história… Fiquei pensando se seria de fato verdadeira a história muitas e muitas vezes contada pelos viajantes, das mais diferentes formas. A história de que tanto as ruas de São Paulo quanto as de Bueno Aires fariam parte, todas, da mesma e única e infinita rua. Sendo assim, tudo não passaria de uma extensa linha, margeada, a cada nova região, por cidades diferentes, por culturas diferentes. Uma única e extensa linha, de leste a oeste. Bastaria, se a gente quisesse chegar a Buenos Aires partindo da rua dos Papagaios, seguir sempre em frente, de rua em rua. Se estiverem mesmo certos os viajantes, bastaria, se a gente quisesse ir de Buenos Aires a Nova York, seguir sempre em frente, de rua em rua. De Nova York a Paris? De Paris a Tóquio? Sempre em frente, de rua em rua, pra bem longe de Matilde.

[ Conto publicado no segundo número da revista Teresa, da USP, lançado em 2001 ]

Buscador

Google Futuro

É preciso tomar cuidado. Muito cuidado.

Você levanta da cadeira e vai ao banheiro lavar o rosto pela terceira vez. Olha as pupilas no espelho, massageia as bochechas. Não está delirando, não.

É madrugada, a cidade dorme.

Você volta ao computador, é preciso continuar o trabalho. É preciso continuar o trabalho e tomar muito cuidado.

Faz duas horas que você está enchendo uma planilha com nomes, eventos e datas.

Datas do futuro.

Desde que apareceu essa nova ferramenta na página do Google, você não para de digitar e beber café, beber café e digitar.

Já pesquisou e anotou o resultado das próximas dez mega-senas. Já sabe quem serão os próximos presidentes da república e quando haverá outro golpe. Outro impeachment, outra ditadura militar. Já sabe quem levará os próximos Oscars, as próximas Copas do Mundo. Já sabe quem ganhará bilhões no show business e quem perderá tudo no mercado financeiro. Quem morrerá primeiro na fórmula um.

Mas ainda não sabe o dia da própria morte, não teve coragem de pesquisar.

Desde que apareceu essa nova possibilidade na página do Google − na barra de ferramentas agora é possível definir hora, dia, semana, mês ou ano também no futuro −, você não para de digitar e beber café, beber café e digitar.

No começo você achou que era piada e comentou com a galera, no grupo do whatsapp: “Vocês viram a nova ferramenta do Google?” Os amigos não entenderam a pergunta. Não havia nada de diferente no buscador. Você comentou com o pessoal do escritório, todos responderam do mesmo jeito. Nada de diferente.

Parece que a nova possibilidade só apareceu no teu laptop.

Então é preciso tomar cuidado. Muito cuidado. Ninguém pode saber.

Em dois dias acontecerá o sorteio da próxima mega-sena, você já tem os números, então o jeito é tentar sossegar esse pulso acelerado, respire, rapaz, em dois dias você saberá a verdade.

O prêmio será de duzentos milhões, isso você já sabe. Mas o nome do único ganhador não aparece em lugar algum.

Você prepara mais uma xícara amarga, antecipando o doce gozo dos duzentos milhões, fazendo planos, uma cobertura em Copacabana, um cruzeiro ao redor do mundo…

Isso se você conseguir esperar dois dias.

Mas você não tem coragem de pesquisar.

Se tivesse, saberia que em exatamente cinco horas e trinta e nove minutos, quando a mercearia da frente erguer as portas e o primeiro poodle mijar no portão de sua casa, teu corpo já estará esfriando e enrijecendo.

Ataque cardíaco.

Café demais.

Anacrônicos

Anacrônicos

Nesse conto de ficção científica, o autor mostra o que acontecerá com o mundo quando nossos entes queridos já falecidos começarem a retornar à vida. O eBook está disponível na loja da Amazon e pode ser lido no smartphone, no tablet e no PC.

