Lúcifer e a guerra no céu

Uma paródia pós-moderna do mito da guerra no céu.
Essa é minha passagem predileta do romance Subsolo infinito.

Capa Subsolo Infinito

Eu falava sobre os deuses e a evolução planetária. Eu dizia, acima dos homens existem os cronópios. Completamente preso nos movimentos do mar, Tolstói nem sequer piscava. Eu dizia, o elemento do cronópio é o ar. Acima dos cronópios estão os dragões. Seu elemento é o fogo. Falava da Lemúria. Formidáveis convulsões sísmicas agitaram a Lemúria de um extremo a outro. Incontáveis vulcões se puseram a vomitar torrentes de lava. Milhões de seres monstruosos, encolhidos nos precipícios ou suspensos nos cumes montanhosos, foram asfixiados pela fumaça ou tragados pelo mar fervente. Os homens impuros que ali viviam foram exterminados e o continente, após uma série de erupções e abalos, fraturou-se e afundou pouco a pouco no oceano. Eu dizia, acima dos dragões reinam as quimeras. Seu elemento é o éter. Esse, o primeiro grupo de poderes espirituais que está acima do homem. A seguir vem a segunda tríade: as salamandras, os lêmures e os sátiros. Bem acima de todo o racionalismo e de toda a imaginação humana encontra-se a terceira tríade: as valquírias, os unicórnios e as esfinges. Mas eu não me enganava. Sabia muito bem que essas palavras não me pertenciam. Eram as palavras de Edu.

[…]

Lá no alto, em êxtase, os dragões haviam concebido a raça dos cronópios, aqui nas trevas relativistas eles novamente refletiam os unicórnios, mas dessa vez sua nova criação se contraía e contorcia de angústia, desejo e cólera, ora, essas novas formas-pensamentos engendradas pelo sono turvo dos dragões tornaram-se os protótipos do mundo animal que iria se desenvolver mais tarde sobre a Terra, os animais não são senão cópias deformadas e, de algum modo, caricaturas dos seres divinos, pode-se pois pretender que se os cronópios — e através deles os homens — nasceram do êxtase dos dragões na luz, os animais, pelo contrário, nasceram de seu pesadelo nas trevas.

[…]

Edu, acendendo um cigarro, fica por algum tempo observando a fumaça se desfazer em criptogramas diante de si, antes de dar continuidade ao que falava, dizendo peremptoriamente, Lúcifer não é o capeta, o tinhoso, o coisa-ruim, o bode-preto, Lúcifer não é Satã, o gênio do mal, segundo a tradição ortodoxa e popular, Lúcifer é um deus como os outros e seu próprio nome, portador de luz, garantiu-lhe sua indestrutível dignidade de dragão. Sim, voltamos a repetir em uníssono, Lúcifer não é Satã. Veremos mais tarde por que Lúcifer, gênio do conhecimento e da individualidade, foi tão necessário ao mundo — tanto quanto Jesus Cristo, gênio do amor e do sacrifício —, veremos como toda a evolução humana resulta de sua luta contra Deus, e como, enfim, seu esplendor final e transcendente deve coroar a volta do homem à divindade, pois, de todos os dragões, Lúcifer, representante e chefe patronímico de toda uma classe de cronópios e espíritos, foi o que lançou o olhar mais penetrante e atrevido à sabedoria de Deus e ao plano celestial. Sim, repetíamos, o olhar mais penetrante e atrevido. E era também o mais orgulhoso e o mais indomável, não queria obedecer a nenhum outro Deus a não ser a si mesmo, os outros dragões haviam gerado de suas formas-pensamentos os cronópios, protótipos ainda puros do homem divino, esses cronópios possuíam apenas um corpo etéreo diáfano e um corpo astral radiante que, por sua força receptiva e resplandecente, uniam em perfeita harmonia o eterno-masculino e o eterno-feminino, tinham também o amor, uma irradiação espiritual sem perturbação e sem o desejo egoísta de posse, porque eram astral e espiritualmente andróginos, Lúcifer compreendeu que pra criar o homem independente, o homem com desejo e rebeldia, era necessária a separação dos sexos, pra seduzir os cronópios com seu pensamento-projeto ele moldou na luz astral a forma deslumbrante de Lilith, a futura mulher, a eva ideal, e mostrou-a a eles, uma multidão se inflamou de entusiasmo pela imagem fogosa que prometia ao mundo alegrias e delírios desconhecidos, e muitos deles, tomados de luxúria, se agruparam ao redor do supremo dragão rebelde. Slides com cenas de rebeliões extraídas de filmes antigos são projetados. Tudo era estresse e êxtase, formava-se então entre Marte e Júpiter um astro intermediário, sua forma ainda era apenas a de um grosso anel, mas seu destino era se condensar num planeta após a fragmentação inevitável, Lúcifer o escolheu pra criar com seus cronópios um mundo que, sem passar pelas provações terrestres, encontrasse em si mesmo força e alegria, e saboreasse ao mesmo tempo o fruto da vida e do conhecimento, sem a ajuda do Todo-Poderoso. Clamor de armas, uivos, tensão e tesão. Batíamos palmas e, qual tribo em êxtase, mais uma vez dançávamos ao redor da mesa. Os outros dragões e todos os cronópios, quimeras, salamandras, lêmures etcetera etcetera receberam a ordem de impedir o revoltoso, porque sua transgressão, cacete!, seu plano promoveria a baderna na criação e romperia a cadeia da hierarquia divina e planetária, a batalha feroz e prolongada que se travou entre os dois exércitos terminou com a derrota de Lúcifer e teve um duplo resultado: primeiro a destruição do planeta em formação, cujos destroços são os atuais asteroides, depois o banimento de Lúcifer e seu exército para um mundo inferior, outro planeta que acabara de ser desprendido do núcleo solar pelos sátiros e lêmures, esse planeta era a Terra, não a Terra de hoje, mas a Terra primitiva, que era apenas, então, um astro árido e quase sem paisagem, feito a lua, esse episódio cosmogônico constituiu um fato capital na história planetária, foi uma espécie de incêndio astral cujo reflexo repercutiu em todas as mitologias, um cometa de fogo que dardejou suas pontas incendiárias nas profundezas ocultas da alma humana, primeiro clarão do desejo, do conhecimento e da liberdade, a tocha fulgurante de Lúcifer não se acenderia novamente com todo o seu brilho senão no sol do amor e da vida divina: em Cristo.

[ Subsolo infinito edição comemorativa • Patuá Editora • 2016 ]

Transcendência

Aula-palestra sobre literatura fantástica para grupos de estudo.

Transcendência

São Paulo tem muitos grupos já constituídos, que se dedicam informalmente ao estudo da literatura. Por puro prazer, sem qualquer vínculo acadêmico ou profissional. Foi pra esse público que preparei, também por puro prazer, uma aula-palestra sobre literatura fantástica.

As principais estrelas comentadas são os viciantes Borges, Cortázar, García Márquez, Hilda Hilst, José J. Veiga, Juan Rulfo, Kafka, Lygia Bojunga, Lygia Fagundes Telles e Murilo Rubião. Uma constelação literária transcendente. Mas não se espantem se surgirem referências também do cinema, do teatro e das artes plásticas. O fantástico está em toda parte, em toda arte.

A duração da aula é de uma hora e meia. O número mínimo de participantes? Oito (deitado, é o infinito). E o preço? R$ 50 por pessoa.

Local da aula? O mesmo em que o grupo de estudo se reúne costumeiramente. Data e horário: indicados pelo grupo.

Os grupos interessados podem me contatar no e-mail oliveira.e.cia@uol.com.br