Ateliê Escrevendo o Futuro

Escrevendo o futuro

Ateliê de criação literária coordenado por Luiz Bras

Nos últimos cem anos, a ciência e a tecnologia começaram a modificar a biosfera e o ser humano de maneira assustadora. Mas esse processo, apesar de muito debatido por filósofos, sociólogos, historiadores e cientistas, raramente aparece na literatura brasileira contemporânea. A proposta é que os atelienses expressem em prosa ou verso nossa inquietação presente com o futuro pós-humano que se aproxima, está chegando, já está aqui.

Temas que serão tratados no ateliê:

– Engenharia genética
– Inteligência artificial
– Nanotecnologia
– Drogas da inteligência
– Conexão cérebro-computador
– Próteses eletrônicas
– Upload mental
– Realidade artificial
– Ciborgues
– Robôs, androides e ginoides
– Cidades, residências e veículos inteligentes
– Catástrofes ecológicas
– Viagens espaciais

Dinâmica:

As pessoas estão cada vez mais interessadas em aprender e compreender os mecanismos da expressão literária. Esse interesse está diretamente relacionado à busca da compreensão mais ampla da vida e da sociedade.

O objetivo do ateliê é estimular, de maneira livre, porém disciplinada, a produção de contos e poemas de qualidade, sobre o futuro.

No primeiro encontro, o coordenador apresentará ao grupo e comentará as principais obras da bibliografia e da filmografia sobre a revolução pós-humana.

Em seguida, a cada encontro será proposto aos atelienses que escrevam um conto ou um poema, que será lido e comentado por todos.

Público-alvo

Escritores iniciantes, com obra ainda em formação, estudantes e pessoas interessadas em aprimorar suas habilidades no uso da linguagem literária.

Duração do ateliê

Quatro encontros quinzenais de três horas cada, com um intervalo de quinze minutos.

Cronograma

11 e 25 de agosto, 8 e 29 de setembro
Sextas-feiras
Das 19h às 22h

Número de participantes

Oito

Material

Caneta e papel sulfite, ou laptop, ou tablet, ou smartphone, ou qualquer nova tecnologia de registro de texto

Investimento

R$ 600 divididos em duas parcelas

Local

Avenida Paulista, 726, conjunto 1.707, 17º andar
Próximo à estação Brigadeiro do metrô

Peço aos interessados que me contatem inbox.

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Luiz Bras nasceu em 1968, em Cobra Norato, MS. É escritor e coordenador de ateliês de criação literária. Já publicou diversos livros, entre eles Distrito federal (rapsódia), Não chore (novela) e MáquinaMacunaíma (contos). Também organizou os três volumes da coletânea de poemas Hiperconexões: realidade expandida, sobre nosso futuro pós-humano.

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Alex Xavier: O ateliê não só nos estimulou a ler e escrever ficção científica, como abriu nossa mente para questões contemporâneas que ampliam nossa visão do mundo e viram de ponta-cabeça nossos conceitos (e preconceitos).

Belise Mofeoli: Bom, se eu fosse uma inteligência artificial, talvez pudesse ligar e desligar meu interesse pelo ateliê do Luiz Bras. Mas não sou. Então, dou-me por vencida pela dependência que os temas abordados me causaram. Você não precisa ser um apaixonado por narrativas futuristas para se encantar com os temas apresentados nas aulas, basta ser um humano vivente neste mundo caótico repleto de cotidianos e seres robóticos, para se embrenhar no “e se?” É o tal mergulho que amplia infinitamente as possibilidades narrativas. Use sem um pingo de parcimônia. Apaixone-se.

Dani Rosolen: Comecei o curso com o pé atrás porque nunca fui muito fã de ficção científica, mas tinha curiosidades profissionais em relação aos temas abordados nas aulas. No fim dos quatro encontros, eu, que nunca entendi muito bem deste mundo, estava escrevendo e falando como louca sobre robôs sexuais, pílulas de inteligência e prolongamento da vida. Foi uma experiência de outro planeta, que só poderia ter sido conduzida com a habilidade e maestria do Luiz Brás.

Francis Toyama: Luiz Bras, capitão da nave estelar Escrevendo o Futuro (e possuidor de olhos biônicos), conduziu-nos com maestria e sensibilidade na fantástica arte da escrita. Uma vez que você embarca, não tem mais volta, é como cair em um buraco negro litero-imaginário.

Gabriel Felipe Jacomel: O Luiz tem a manha. Não foi a primeira vez que o vi reunir ao seu redor pessoas adoráveis em conversas poderosas, mas foi, sim, o meu primeiro ateliê: espanto total. O mais puro mojo. As mais insólitas pajelanças, resultado desse magnetismo que Luiz Bras tem de congregar aquilo que parece ser as pessoas certas, rumo ao vai saber… Certamente, coisa de um ímã implantado.

Gê Martins: Eu participei da primeira turma do ateliê Escrevendo o Futuro. A experiência foi muito positiva, principalmente pela possibilidade de conhecer a diversidade de temas dentro da ficção científica, e também por encontrar uma unidade de escritores abertos a descobrir esse universo sem empinar o nariz para o preconceito. De negativo, só acho que passou muito rápido. Talvez, quem sabe, um curso um pouco mais longo resolvesse essa sensação.