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Um século depois de Jung, a humanidade se apropriou materialmente do abstrato conceito de inconsciente coletivo e criou a internet, que Luiz Bras chama brainet. Nesse conto fantástico e futurista vivemos a apropriação do reencarnacionismo kardecista, ou do Juízo Final, enfim, uma divagação distópica sobre a infinitude da vida espiritual atrapalhando o futuro da breve existência humana.
[ Manoel Herzog ]

Da confluência espaço-temporal à perspectiva abismal que nos tira o chão (no melhor estilo da ficção científica), eis um emaranhado de corpos, domínio que se desfaz no indiscernível do grotesco. A realidade ampliou-se ou se estreitou? Não, não se trata de literatura: é ceticismo, paradoxo e aporia. Realidade dentro da realidade, mal pude rever-me no emaranhado dessa trama.
[ Marco Aqueiva ]

Estamos fritos: os mortos voltaram. Esse conto asfixiante desorganiza nosso entorno, revira o tempo, sobrepõe horrores, marca nossa cara de hoje com o sol de ontem. Mas nem pensem em fugir. Luiz Bras, cada vez mais brilhante, só nos dá como escapatória a linguagem, e o risinho amarelo do sufoco.
[ Maria José Silveira ]

Luiz Bras é um escritor que apreende e compreende a transformação que a ciência e a tecnologia provocam em nosso modo de pensar e sentir, e essa síntese aparece no conto que a gente não segura em papel, e essa volatilidade do texto, que se difunde em aplicativos, mas gruda na gente, torna a leitura mais interessante.
[ Paula Bajer Fernandes ]

Anacrônicos mostra que, na hora de fazer literatura, importa mais a execução do que ter uma boa ideia. Luiz Bras pega uma premissa batida, já vista em ficções anteriores, filmes e séries de tevê, para criar um conto instigante sobre vida e morte. O texto brinca com certa metalinguagem para tornar a sensação da leitura ainda mais estranha, tirando o leitor da zona de conforto para fazê-lo refletir.
[ Ricardo Santos ]

Com uma narrativa ágil, em segunda pessoa, colocando o leitor na posição da protagonista − que se depara com a mãe morta, cotidianamente preparando o mesmo bolo na cozinha de casa − Luiz Bras realiza uma obra que, mais uma vez, funciona como provocação, uma novela curta que se lê com gosto mas também com preocupação.
[ Wilson Alves-Bezerra ]

Uma narrativa tão genial quanto angustiante, capaz de nos fazer reconsiderar a saudade. Dava um romance, mas ficou elegante e completo como conto. Proteja suas unhas, o livro é tenso! Depois de ler Anacrônicos você vai pensar bem antes de desejar o impossível.
[ Belise Mofeoli ]

Anacrônicos é potente, devastador e mordaz. É impossível não se deixar levar pelo feroz imaginário de Luiz Bras e, quase sem perceber, esbarrar em nossos desejos e medos mais profundos. Belo e terrível ensaio sobre a natureza da existência e da interdependência entre os seres. Aos que ainda não leram, só posso dizer: não há tempo a perder.
[ Marcelo Maluf ]

Anacrônicos atinge com um golpe no rosto, ponto positivo para um conto moderno. Em seguida, obriga o leitor a vadiar e a se perder em desconfortáveis planos oblíquos de tempo e espaço, para, finalmente, trazê-lo de volta ao ponto de partida, com um sorriso maroto de quem superou o desafio. Literatura bruta, embora negada.
[ Ricardo Lahud ]

Para além dos elementos borgianos, o conto me remeteu mesmo foi às esculturas da australiana Patricia Pichinini. São figuras super-realistas, hiper-convincentes, de seres quase humanos, mas deformados, ou reformados, pela ciência. Então o espanto do surreal supera o encanto do real. Como os vivos-mortos desse conto, que causam comoção, em seguida estranhamento e enfim repulsa.
[ Leo Cunha ]

