[ Invisibilidade progressiva ]

Vamos desaparecer devagar, feito o homem invisível.

Primeiro sumirá nossa pele, deixando aparentes os órgãos internos. Depois sumirão os órgãos internos, deixando aparente o esqueleto. Por fim sumirá o esqueleto: invisibilidade total.

De nós restará apenas o toque e o movimento.

Apenas?!

Toque e movimento não são a presença mais potente de uma pessoa?!

Vamos desaparecer devagar, essa invisibilidade progressiva será uma forma de protesto. Uns fazem greve de fome, outros fazem greve de sexo. Nós desaparecemos.

Primeiro sumiu nosso autógrafo.

Recentemente, durante as viagens que fizemos, presenteamos vários amigos com nossos livros. Todos notaram que o exemplar recebido não estava autografado.

Metade nos agradeceu pelo presente e não comentou esse detalhe. Metade nos agradeceu e pediu o autógrafo.

Então explicamos: não autografamos mais nossos livros. Não enquanto a ficção fantástica e a ficção futurista brasileiras continuarem na invisibilidade.

Não enquanto as instâncias legitimadoras, realistas-naturalistas, continuarem invisibilizando a ficção fantástica e a ficção futurista brasileiras.

Uns fazem greve de fome, outros fazem greve de sexo. Cada um protesta como pode.

Primeiro sumiu nosso autógrafo (pele simbólica).

Se em cinco anos nada mudar, então sumirá nosso rosto: não nos deixaremos mais fotografar ou filmar (órgãos simbólicos).

Se em mais cinco anos nada mudar, então sumirá nossa fala: não daremos mais entrevistas, nem participaremos de lançamentos ou mesas-redondas (esqueleto simbólico).

De nós restará apenas nossa literatura.

Apenas?!

Poemas, contos, romances e ensaios não são a presença mais potente de um escritor?!

Cada um protesta como pode. Contra a invisibilidade institucional imposta de fora pra dentro, respondemos com a invisibilidade pessoal lançada de dentro pra fora.

[ Nelson de Oliveira + Luiz Bras + Valerio Oliveira + Teo Adorno + Sofia Soft ]

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