Manifesto : Convergência

Por uma nova ilusão utópica

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Um acerto e um erro. No final do século 20 foi decretado o fim das velhas utopias, pois ficou provado que uma utopia é uma ilusão conceitual, uma fantasia da infância. Esse foi o acerto. O carrasco das velhas utopias argumenta que precisamos abandonar urgentemente nossas ilusões se quisermos amadurecer. Esse está sendo o erro. Acertamos ao decretar o fim das velhas utopias, mas erramos ao impedir que uma nova utopia ocupe o lugar vazio em nosso psiquismo coletivo, que está doente. Uma utopia é sempre uma ilusão, mas uma ilusão verdadeira e saudável, necessária para nossa sobrevivência. A ilusão utópica facilita o fluxo social, impedindo a expansão e a permanência de ideias e regimes totalitários. A ilusão utópica é uma necessidade humana, uma poderosa ferramenta evolutiva.

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Um planeta sem muros é uma impossibilidade prática e teórica. Muros são necessários: muros protegem, muros preservam. Nossa sociedade é dividida por centenas de muros simbólicos, por poderosos muros políticos, étnicos, sexuais, religiosos, financeiros, culturais, evolutivos. Lutar por um planeta sem muros é uma estupidez romântica. Mais inteligente seria lutar por um tipo mais maleável de muro, feito de outro material simbólico, feito principalmente de aproximações pacíficas. Uma utopia necessária: muros que protejam e preservem, mas não separem as pessoas.

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A utopia necessária não difundirá a antiquada divergência desarmônica − guerreira −, mas uma transformação muito mais sutil: a convergência sintônica. Não está na hora de artistas e escritores começarem a modelar o novo projeto de futuro?

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Utopia (matriz política) e mito (matriz poética) são abstrações concretas que apresentam a mesma expressão genética. Numa sociedade dividida por muros sintônicos − anteparos que protegem e preservam, mas não separam as pessoas −, estejam certos de que uma nova utopia fecundará e gestará um novo mito, e vice-versa.

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A convergência sintônica precisará de um novo mito que seja completo, cuja poderosa substância simbólica entrelace, muito bem entrelaçados, ingredientes das quatro formas básicas de conhecimento do mundo: arte, religião, ciência e política. Precisará de uma nova narrativa inaugural que articule as oposições − vida e morte, masculino e feminino, matéria e espírito, civilização e natureza, razão e intuição, misticismo e tecnologia, tradição e ruptura, erudito e popular − sem domesticar seu impulso original, sem simplificar os traços de complexidade nem dissolver um dos extremos no outro, evitando assim qualquer síntese artificial.

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Uma nova utopia e um novo mito exigirão uma nova fraternidade, formada por artistas, escritores e pensadores dispostos a cultivar a convergência e a elaborar coletivamente os fundamentos do novo movimento. O carrasco das velhas utopias disseminou a crença no individualismo, na força do sujeito sozinho, indiferente a qualquer tradição e antipático a qualquer confluência teórica e criativa. Outro erro estúpido. Uma multidão de sujeitos sozinhos jamais conseguirá habitar todas as áreas vazias de nosso psiquismo coletivo. Repito: não haverá uma nova utopia nem um novo mito se não houver uma nova fraternidade.

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No campo da arte e da literatura, fraternidade é sinônimo de escola. O fim das velhas utopias artísticas e literárias também foi o fim das escolas-fraternidades que as cultivavam: romantismo, naturalismo, simbolismo, impressionismo, cubismo, suprematismo, dadaísmo, surrealismo, por art, concretismo etc. Os artistas e os escritores contemporâneos evitam formar fraternidades, com medo de perder a liberdade criativa ao aderir a qualquer programa coletivo. Quer reconheçam explicitamente quer não, para esses artistas e escritores o conceito romântico de originalidade continua bastante ativo. Cada um se julga autor de uma obra única e singular, e o carrasco das velhas utopias reforça diariamente essa ilusão individualista. Contrário a essa visão superficial, o filósofo Luigi Pareyson, em Os problemas da estética, argumenta que fraternidade e originalidade genuína não são noções excludentes. Quando alinhadas, são noções que se alimentam reciprocamente, fortalecendo-se. A singularidade verdadeiramente original não rejeita a comunidade e a comunidade não enfraquece a singularidade verdadeiramente original.