Herdeiro legítimo de André Carneiro, Luiz Bras é, no campo da ficção científica no Brasil, o escritor que mais confronta o leitor com o estranho e o inquietante. Em Anacrônicos, não é preciso ter visto a série de tevê Les revenants para apreciar esta exploração desconcertante do tema do redivivo, na intersecção entre a FC e o realismo mágico.
[ Roberto de Sousa Causo ]

O estado da arte na literatura: logo nas primeiras linhas a gente sente a força da escrita de Luiz Bras. Dono de uma linguagem enxuta, elegante e poderosa, o narrador nos conduz para um mundo onde desejaríamos estar. Afinal, quem não gostaria de rever aquele ente querido que partiu? Mas até mesmo no universo de Anacrônicos não existe almoço grátis.
[ Gláuber Soares ]

Uma apavorante narrativa, em que tempo e espaço se desorganizam. Viaje por essa terrível teia de aranha, na qual você se verá enredado a partir da primeira frase. Cuidado. É um caminho sem volta, mas vale a pena arriscar. Mesmo porque você não terá forças nem vontade de largar o conto antes de chegar ao seu espantoso final. É o que acontece quando escolhemos para ler um autor do calibre de Luiz Bras.
[ Jeanette Rozsas ]

T i p o l o g i a

Interrogação

Que tipo de leitor você quer ser?

Sábio
Tempo é um recurso limitado. O tempo de vida e de leitura de todos os seres humanos é finito. O leitor do tipo sábio é alguém que administra bem esse recurso, não acumulando conhecimento sobre um único gênero literário ou uma única escola literária ou um único autor, mas procurando apreender a essência da arte literária por meio de leituras diversificadas, dos vivos e dos mortos, a fim de se conhecer e conhecer melhor seu momento histórico. Obviamente, sábios são raríssimos.

Erudito
Alguém que se aprofunda e se especializada num único gênero ou numa única escola literária ou num único autor, vivo ou morto, a ponto de conhecer, acumular e comentar longamente os detalhes literários e históricos de seu objeto de estudo. Esse é o perfil majoritário do leitor profissional, do pesquisador acadêmico. Obviamente, eruditos são menos raros que sábios.

Descompromissado
Alguém que lê um pouco de tudo, mais dos vivos que dos mortos, raramente os clássicos, sem a obrigação de um planejamento rigoroso, seguindo as ondulações do gosto geral, do mercado editorial e da vida social literária. Obviamente, descompromissados existem em maior quantidade do que todos os eruditos e sábios reunidos.

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Que tipo de escritor você quer ser?

Deus
Alguém que inventou uma nova maneira de se expressar em prosa ou verso, nadando contra a corrente literária hegemônica de seu tempo. Obviamente, deuses são raríssimos. E seu talento original, excetuando-se pouquíssimas exceções, só é reconhecido pelas gerações posteriores.

Semideus
Alguém que aprendeu com um deus e aperfeiçoou sua nova maneira de se expressar em prosa ou verso, e ajudou a difundir esse conhecimento, legitimando-o. Obviamente, semideuses são menos raros que deuses. O talento de boa parte é reconhecido imediatamente. Publicam pelas melhores editoras, ganham prêmios, são traduzidos etc. Apesar de ser menos intensa que a obra de um deus, a obra de um semideus também sobrevive à morte do autor.

Humano
Alguém que realiza com inegável talento o estilo literário prestigiado pela maioria dos formadores de opinião (outros escritores humanos, editores, críticos, professores, divulgadores etc.). Obviamente, humanos existem em maior quantidade do que todos os semideuses e deuses reunidos. O talento dos humanos é festejado imediatamente. Publicam pelas melhores editoras, ganham prêmios, são traduzidos etc. Mas a obra de um humano quase nunca sobrevive à morte do autor.

