Cristal visceral

Cristal

Estão percebendo a música?
Chega de afetos tristes.
Estão percebendo a luz?
Chega dessa impotência emocional.
Eu era um homem-bomba, a cabeça a ponto de detonar, quando o cristal visceral me dominou.
Eu era a fúria magnética que explodiria a qualquer momento, fraturando edifícios & inocentes, quando o cristal visceral penetrou meu coração e passou a bombear cores primárias & linhas convergentes.
Existem sete bilhões de pessoas no planeta, mas pouquíssimos produtores de alegria.
Garimpar tristeza, minerar o carvão do desânimo é a principal atividade comercial no Ocidente e no Oriente.
A tristeza e o desânimo fermentam o medo e a raiva, que refinam o combustível mais afiado da maquinaria da escravidão social.
Se examinassem seu próprio esqueleto, as pessoas veriam que nas costelas e nas vértebras há centenas de diamantes adormecidos.
Se prestassem bastante atenção, se apurassem os ouvidos, aprenderiam que essa riqueza toda está aguardando apenas a música certa pra começar a dançar.
A dança é o estado natural − jubiloso − do cristal visceral que hoje me habita.
Estão percebendo?
Esse cristal bombeia cores & linhas, que percutem a pele de dentro pra fora, que despertam os diamantes, que preenchem de radiação emocional meu ambiente animal.
Estão percebendo o movimento?
Estão percebendo a música? O brilho?
Meu corpo é a própria dança e a dança é meu próprio corpo, que também é a música e o brilho viscerais que o cristal exala.
Vocês ainda não sentiram, mas estamos todos ligados quimicamente, compartilhamos todos a mesma nuvem de diamantes.
De onde veio a beleza geométrica de meu cristal visceral, vocês devem estar se perguntando.
Quem sabe de outro planeta, de outra estrela…
Talvez de outro universo.
Tenho certeza de que essa beleza veio do mesmo útero que gerou a vida mais primitiva, mínima, a vida viajante, que evoluiu, cresceu e se espalhou em ondas sucessivas, povoando esta Terra & infinitas outras Terras.
Essa beleza material & pulsante é o momento-lugar de cristalização do espaço-tempo que me define.
Estão percebendo o caleidoscópio?
O arco-íris prismático?
Existem sete bilhões de pessoas-bombas no planeta − vocês, meus irmãos −, todas a ponto de explodir.
O mundo logo será uma paisagem fumegante de edifícios & inocentes fraturados.
A menos que transformemos a impotência emocional, os afetos tristes.
Meu cristal visceral é parte do cristal maior, que em breve acordará os diamantes que dormem também em vocês.
Preparem-se para a dança, para a música.
Preparem-se para a alquimia do brilho.

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Mensagem do Paulo Lai Werneck

Capa Subsolo infinito

Nelson,

Sei que você está com inúmeros ateliês por aí e desejo todo sucesso em todos eles, é claro, principalmente na sua trajetória literária, que eu aprendi a admirar logo que li os primeiros poemas do Valerio Oliveira e agora este livro.

Não quero te atrapalhar com lengalenga, por isso direi a meu favor que a minha mensagem tem uma boa intenção.

Acabei dobrando as páginas para não riscar essa edição comemorativa do teu primeiro romance, mas foi uma grande besteira, depois fiquei procurando nas páginas o porquê das marcações, uns porquês mais fáceis de achar do que outros. Mas no Distrito federal irei assinalar impiedosamente com um marcador amarelo.

Arrisco então a emitir uns o-bla-dis o-bla-das sobre a leitura desse livro. Subsolo infinito: como não começar pelo final se o final define determinadas questões?

Você já havia se referido à vampirização, e agora li a mesma declaração no final do livro. Eu que me autovampirizo sem qualquer piedade também tenho pudor em fazer isso com histórias de pessoas próximas, se eu não estiver incluído, mas mesmo assim reservo a mim apenas o ônus da indiscrição, caso ela exista.

Me pergunto se quase toda literatura não é embrionária de seu próprio meio, a literatura gerando a literatura não é apenas uma força de expressão, mas talvez a realidade mais presente dela.

Creio, entretanto, que as paródias, citações e afins é que nos permitem o exorcismo de nossas mais impactantes leituras, mas pergunto se crer nisso não seria um contrassenso, ao mesmo tempo que partilho da mesma visão, de que a leitura engendra ou impregna a escrita na maior parte dos casos.