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Suspeito que uma nova utopia e um novo mito, para realmente merecerem o atributo de novo, precisarão enfrentar a crença mais nefasta do nosso tempo: o antropocentrismo. Não se trata de extirpar essa crença tão antiga quanto o próprio sapiens, isso seria ridículo, seria como tentar extirpar para sempre a sombra das pessoas. Trata-se de enfraquecer essa noção chauvinista, que justifica, por exemplo, a devastação ambiental. Todas as formas de vida, da mais simples à mais complexa, são intrinsecamente narcisistas, e o antropocentrismo é a forma coletiva do narcisismo humano. Hoje sabemos que o sapiens não ocupa a posição central no universo. Mas no dia a dia nosso narcisismo antropocêntrico apaga essa verdade tão inconveniente, espalhando doenças intelectuais e emocionais. Há bilhões de anos o universo teve um centro, mas durou muito pouco, e garanto que esse centro fugaz não se parecia em nada comigo ou com vocês. Uma nova fraternidade, formada por artistas, escritores e pensadores dispostos a cultivar a convergência, precisará manter visível na teoria e na prática a certeza de que a suprema beleza estética e existencial está inteira em nossa descentralização evolutiva, política e cosmológica.

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O narcisismo surdo a críticas, o ego cego aos valores mais valiosos da vida, apaixonado apenas pelo brilho trivial das medalhas e dos falsos sorrisos… A nova fraternidade precisará enfrentar − sem jamais pretender vencer, pois ela é invencível − a força centrípeta da vaidade artística e literária. Força que sempre arrasta e esfacela o talento mal orientado, antes que o infeliz tenha tempo de se fortalecer. Muito cuidado: “Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceitou umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sentiu no sangue o doce veneno da vaidade e começou a creditar que, se conseguir que ninguém descubra sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe garantir um teto, um prato quente no fim do dia e o que mais deseja: seu nome impresso num miserável pedaço de papel que seguramente viverá mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque nessa altura ele já está perdido e sua alma já tem um preço.” [ Carlos Ruiz Zafón ]

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Outra doença contemporânea que uma nova utopia e um novo mito precisarão enfrentar será a infantilização cultural, promovida pela indústria do entretenimento. Uma distorção severa em nossa percepção crítica está aumentando exponencialmente uma estranha confusão valorativa: obras de menor valor artístico ou literário têm sido confundidas com verdadeiras obras-primas. Artistas e escritores medianos, quando não medíocres, têm sido confundidos com verdadeiros mestres. A indústria do entretenimento alimenta a infantilização cultural, confundindo produtores, instâncias legitimadoras e consumidores. As obras e os profissionais do entretenimento, menos sofisticados, desempenham uma função social importante, mas não devem ser promovidos artificialmente a grande arte e a grandes artistas. Essa confusão valorativa favorece apenas o caixa da indústria. Essa confusão valorativa não faz bem à arte e ao artista, muito menos às obras de entretenimento de qualidade e aos profissionais talentosos que as produzem. O popular e o erudito são categorias distintas, que podem até dialogar, beneficiando-se mutuamente, mas cada qual tem seus critérios e sua escala de valor, que estruturam sua identidade indissolúvel.

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A infantilização cultural vaza cotidianamente, preenchendo outros compartimentos da vida social e enfraquecendo debates e reflexões. No plano da administração pública, políticos despreparados são confundidos com verdadeiros estadistas, enquanto partidos inconsistentes, sem raiz ou substância, chegam ao poder de maneira atrapalhada e realizam perigosos projetos de governo. No plano da pesquisa acadêmica, dissertações repetitivas e teses anódinas são confundidas com investigações científicas sólidas e originais, apenas porque os pesquisadores souberam usar apropriadamente o discurso impessoal e o manual de normas técnicas da ABNT.

