Valerio no Estadão

Estadao

Os escritores Luci Collin e Valerio Oliveira resenhados pelo crítico Wilson Alves-Bezerra no Caderno 2 de sábado.

Para ler a resenha, basta clicar aqui.

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Memórias (literais) do subsolo

Subsolo Infinito Capa

Fábio Fernandes

A primeira vez que li Nelson de Oliveira foi ao folhear as páginas de sua coletânea de contos Naquela época tínhamos um gato, publicada pela Companhia das Letras em 1998. Livro diferente, a começar pelo título. Fui direto ao conto de mesmo nome. As primeiras frases me pegaram pelo pé:

“Mas não o suportávamos. Ele cagava por toda parte, fazia ruídos a noite inteira, esparramava o lixo na calçada e arranhava as almofadas do sofá. Por isso nos livramos dele e compramos um cão.”

Agora, não estou estragando a leitura cometendo um spoiler, pelo contrário. Ela fica mais interessante a partir daí. E, ouso dizer, mais fantástica − no gênero da literatura fantástica, sim senhor, porque o cão é dotado de uma estranha e irritante habilidade de perscrutar a alma de seus donos. Mas, como toda boa literatura, esse livro recusa rótulos.

O mesmo ocorre com seu segundo livro, Subsolo infinito. Em duzentas e tantas páginas, Nelson conta a bizarra história de Antônio Bezerra, um filósofo que, na casa dos quarenta, um dia perde a memória e começa a vagar pelas ruas de São Paulo. Em sua peregrinação delirante (durante a qual, entre outras coisas, descobre que de branco leitoso virou negro retinto, sem explicação aparente), o narrador-protagonista convive com malucos e trombadinhas, anjos e demônios, e acaba se apaixonando por uma estranha figura andrógina (Maria José ou José Maria, conforme as circunstâncias), e a segue numa expedição aos subterrâneos da cidade.

É nesse ponto que, numa mistura fascinante de Homero, Dante e Jules Verne, o narrador nos conduz a uma vastíssima região abissal, povoada pelos mais variados tipos de pessoa, tão diferentes entre si quanto as distâncias impossivelmente grandes que os separam. O mundo subterrâneo é, à sua maneira enlouquecida, um espelho do nosso, com suas hierarquias, seus valores éticos e morais próprios e sua luta pela sobrevivência apenas mais explícita que a nossa.

Nesse novo Hades (as comparações com o inferno grego de Homero abundam no romance), Toni se perde de Maria José / José Maria e passa dez anos (igual a Ulisses) peregrinando em busca de sua amada. Perdido em elucubrações sobre seu passado na superfície, agora uma pálida lembrança, o narrador assume a vida no subterrâneo e confere a ela dois objetivos: encontrar Maria José Maria e se vingar do demônio, com quem tem certeza de ter feito um pacto algum dia − embora não se lembre disso −, para ter acabado nessa situação tão sórdida.

Caro leitor, você já percebeu que estamos mergulhados no primeiro romance new weird da literatura brasileira.

À medida que o romance se adensa e se aprofunda, também a jornada de Toni Bezerra penetra estratos mais interiores do coração da Terra, onde o protagonista encontra morlocks, zumbis e até mesmo tribos indígenas perdidas de todo contato civilizado… e, para malgrado seu, antropófagas. É então que esse Hans Staden moderno precisa usar de toda sua habilidade malandra para escapar dos canibais e encontrar seu destino na cidade perdida de Ílion (sim, leitor observador: a Troia dos poemas de Homero e das peças de Eurípides, aqui em versão remix), onde tem a certeza de que achará o que procura. E terá ainda mais uma surpresa, que eu não vou contar.

É preciso observar que Subsolo infinito é uma homenagem mais do que explícita aos autores citados e a Campos de Carvalho, a começar pela epígrafe, retirada de seu clássico A lua vem da Ásia. Ficção caudalosa e delirante, esse romance, de 1956, narra em primeira pessoa as aventuras de um homem nos lugares e nas situações os mais disparatados, com a tranqüilidade de um milionário entediado… ou de um louco, o que se descobre ao final do volume.

Subsolo infinito presta seu tributo a Campos de Carvalho de várias maneiras, a começar pela narrativa em primeira pessoa e pela indefinição de fronteiras inclusive geográficas (em várias passagens no começo de sua aventura, Toni Bezerra se desloca do centro da cidade para a praia com tanta facilidade quanto se estivesse no Rio de Janeiro, por exemplo, o que torna a história ainda mais instigante), sem no entanto perder sua própria voz narrativa, não tão alucinada quanto a do mestre mineiro, porém mais lúcida, mais reservada, mais racional.

O romance de Nelson de Oliveira tem, para o leitor empedernido de ficção científica, fantasia e terror − o leitor que se recusa a ler alguma coisa além desses gêneros −, um prazer adicional em comparação com o que escritores não familiarizados com o gênero (e dos quais geralmente aquele tipo de leitor não gosta, mas isso é outra história) costumam fazer: é uma história fantástica assumida. O autor não acaba afirmando que era tudo um sonho, nem classifica os insólitos acontecimentos como delírios de um alucinado. Para todos os efeitos, a fantástica jornada do narrador-protagonista por esse novo e indefinível Hades, o pacto com o diabo e a cidade mítica de Ílion são a mais pura verdade. Se a viagem aconteceu ou não é irrelevante.

[ Resenha publicada no número 11 da revista Quark, de abril de 2000 ]

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Logo que foi lançado, o romance Subsolo infinito teve cinco ou seis resenhas na grande imprensa, mas uma das análises de que mais gostei foi esta, feita por Fábio Fernandes para uma publicação alternativa.

Quando alguém que você ainda não conhece − melhor ainda se for um colega de ofício − lê espontaneamente teu livro e escreve (sem qualquer pressão profissional) um texto tão generoso, você só pode considerar isso um presente.

Detalhe: só fui saber da existência dessa resenha dez anos depois, ao conhecer pessoalmente o Fábio. Tomo a liberdade de republicá-la aqui, porque é o tipo de presente que precisa ser mostrado com frequência.

Nelson

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