Paradigma 18

Nove

[ 1 }
O realismo literário deve ser banido, o princípio da mimese aristotélica precisa ser expulso, a representação da chamada vida real não interessa, a força hegemônica da narrativa não deve ser a realidade empírica, seja ela psicológica ou sociopolítica.

[ 2 }
O enredo deve ser mirabolante, a causalidade do mundo cartesiano precisa ser abolida a favor da causalidade insólita, por vezes delirante, do mundo dos mitos e dos sonhos.

[ 3 }
Tempo e espaço devem ser realidades mágicas, fantásticas, que desrespeitem as leis da física newtoniana.

[ 4 }
Protagonistas homens-brancos-heteros estão terminantemente proibidos. O protagonista deve ser alguém raramente escalado, na ficção brasileira, para o papel principal. Alguém ou alguma coisa. Personagens bizarros do folclore brasileiro também merecem protagonizar a narrativa, ou receber muito destaque na trama.

[ 5 }
Substantivos abstratos e ideias conceituais devem ganhar o mesmo estatuto de personagens conscientes, tendo obrigatoriamente uma presença física − um corpo mineral, vegetal, animal ou mitológico − e uma participação efetiva na trama.

[ 6 }
Os personagens devem saber que estão num texto, e sabendo que seu mundo é puramente ficcional esses personagens devem comentar, satirizar, questionar, criticar essa condição e as escolhas do escritor empírico.

[ 7 }
Também precisam comentar, satirizar, questionar, criticar a confortável posição do leitor empírico.

[ 8 }
Edições distintas da narrativa devem apresentar versões distintas do texto, de maneira que jamais haja duas edições idênticas.

[ 9 }
A rapsódia Macunaíma, de Mário de Andrade, publicada em 1928, é a primeira grande referência a inspirar esta cartilha Paradigma 18.

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