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O novo mito pode muito bem começar expressando a tão desejada comunicação total entre todas as pessoas do planeta, ou seja, a transmissão-recepção completa de mensagens verbais, visuais, sonoras, táteis, olfativas, gustativas e afetivas. A história da comunicação humana começa com mímicas e grunhidos. Até que surgem a dança, a música, o desenho, a pintura, a escultura e a palavra falada e cantada. Mais tarde surge a palavra escrita. Pouco tempo atrás surgiram a fotografia, o cinema, a tevê e os meios eletrônicos. Por mais sofisticadas que sejam essas formas de comunicação, elas são usadas por pessoas literalmente fechadas em si mesmas. Cada ser humano é uma caixa-preta separada de todas as outras caixas-pretas, um primata que precisa usar a voz, a escrita, o desenho e qualquer outro recurso externo para se comunicar, porque ninguém consegue transmitir-receber pensamentos puros. Agora pensem numa sociedade interconectada mentalmente. Imaginem os membros dessa sociedade trocando pensamentos refinados e experiências emocionais profundas. O novo mito pode muito bem começar expressando as sutilezas da futura telepatia cibernética. “Para mim não é nada surreal imaginar que futuras proles humanas poderão adquirir habilidade, tecnologia e sabedoria ética necessárias para estabelecer um meio através do qual bilhões de seres humanos consensualmente estabelecerão contatos temporários com outros membros da espécie, unicamente através do pensamento. Como será participar desse colosso de consciência coletiva, ou o que ele será capaz de realizar e sentir, ninguém em nosso tempo presente pode conceber ou descrever.” [ Miguel Nicolelis imaginando a brain-net ]

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Exercício de subversão da noção capitalista-fetichista de propriedade autoritária: escreva e publique um poema com sua assinatura, permitindo que outros reescrevam e publiquem livremente o mesmo poema, porém alterando a autoria: substituindo sua assinatura e jamais mencionando a autoria original. O mesmo poema, é verdade, logo deixará de ser o mesmo poema. Então, aprecie a beleza exotérica da experiência, a força convergente da livre apropriação criativa, a riqueza das variações sintáticas e semânticas dos versos em mutação. Também é verdade que a autoria original jamais será perdida, afinal seu registro no banco de dados do sistema literário permanecerá até o fim do antropoceno, no mínimo. Apesar disso, as muitas apropriações autorizadas sempre reforçarão um fato novo: a reavaliação crítica da noção capitalista-fetichista de propriedade autoritária.

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No princípio rogávamos ao Divino que satisfizesse nossos desejos, agora rogamos ao Humano. No princípio era o teocentrismo, agora é o antropocentrismo. Saltamos de um extremo ao outro, mas não abandonamos o maior inimigo da convergência: o egocentrismo.

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A natureza nos evoluiu assim: autocentrados. O indivíduo passa sua breve existência submetido a si mesmo, vivendo e revivendo suas vitórias e derrotas, suas alegrias e aflições. Nos livros ruins e nos filmes ruins, a infantilização cultural reforça docemente: “Você, indivíduo, consumidor, protagonista, você é maior que o universo”. A infantilização cultural alimenta o instinto de autopreservação, e o instinto de autopreservação, agradecido, alimenta a infantilização cultural. Um modo de aquietar por um momento as fomes do ego e desacelerar o egocentrismo inato é contemplar a inquietante noção de infinito.