Outra coisa com que me identifico é a viagem insólita. É que acabo num mundo à parte, de uma realidade quase delirante, entre esse ofício e a própria vida − se eu, ainda aspirante a escritor, posso dizer isso a você. Talvez eu seja muito emocional para a coisa toda, às vezes penso nisso.

Com certeza, lendo seu livro, não dei conta de todas as citações e nem darei, mesmo que leia outra vez. É rica demais a construção do texto, com amarras e costuras por todo lado, dos autores que você citou e outros mais, seja em ideias, seja em nomes de personagens etc., que figuram como aplicações nesse tecido literário juntamente com muitas das invenções, feito o hino com sílabas ao contrário, entre outras, intercaladas com alguns bordados pop e/ou almanaqueanos, desde o o-bla-di o-bla-da repetido duas vezes no livro, figurando com o mesmo sentido (derivado da sacada da similaridade sonora?) do nosso patati patatá, que você também empregou em “um pequeno passo para o homem patati patatá”, faze o que tu queres pois é tudo da Lei, a hexacosioi-hexeconta-hexafobia…

Muitas brincadeiras literárias com as palavras, como o jogo com o título do livro de Lautréamont: “Mal de amor, mal de olor, mal de dolor, ah maldito Maldoror, ouvi alguém praguejar num canto, em todos os cantos da cidade”. E outras: “Absolutas estrelas obsoletas!”, “O gloglogló de água passando sobre pedras e plantas”.

Borges ou Pessoa, fogos-fátuos. O que acha desse encontro? Fernando Pessoa e Borges se encontram em Lisboa.

Dar o título de Ex-libris ao capítulo que narra a perda de identidade, achei bom demais. Enfim, lança o mote principal: um livro sobre livros. Entre cartapácios e alfarrábios. Os livros-objetos que aparecem mais para frente, livros somente para se manusear, aqueles do contêiner, que às vezes cheiram a mofo, mas sempre parecem cheirar melhor que o mundo não literário.

Van Gogh de bafo impressionista citando Dante, a transformação kafkiana, não só do personagem, mas do ambiente (demais isso), indo do desespero ao humor debochado: “terei inadvertidamente tocado uma parede recém-pintada?” Um desespero em torno da suposta pureza perdida de uma alvura viking, abrindo a unhas a nossa ferida do racismo. Ao contrário de Edu, o meta-sagrado, que tem seu dia de Gregor Samsa, de cuja “boca nojenta saíam os filamentos luminosos de um crustáceo escondido”.

O título dos capítulos e sua inversão: a descida subida, a subida descida. Muitos trechos poéticos, seja no registro da prosa poética, seja nas fortes imagens que se impõem.

Começando a tatear o vazio
A escada havia acabado
Não existiam mais degraus
A coluna estreita
Por onde vínhamos descendo
Pouco a pouco foi se alargando
Separando as paredes
Como num funil invertido
Até transforma-se numa abóbada descomunal

(…)

Pequenos pontos de luz
Talvez vaga-lumes, piscavam
Não são vaga-lumes, são pessoas
Descendo por outros respiradouros

Igual a um funil invertido, abre-se uma abóbada descomunal − grande e bela imagem sobre um ambiente escuro onde aparecem “pequenos pontos de luz” (lembrei que no final do romance, se não me engano, você fala de “abóbada abobada”), a trama das luzes, inúmeras fileiras que acendiam e apagavam na queda dos que tentavam a descida-subida pendurados em cordas. Voltando um pouco, um trecho que descreve a formação da nuvem primordial e termina na passagem do cajado ao peregrino Tolstói, também achei quase um poema.

E em A queda para o alto (último capítulo):

Está escutando?
Que força é essa que atravessa paredes
Escorre por degraus
Desliza entre a sombra e a superfície
Sem perturbar nem uma nem a outra?

Tem muita força esse capítulo final, impressionante mesmo.

Chamou a minha atenção, na divisão do romance, a parte específica que trata do subsolo infinito. É quase um livro à parte, uma mini-saga. E as tribos indígenas babélicas, achei demais essa parte.

Deliciosa, a personagem José Maria/Maria José. Genial a sua homenagem a Guimarães Rosa, a Diadorim figura-de-papel, leitura obrigatória do colégio e/ou cursinho, pelo menos. Vou sofismar: ela é a guia da viagem externa e interna de Toni, e inclusive ele revive alguns sentimentos do Riobaldo: ama Maria José e repele José Maria.