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[ Não deviam servir vinho a ficcionistas, é um perigo. A hierarquia acima surgiu num almoço de amigos-escritores, em que falamos de mercado editorial, prêmios, críticos e editores, Proust, Joyce e Kafka, debochamos da vaidade da chamada autoficção (quem escreve autoficção precisa compreender que está correndo na mesma pista que Proust, que inventou esse negócio), classificamos Bolaño e Foster Wallace como bons humanos (iguais a muitos outros), reafirmamos que a única saída possível da crise criativa mundial é a ficção científica, única pista de corrida em que não há (ainda) Shakespeares nem Cervantes nem Prousts, Joyces e Kafkas, brindamos e nos divertimos, fizemos novas listas e classificações, sempre abençoados por Ezra Pound, é claro. Como eu disse, não deviam servir vinho a ficcionistas. In vino veritas. ]

AXIS MUNDI: o jogo de forças na lírica portuguesa contemporânea

axis-mundi

Para baixar o livro, clique aqui: axis-mundi-nelson-de-oliveira

Nova edição, revisada e ampliada, do ensaio sobre poesia e sagrado na literatura portuguesa do início do século 21.

Axis mundi: o jogo de forças na lírica portuguesa contemporânea, de Nelson de Oliveira, reflete sobre as epifanias disfóricas de doze poetas-videntes que estrearam no final do século passado e fizeram da alquimia lírica e do cotidiano sacralizado seu centro de equilíbrio literário e existencial.

Sumário

Nota espiralada

Introdução

1. Que é poesia?
Definições provisórias
O triunfo do sagrado

2. Lírica de superfície e lírica subterrânea

3. Formação da lírica portuguesa contemporânea
Lírica e níveis de consciência
A Geração de 70 e a poética realista
O visível e o invisível
Os vencidos da vida
A modernidade começa a acenar
O decadentismo-simbolismo
A ruptura modernista e o triunfo do pensamento irracional
Psicologia e misticismo
A denúncia da alienação
A indústria cultural
A desconstrução da linguagem e do sujeito lírico
A alquimia do verbo
Os desastres da guerra
A investigação formalista
A Revolução de 25 de Abril
Na virada do século
História, histórias

4. Doze poetas da virada do século
Adília Lopes: intertextualidade e ironia-anacronismo
António Pedro Ribeiro, o poeta maldito que vai aos bares vomitar poesia
Gonçalo Tavares e a função poliédrica da inquietação filosófica
Manuel de Freitas e o tópico distópico da revolta-sarcasmo
Daniel Faria e a certeza-de-incertezas da liturgia profana
Ana Marques Gastão e a solidão-vazio pós-apocalíptica
Inês Lourenço e a condição alada do profano
José Miguel Silva: verve e rancor, inocência-que-ataca
Luís Quintais e o encontro-desencontro dos seres
José Luís Peixoto e a tautologia dos céus impossíveis
valter hugo mãe e a perversa-reversa relação entre os sexos
Luís Serguilha e os limites pictóricos da linguagem verbal

5. O sagrado e o profano na lírica portuguesa contemporânea
Nova sacralidade: ironia, revolta, melancolia

Doze, hoje

Bibliografia

Posfácil de Valerio Oliveira

Insônia ou amnésia

capa-campos

O plano era visitar o Mário de Andrade ou o Murilo Mendes, não me lembro bem qual dos dois, nessa época a poesia já havia arrebatado todos os meus mapas emocionais, então os nomes e os endereços se misturavam naturalmente, sem GPS nem sapatos era fácil se perder na cidade invisível.

Lembro apenas que era uma tarde de 1999, talvez de março, as torres gêmeas ainda estavam de pé em Nova York e o Orkut não passava de um sonho no horizonte das possibilidades, o porteiro do prédio indicou o caminho, entrei e saí do elevador, e fui recebido por uma gentil Ligia que não era a mulher do Mário nem do Murilo, mas do Walter. Foi assim, sem GPS nem sapatos, que conheci pessoalmente Campos de Carvalho, nosso último iconoclasta.

− 1998 − ele disse, indicando uma poltrona na sala banhada pela luz de seis sóis insondáveis. − Você me visitou em noventa e oito, não em noventa e nove. Foi em fevereiro, não em março. Porque eu morri em abril de noventa e oito.