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A noção de infinito é uma das mais assustadoras que nossa espécie já formulou. O espaço é infinito? O tempo é infinito? Se o universo for realmente infinito, e se existirem infinitos universos compondo um multiverso, continuar atento apenas à restrita dimensão humana é um hábito muito empobrecedor. O novo mito pode muito bem expandir nossos limitados limites de tempo e espaço, conduzindo nossa imaginação um bilhão de anos no futuro ou no passado, um bilhão de anos-luz à esquerda ou à direita. Nessa escala sobre-humana, de que tamanho ficaria nosso egocentrismo cotidiano? Maravilhosamente pequeno. E nem sequer começamos a vislumbrar a camada mais externa da ideia geral de infinito. Uma vida de cem anos ou de um bilhão de anos chegam tão perto do infinito quanto uma vida de um segundo, uma viagem de cem quilômetros ou de um bilhão de anos-luz chegam tão perto do infinito quanto uma viagem de um milímetro. Quantas realidades alternativas e quantos universos paralelos cabem na noção sem fim de infinito? Não há antropocentrismo que não fraqueje diante da beleza poética e matemática desse devaneio.

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O cidadão precisa desligar o piloto automático do próprio cidadão. A sociedade precisa desligar o piloto automático da própria sociedade.

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A dupla natureza do pensamento − ele é partícula e onda ao mesmo tempo − ainda hoje confunde os monoteístas da mente. O pacifismo e a violência, por exemplo, não existem separados, são expressões da dupla natureza do pensamento.

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Os paladinos das velhas utopias defendiam a agressão, a explosão. Suas propostas estavam enraizadas na divergência. Os velhos manifestos pregavam a revolução violenta. Diziam que o mundo novo − pacífico e justo − seria construído em cima dos escombros do velho mundo. Se em vez de uma noção violenta da violência eles tivessem cultivado uma noção pacifista da violência, o resultado teria sido diferente?

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Sim.

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A mesma força física e intelectual que administra a paz doméstica e social deve defender violentamente a paz, sempre que a paz for violentamente ameaçada. O uso inteligente da violência é um dos princípios da não violência eficaz. Quando a paz doméstica ou social é ameaçada, a não violência vira autodefesa − violência defensiva − e a autodefesa eficaz sempre usa a força do oponente contra ele mesmo, como acontece em certas artes marciais orientais.

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Exercício de alumbramento: aprecie o presente, a textura do dia, o sabor dos pequenos objetos em cima da mesa, os sons da rua, as nuvens, tuas mãos. Mantenha a atenção fixada no aqui-agora. O presente é o maior presente que você já ganhou. É o momento sagrado. Não fuja dele, aceite e aprecie. Contemple a temperatura ambiente, admire cada detalhe do chá ou do café, não deixe o pensamento escapar para o passado, não deixe o pensamento escapar para o futuro.

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Exercício de alumbramento: aprecie o presente, os seres vivos que habitam teu cotidiano, o temperamento lilás da orquídea, a introspecção da quaresmeira, o gato deitado no sofá, o cachorro passando na calçada, as andorinhas. Mantenha a atenção fixada no aqui-agora. O presente é o maior presente que você já ganhou. É o momento sagrado. Não fuja dele, aceite e aprecie. Todos os seres vivos estão vivos agora, não dez anos no ontem, não dez anos no amanhã. Contemple o desenho da samambaia, admire cada detalhe do peixe no aquário, não deixe o pensamento escapar para o passado, não deixe o pensamento escapar para o futuro.

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Exercício de alumbramento: aprecie as pessoas, qualquer pessoa que cruzar seu caminho, não converse com ela, apenas admire suas características. Cada criança, cada adulto é um espetáculo da natureza. Um fenômeno único, que jamais se repetirá. Observe em silêncio os detalhes de seu rosto: o formato, a cor, as rugas, as manchas… Observe os detalhes de seu corpo, de sua roupa. Para essa pessoa estar aqui, para você estar aqui, infinitas coincidências poéticas e trágicas foram necessárias, desde o nascimento do universo. Mantenha a atenção fixada nessa observação pacífica, no aqui-agora. O presente é o maior presente que você já ganhou. É o momento sagrado. Não fuja dele, aceite e aprecie.

[ Manifesto em progresso ]

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