Buscador

Google Futuro

É preciso tomar cuidado. Muito cuidado.

Você levanta da cadeira e vai ao banheiro lavar o rosto pela terceira vez. Olha as pupilas no espelho, massageia as bochechas. Não está delirando, não.

É madrugada, a cidade dorme.

Você volta ao computador, é preciso continuar o trabalho. É preciso continuar o trabalho e tomar muito cuidado.

Faz duas horas que você está enchendo uma planilha com nomes, eventos e datas.

Datas do futuro.

Desde que apareceu essa nova ferramenta na página do Google, você não para de digitar e beber café, beber café e digitar.

Já pesquisou e anotou o resultado das próximas dez mega-senas. Já sabe quem serão os próximos presidentes da república e quando haverá outro golpe. Outro impeachment, outra ditadura militar. Já sabe quem levará os próximos Oscars, as próximas Copas do Mundo. Já sabe quem ganhará bilhões no show business e quem perderá tudo no mercado financeiro. Quem morrerá primeiro na fórmula um.

Mas ainda não sabe o dia da própria morte, não teve coragem de pesquisar.

Desde que apareceu essa nova possibilidade na página do Google − na barra de ferramentas agora é possível definir hora, dia, semana, mês ou ano também no futuro −, você não para de digitar e beber café, beber café e digitar.

No começo você achou que era piada e comentou com a galera, no grupo do whatsapp: “Vocês viram a nova ferramenta do Google?” Os amigos não entenderam a pergunta. Não havia nada de diferente no buscador. Você comentou com o pessoal do escritório, todos responderam do mesmo jeito. Nada de diferente.

Parece que a nova possibilidade só apareceu no teu laptop.

Então é preciso tomar cuidado. Muito cuidado. Ninguém pode saber.

Em dois dias acontecerá o sorteio da próxima mega-sena, você já tem os números, então o jeito é tentar sossegar esse pulso acelerado, respire, rapaz, em dois dias você saberá a verdade.

O prêmio será de duzentos milhões, isso você já sabe. Mas o nome do único ganhador não aparece em lugar algum.

Você prepara mais uma xícara amarga, antecipando o doce gozo dos duzentos milhões, fazendo planos, uma cobertura em Copacabana, um cruzeiro ao redor do mundo…

Isso se você conseguir esperar dois dias.

Mas você não tem coragem de pesquisar.

Se tivesse, saberia que em exatamente cinco horas e trinta e nove minutos, quando a mercearia da frente erguer as portas e o primeiro poodle mijar no portão de sua casa, teu corpo já estará esfriando e enrijecendo.

Ataque cardíaco.

Café demais.

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Anacrônicos

Anacrônicos

Nesse conto de ficção científica, o autor mostra o que acontecerá com o mundo quando nossos entes queridos já falecidos começarem a retornar à vida. O eBook está disponível na loja da Amazon e pode ser lido no smartphone, no tablet e no PC.

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Um século depois de Jung, a humanidade se apropriou materialmente do abstrato conceito de inconsciente coletivo e criou a internet, que Luiz Bras chama brainet. Nesse conto fantástico e futurista vivemos a apropriação do reencarnacionismo kardecista, ou do Juízo Final, enfim, uma divagação distópica sobre a infinitude da vida espiritual atrapalhando o futuro da breve existência humana.
[ Manoel Herzog ]

Da confluência espaço-temporal à perspectiva abismal que nos tira o chão (no melhor estilo da ficção científica), eis um emaranhado de corpos, domínio que se desfaz no indiscernível do grotesco. A realidade ampliou-se ou se estreitou? Não, não se trata de literatura: é ceticismo, paradoxo e aporia. Realidade dentro da realidade, mal pude rever-me no emaranhado dessa trama.
[ Marco Aqueiva ]

Estamos fritos: os mortos voltaram. Esse conto asfixiante desorganiza nosso entorno, revira o tempo, sobrepõe horrores, marca nossa cara de hoje com o sol de ontem. Mas nem pensem em fugir. Luiz Bras, cada vez mais brilhante, só nos dá como escapatória a linguagem, e o risinho amarelo do sufoco.
[ Maria José Silveira ]

Luiz Bras é um escritor que apreende e compreende a transformação que a ciência e a tecnologia provocam em nosso modo de pensar e sentir, e essa síntese aparece no conto que a gente não segura em papel, e essa volatilidade do texto, que se difunde em aplicativos, mas gruda na gente, torna a leitura mais interessante.
[ Paula Bajer Fernandes ]

Anacrônicos mostra que, na hora de fazer literatura, importa mais a execução do que ter uma boa ideia. Luiz Bras pega uma premissa batida, já vista em ficções anteriores, filmes e séries de tevê, para criar um conto instigante sobre vida e morte. O texto brinca com certa metalinguagem para tornar a sensação da leitura ainda mais estranha, tirando o leitor da zona de conforto para fazê-lo refletir.
[ Ricardo Santos ]

Com uma narrativa ágil, em segunda pessoa, colocando o leitor na posição da protagonista − que se depara com a mãe morta, cotidianamente preparando o mesmo bolo na cozinha de casa − Luiz Bras realiza uma obra que, mais uma vez, funciona como provocação, uma novela curta que se lê com gosto mas também com preocupação.
[ Wilson Alves-Bezerra ]

Uma narrativa tão genial quanto angustiante, capaz de nos fazer reconsiderar a saudade. Dava um romance, mas ficou elegante e completo como conto. Proteja suas unhas, o livro é tenso! Depois de ler Anacrônicos você vai pensar bem antes de desejar o impossível.
[ Belise Mofeoli ]