− Tem razão. Falha minha. Posso gravar nossa conversa? Costumo usar o gravador pra evitar os desvios e os saltos no tempo, que sempre me confundem.

Ligia pediu à empregada-sereia que nos servisse café, pão de queijo e bolo de cenoura. Havia qualquer coisa da disciplina onírica de Remedios Varo na organização do Ocidente e da sala cenográfica em que estávamos. Ligia pegou sua bolsa e se despediu, dizendo que precisava sair. A verdade de sua última fala − “fiquem à vontade, meninos” − brilhou tanto no cenário que Walter logo trocou o café ainda não servido por uma dose de uísque.

Mais à vontade, repeti a ele o que havia dito a Ligia, por telefone, quando marcamos essa primeira visita. Expliquei que estava relendo seus livros, com a intenção absurda de escrever uma estúpida dissertação de mestrado.

− Isso foi antes, no passado do pretérito, agora estamos no passado do futuro. Esta conversa já ocorreu. Quando conversamos você não disse “intensão absurda” nem “estúpida dissertação” − ele comentou, descansando na mesinha de andarilho as pernas de centro, ou o contrário. − Mas entendo que você e eu não estamos sozinhos, que o meu eu passado e o seu eu futuro estão interferindo em nosso presente. Observando a partir do futuro, a intensão foi absurda e a dissertação foi estúpida, mas hoje ainda não são.

− Foram. Digo, são. Porque a ideia toda foi um gigantesco contrassenso. Um insulto, senhor, à sua obra incendiária. Fomos neutralizados pela metodologia científica, você, eu, o brilho nos olhos, estes peixes, a lua e a chuva, esta conversa e a própria literatura. Porque a universidade, senhor, é o túmulo da inteligência.

− Mas isso você só descobrirá amanhã.

− Exato.

Ele pegou a garrafa, encheu os copos e brindamos ao futuro do pretérito. Senti que um vínculo forte, de natureza espartana, nos unia. Os peixes aproveitaram o silêncio oceânico e atravessaram a janela. Meu anfitrião lembrou da antiga crença:

− Sempre que um mestrando defende uma dissertação, um escritor morre. Ou uma fada, não sei… Se é um doutorando defendendo uma tese, a desencarnação ocorre em dobro.

− A universidade não se dá bem com as grandes forças da natureza: o entusiasmo, a possessão demoníaca…

− O esquecimento progressivo, que vai projetando fantasmas na tela da realidade.

− Adoro esses fantasmas.

− Depois de certa idade, meu jovem, só existem fantasmas.

Três sóis se punham atrás dos prédios, a tarde ardorosa de Higienópolis em breve deixaria de existir, obediente à lei do menor esforço. Entreguei a Walter meus dois livros de contos e pedi a ele que autografasse meu exemplar da Obra reunida.

− Por que você ficou trinta anos sem escrever? − perguntei, fazendo do lugar-comum um clichê de chiclete.

− Ah, por um motivo terrível. Você.

− Não entendi.

− Você. Gente igual a você.

− Escritores mais jovens?

− Escritores mais jovens, editores mais jovens, jornalistas mais jovens, críticos mais jovens, professores mais jovens, você, gente igual a você, do século vinte e um, gentinha que escreve resenhazinha, dissertaçãozinha, tesezinha, essas merdinhas todas, que desrespeitam a explosão visceral, não honram o impulso criativo, que é sempre um impulso destrutivo.

Sentiram o tremor de terra? A fala de Walter era ritmada, a pausa nas vírgulas durava uma estação inteira, ecoando as ondas da primavera, os tombos do verão, as escaladas do outono e os cristais do inverno.