O protagonista transfere o dilema para outro patamar, sabe da existência dos dois (macho e fêmea) num só corpo metamorfo, porém desconhece quando será ele ou ela que se fará presente. Até o momento em que Toni avista Maria José, “não Maria José Maria, nem José Maria José”. E no final acontece a reconciliação com José Maria, na pele da irmã. Há também o pacto roseano na encruzilhada, e outra virada: o acerto de contas invertido, levando o demo a viver uma vida quase humana, “perdi a razão, escrevi livros, casei e tive filhos”.

Os personagens se entrelaçam feito fios no fio principal da saga do demônio que virou humano, em contraponto à sombra que se revela lá na frente, do humano que se quis imortal, porém são intrincados fios, igual a uma louca renda de bilros.

Da mística do Edu e/ou Exu? Uma boa referência que eu não conhecia: Edouard Schuré. Há também as constantes repetições esotéricas, cada vez mais diluídas, como um eco que vai se perdendo e ressurge estrondoso na batalha final, não no céu, mas nas margens do caudal mítico, o rio Caiapó.

Com o drama de Fausto e Mefistófeles, de Goethe, e as inúmeras denominações do demo, por Guimarães Rosa, eu tenho mais afinidade, assim como com muitas das referências mitológicas gregas, mas novamente presto atenção nas costuras. Eu me arrisco a beliscar essa camada extra, e me atrevo a tentar entender o seu texto como um momento de afinados expurgos, no qual me referi antes: exorcismo às avessas das referências.

Por falar em exorcismo, em Álvares de Azevedo, Tolstói, Goethe, Rosa e toda uma genealogia da literatura do diabo, o carnaval aflora em outro momento sarcasticamente debochado − Paracelso, Nostradamus e Aleister Crowley −, numa conversa sobre hemorroidas e furúnculos. Tudo ocorrendo dentro da arquitetura de uma viagem dantesca, homérica, através de cenários do centro da Terra de Verne.

Mas vi que não era só isso, claro. Existia um porquê. Pergunto se não é um profundo exercício de liberdade delimitada, depois de escolhido o tema principal, o que determinou a costura da conversa dos autores que você citou. Como nem todo encontro é fluido, também ouso imaginar que daí incide parte do processo criativo que pega não somente referências afins e fáceis de amalgamar, mas referências às vezes díspares, que, no intuito de criar sentido e fluência no texto, estabelecem inúmeras ligações criativas inusitadas.

Subsolo infinito é um romance com um assunto espiritual, mas um tanto quanto físico, digo, de ações e descrições que derivam do ato físico, talvez seja melhor dizer que o livro oferece inúmeras qualidades sensoriais, mas principalmente táteis, por todo lado. Seja o que for que isso signifique. Talvez signifique que percebemos nas descrições a mutabilidade das metamorfoses físicas do ambiente e/ou do corpo biológico dos personagens, através da trama que desemboca nas soluções de caráter fantástico, e nas diversas manipulações da ideia de tempo e espaço.

Termino comentando a citação inicial do livro do Campos de Carvalho, A lua vem da Ásia. Essa é uma leitura que eu me cobro. Não tenho medo nem a superstição do esvaziamento da minha criatividade. Mas, nesse caso, faz um bom tempo que li o começo do romance do autor mineiro. Fiquei tão deslumbrado, embasbacado mesmo, que me perguntei se eu teria tempo hábil de expurgar essa leitura, e fechei o livro. Porém, inadvertidamente, recentemente li Ubik, do Philip K. Dick…

Desculpe se acabo me autovampirizando nessas observações, mas com quem eu poderia falar sobre essas coisas a esta altura da vida?

Quando puder, por favor, diga algo sobre. Assim será mais fácil expurgar você também. Bem que você avisou lá no ateliê, por isso encerrei e fechei qualquer possibilidade de fazer oficinas de escrita criativa com outra pessoa. Já estou bem acompanhado. Afinidades.

O que não expurgarei nunca é minha gratidão.

Abraço!

Paulo

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Recebi essa maravilhosa mensagem dias atrás, por e-mail.
Paulo, que eu conheci há dois anos no ateliê de criação literária da Casa Mário de Andrade, mergulhou nas águas nebulosas do Subsolo infinito e trouxe de lá uma trama particular de inquietações. Um tesouro obscuro.
Considero esse romance delirante, talvez psicanalítico, o melhor livro-pesadelo que eu já escrevi. E também o mais difícil. Apesar de não ser muito extenso, conheço poucas pessoas que conseguiram chegar ao final.
Por isso agradeço muito ao Paulo, pela disposição em investigar essa floresta de símbolos e mitos, e mais ainda pela interlocução enriquecedora.
Valeu, camarada!