Anacrônicos é potente, devastador e mordaz. É impossível não se deixar levar pelo feroz imaginário de Luiz Bras e, quase sem perceber, esbarrar em nossos desejos e medos mais profundos. Belo e terrível ensaio sobre a natureza da existência e da interdependência entre os seres. Aos que ainda não leram, só posso dizer: não há tempo a perder.
[ Marcelo Maluf ]

Anacrônicos atinge com um golpe no rosto, ponto positivo para um conto moderno. Em seguida, obriga o leitor a vadiar e a se perder em desconfortáveis planos oblíquos de tempo e espaço, para, finalmente, trazê-lo de volta ao ponto de partida, com um sorriso maroto de quem superou o desafio. Literatura bruta, embora negada.
[ Ricardo Lahud ]

Para além dos elementos borgianos, o conto me remeteu mesmo foi às esculturas da australiana Patricia Pichinini. São figuras super-realistas, hiper-convincentes, de seres quase humanos, mas deformados, ou reformados, pela ciência. Então o espanto do surreal supera o encanto do real. Como os vivos-mortos desse conto, que causam comoção, em seguida estranhamento e enfim repulsa.
[ Leo Cunha ]

Herdeiro legítimo de André Carneiro, Luiz Bras é, no campo da ficção científica no Brasil, o escritor que mais confronta o leitor com o estranho e o inquietante. Em Anacrônicos, não é preciso ter visto a série de tevê Les revenants para apreciar esta exploração desconcertante do tema do redivivo, na intersecção entre a FC e o realismo mágico.
[ Roberto de Sousa Causo ]

O estado da arte na literatura: logo nas primeiras linhas a gente sente a força da escrita de Luiz Bras. Dono de uma linguagem enxuta, elegante e poderosa, o narrador nos conduz para um mundo onde desejaríamos estar. Afinal, quem não gostaria de rever aquele ente querido que partiu? Mas até mesmo no universo de Anacrônicos não existe almoço grátis.
[ Gláuber Soares ]

Uma apavorante narrativa, em que tempo e espaço se desorganizam. Viaje por essa terrível teia de aranha, na qual você se verá enredado a partir da primeira frase. Cuidado. É um caminho sem volta, mas vale a pena arriscar. Mesmo porque você não terá forças nem vontade de largar o conto antes de chegar ao seu espantoso final. É o que acontece quando escolhemos para ler um autor do calibre de Luiz Bras.
[ Jeanette Rozsas ]

T i p o l o g i a

Interrogação

Que tipo de leitor você quer ser?

Sábio
Tempo é um recurso limitado. O tempo de vida e de leitura de todos os seres humanos é finito. O leitor do tipo sábio é alguém que administra bem esse recurso, não acumulando conhecimento sobre um único gênero literário ou uma única escola literária ou um único autor, mas procurando apreender a essência da arte literária por meio de leituras diversificadas, dos vivos e dos mortos, a fim de se conhecer e conhecer melhor seu momento histórico. Obviamente, sábios são raríssimos.

Erudito
Alguém que se aprofunda e se especializada num único gênero ou numa única escola literária ou num único autor, vivo ou morto, a ponto de conhecer, acumular e comentar longamente os detalhes literários e históricos de seu objeto de estudo. Esse é o perfil majoritário do leitor profissional, do pesquisador acadêmico. Obviamente, eruditos são menos raros que sábios.

Descompromissado
Alguém que lê um pouco de tudo, mais dos vivos que dos mortos, raramente os clássicos, sem a obrigação de um planejamento rigoroso, seguindo as ondulações do gosto geral, do mercado editorial e da vida social literária. Obviamente, descompromissados existem em maior quantidade do que todos os eruditos e sábios reunidos.

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Que tipo de escritor você quer ser?

Deus
Alguém que inventou uma nova maneira de se expressar em prosa ou verso, nadando contra a corrente literária hegemônica de seu tempo. Obviamente, deuses são raríssimos. E seu talento original, excetuando-se pouquíssimas exceções, só é reconhecido pelas gerações posteriores.

Semideus
Alguém que aprendeu com um deus e aperfeiçoou sua nova maneira de se expressar em prosa ou verso, e ajudou a difundir esse conhecimento, legitimando-o. Obviamente, semideuses são menos raros que deuses. O talento de boa parte é reconhecido imediatamente. Publicam pelas melhores editoras, ganham prêmios, são traduzidos etc. Apesar de ser menos intensa que a obra de um deus, a obra de um semideus também sobrevive à morte do autor.

Humano
Alguém que realiza com inegável talento o estilo literário prestigiado pela maioria dos formadores de opinião (outros escritores humanos, editores, críticos, professores, divulgadores etc.). Obviamente, humanos existem em maior quantidade do que todos os semideuses e deuses reunidos. O talento dos humanos é festejado imediatamente. Publicam pelas melhores editoras, ganham prêmios, são traduzidos etc. Mas a obra de um humano quase nunca sobrevive à morte do autor.

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[ Não deviam servir vinho a ficcionistas, é um perigo. A hierarquia acima surgiu num almoço de amigos-escritores, em que falamos de mercado editorial, prêmios, críticos e editores, Proust, Joyce e Kafka, debochamos da vaidade da chamada autoficção (quem escreve autoficção precisa compreender que está correndo na mesma pista que Proust, que inventou esse negócio), classificamos Bolaño e Foster Wallace como bons humanos (iguais a muitos outros), reafirmamos que a única saída possível da crise criativa mundial é a ficção científica, única pista de corrida em que não há (ainda) Shakespeares nem Cervantes nem Prousts, Joyces e Kafkas, brindamos e nos divertimos, fizemos novas listas e classificações, sempre abençoados por Ezra Pound, é claro. Como eu disse, não deviam servir vinho a ficcionistas. In vino veritas. ]