− Literatura não é assistência social, não é relações públicas, literatura não é propaganda e marketing, você acha que é ruim não ser lido, mas pior ainda é ser lido por patetas bem-intencionados, baba-ovos inocentes, por gente infantilizada que negocia doces e sorvetes com o sistema, que ambiciona condecoraçõezinhas, adulaçõezinhas institucionais, estou falando de você, querido, de você e dessa gentinha que escreve artiguinhos sobre os mísseis radioativos da Clarice, do Murilo, sobre os meus teleguiados anarquistas, essa gentinha amável que multiplica dissertaçõezinhas e tesezinhas sem glúten, que não explodem nem implodem, apenas peidam e arrotam (baixinho, afinal, os bons modos…), você e essas criaturinhas sem ossos não me interessam, por isso fiquei trinta anos sem escrever, e ficaria quarenta, cinquenta − respirou fundo, deu uma boa golada no vácuo alcoólico. Lançou em minha direção o sorriso do gato de Alice. − Sem ofensa.

Não me ofendi. Afinal ele disse tudo isso com a doçura de um sábio chinês que, em vez de rebaixar o interlocutor, eleva-o ao topo do Everest. Os pés afundados na neve, os pulmões inundados de um vapor sideral, foi de lá − do apogeu do mundo − que eu respondi:

− Você é um misantropo incurável.

− Um pronome, um verbo, outro pronome, um substantivo e um adjetivo. Cinco palavras que não significam nada.

− Nossos malditos copos estão vazios.

− Um pronome, um adjetivo, um substantivo, um verbo e outro adjetivo. Cinco palavras que significam tudo.

A empregada-sereia selenita retirou a bandeja de café, intocada, deixando apenas os pães de queijo e o bolo. A respeito dos copos e da garrafa secreta de uísque, suas pupilas comentaram qualquer coisa em búlgaro. Pedi a ela que tirasse uma foto impossível, pois não levei a câmera digital e o celular que eu carregava no bolso de trás da calça ainda não havia sido inventado. Clicou e me mostrou.

− Ficou ótima. Obrigado.

− Za nishto.

Da porta da cozinha a empregada-sereia avisou que já estava indo embora porque dona Ligia já estava chegando, como se tivesse recebido da patroa um recado por telepatia. Partiu. Nosso aquário etílico não possuía mais fêmea alguma. Da rua movimentada vinha uma buzinaria em espiral, eram as máquinas movendo o planeta.

Walter deu a última golada e tratou de esconder os copos e a garrafa numa sombra oblíqua da quarta dimensão. Desliguei e guardei o gravador numa prosaica bolsa de couro tridimensional mesmo.

− Você voltará em duas semanas − ele profetizou. − Será nosso último encontro. Após minha partida definitiva, porém, você virá mais uma vez a este apartamento. Deixarei com minha mulher uns livros potentes: Rimbaud, Breton, Mário, Murilo, Clarice… Serão seus.

Já na porta para outra época, outra cidade, eu comentei:

− A ideia ainda não me ocorreu, mas surgirá em seis ou sete meses. Um livrinho breve, chamado Campos: retratos surrealistas. Uma colagem de textos variados, uns recortados, outros inventados.

− Uma colagem-homenagem?

− Exatamente. Uma colagem-homenagem. Cem exemplares, apenas. Numerados. O primeiro livro de uma coleção que se chamará 100 (Sem) Leitores. Pretensão comercial: zero. O que acha?

− À merda o que eu acho. Vocês, vivos, são tão obcecados por medalhas, prêmios e homenagens… Sofrem de insônia, não descansam nunca. No Hotel Terminus a preocupação é outra, no fim tudo é amnésia. Mas uma amnésia vingativa. Se depender de mim, mesmo morto continuarei dando meu testemunho de morto. Boa noite.

Desci. Ganhei a calçada, ou foi a calçada que herdou mais um descalço. Nessa hora a Albuquerque Lins refletia a luz declinante do último sol. Admirei por uns segundos nossa foto impossível, enquanto subia a rua, sem GPS nem sapatos. Em minha mente alienígena chovia a faiscante chuva imóvel.