T i p o l o g i a

Interrogação

Que tipo de leitor você quer ser?

Sábio
Tempo é um recurso limitado. O tempo de vida e de leitura de todos os seres humanos é finito. O leitor do tipo sábio é alguém que administra bem esse recurso, não acumulando conhecimento sobre um único gênero literário ou uma única escola literária ou um único autor, mas procurando apreender a essência da arte literária por meio de leituras diversificadas, dos vivos e dos mortos, a fim de se conhecer e conhecer melhor seu momento histórico. Obviamente, sábios são raríssimos.

Erudito
Alguém que se aprofunda e se especializada num único gênero ou numa única escola literária ou num único autor, vivo ou morto, a ponto de conhecer, acumular e comentar longamente os detalhes literários e históricos de seu objeto de estudo. Esse é o perfil majoritário do leitor profissional, do pesquisador acadêmico. Obviamente, eruditos são menos raros que sábios.

Descompromissado
Alguém que lê um pouco de tudo, mais dos vivos que dos mortos, raramente os clássicos, sem a obrigação de um planejamento rigoroso, seguindo as ondulações do gosto geral, do mercado editorial e da vida social literária. Obviamente, descompromissados existem em maior quantidade do que todos os eruditos e sábios reunidos.

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Que tipo de escritor você quer ser?

Deus
Alguém que inventou uma nova maneira de se expressar em prosa ou verso, nadando contra a corrente literária hegemônica de seu tempo. Obviamente, deuses são raríssimos. E seu talento original, excetuando-se pouquíssimas exceções, só é reconhecido pelas gerações posteriores.

Semideus
Alguém que aprendeu com um deus e aperfeiçoou sua nova maneira de se expressar em prosa ou verso, e ajudou a difundir esse conhecimento, legitimando-o. Obviamente, semideuses são menos raros que deuses. O talento de boa parte é reconhecido imediatamente. Publicam pelas melhores editoras, ganham prêmios, são traduzidos etc. Apesar de ser menos intensa que a obra de um deus, a obra de um semideus também sobrevive à morte do autor.

Humano
Alguém que realiza com inegável talento o estilo literário prestigiado pela maioria dos formadores de opinião (outros escritores humanos, editores, críticos, professores, divulgadores etc.). Obviamente, humanos existem em maior quantidade do que todos os semideuses e deuses reunidos. O talento dos humanos é festejado imediatamente. Publicam pelas melhores editoras, ganham prêmios, são traduzidos etc. Mas a obra de um humano quase nunca sobrevive à morte do autor.

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[ Não deviam servir vinho a ficcionistas, é um perigo. A hierarquia acima surgiu num almoço de amigos-escritores, em que falamos de mercado editorial, prêmios, críticos e editores, Proust, Joyce e Kafka, debochamos da vaidade da chamada autoficção (quem escreve autoficção precisa compreender que está correndo na mesma pista que Proust, que inventou esse negócio), classificamos Bolaño e Foster Wallace como bons humanos (iguais a muitos outros), reafirmamos que a única saída possível da crise criativa mundial é a ficção científica, única pista de corrida em que não há (ainda) Shakespeares nem Cervantes nem Prousts, Joyces e Kafkas, brindamos e nos divertimos, fizemos novas listas e classificações, sempre abençoados por Ezra Pound, é claro. Como eu disse, não deviam servir vinho a ficcionistas. In vino veritas. ]

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