Giovanna Picillo: Participar do ateliê foi como embarcar numa nave para sondar o futuro, agarrá-lo com a imaginação e materializá-lo numa criação coletiva. Experiência tanto mais instigante quanto as pessoas que participaram, feito nosso competente coordenador.

Gláuber Soares: Participar do ateliê Escrevendo o Futuro foi ter acesso ao que há de melhor. Teoria e prática na medida certa, o curso ultrapassa a ficção científica. Luiz Bras, além de profundo conhecedor de FC e das novas tecnologias, domina a literatura, não deixando dúvidas sem respostas.

Mélani Sant’Ana: O ateliê foi uma experiência ótima para mim. Eu nunca tinha participado de nenhuma oficina literária, então nesse período eu consegui estabelecer um ritmo diário de escrita e perder o medo de mostrar meus textos aos outros. Fora que os temas abordados são instigantes e me fizeram pensar mesmo depois que as reuniões acabaram.

Nanete Neves: Como pisciana, tenho muita facilidade em voltar ao passado extraindo dele temas para a literatura que produzo. Mas, para olhar adiante do meu tempo, preciso ser muito provocada e alimentada. Participei do ateliê Escrevendo o Futuro e ele me abriu novos cenários para novas reflexões, em apenas quatro encontros de profundo mergulho nas possibilidades do amanhã.

Nathalie Lourenço: O atêlie Escrevendo o Futuro foi ótimo para explorar e pensar não apenas sobre novos temas, mas também discutir como a tecnologia impacta nossa vida desde hoje. Abriu a cabeça e inaugurou novas vontades de escrever.

Ricardo Celestino: Só tenho pontos positivos a expressar sobre o ateliê. Gostei muito da dinâmica dos encontros, onde todos que escrevem são lidos e todos comentam com cuidado o texto um do outro. As propostas de escrita foram bem coordenadas pelo Luiz, que demonstra ser um grande intelectual da ficção científica brasileira, proporcionando em nós, atelienses, o encanto por esse segmento tão rico da literatura. Luiz também tem uma didática excelente e o cuidado em ler cada palavra de seu texto e explanar pontos positivos e negativos que fundamentam sua escrita, tanto nos encontros presenciais quanto a distância, em nosso grupo do facebook. Por fim, pessoalmente, o ateliê conseguiu direcionar o meu olhar para a produção literária de ficção científica e me fez entender a profundidade de um gênero da literatura brasileira que há muito tempo é banalizado e ignorado por muitos intelectuais.

Sonia Nabarrete: Luiz Bras me ensinou a gostar de ficção futurista, e seu ateliê Escrevendo o Futuro oferece as ferramentas básicas para quem quer escrever nesse gênero. Imperdível.

Toby Tuvia: Para um profissional da memória feito eu − historiador e arqueólogo −, lidar com o passado faz parte do cotidiano. Mas esse horizonte retroativo é muito limitado quando queremos pensar a existência humana. Foi no meio de uma busca profunda que encontrei o ateliê mental Escrevendo o Futuro. Nele vi expandir e implodir a barreira do tempo… Aquelas velhas dúvidas filosóficas: “Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou?” derreteram durante os encontros. No lugar delas pipocaram “Quem és tu? De onde eles vieram? Para onde nós vamos…”

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Manifesto : Convergência

Por uma nova ilusão utópica

§

Um acerto e um erro. No final do século 20 foi decretado o fim das velhas utopias, pois ficou provado que uma utopia é uma ilusão conceitual, uma fantasia da infância. Esse foi o acerto. O carrasco das velhas utopias argumenta que precisamos abandonar urgentemente nossas ilusões se quisermos amadurecer. Esse está sendo o erro. Acertamos ao decretar o fim das velhas utopias, mas erramos ao impedir que uma nova utopia ocupe o lugar vazio em nosso psiquismo coletivo, que está doente. Uma utopia é sempre uma ilusão, mas uma ilusão verdadeira e saudável, necessária para nossa sobrevivência. A ilusão utópica facilita o fluxo social, impedindo a expansão e a permanência de ideias e regimes totalitários. A ilusão utópica é uma necessidade humana, uma poderosa ferramenta evolutiva.

§

Um planeta sem muros é uma impossibilidade prática e teórica. Muros são necessários: muros protegem, muros preservam. Nossa sociedade é dividida por centenas de muros simbólicos, por poderosos muros políticos, étnicos, sexuais, religiosos, financeiros, culturais, evolutivos. Lutar por um planeta sem muros é uma estupidez romântica. Mais inteligente seria lutar por um tipo mais maleável de muro, feito de outro material simbólico, feito principalmente de aproximações pacíficas. Uma utopia necessária: muros que protejam e preservem, mas não separem as pessoas.

§

A utopia necessária não difundirá a antiquada divergência desarmônica − guerreira −, mas uma transformação muito mais sutil: a convergência sintônica. Não está na hora de artistas e escritores começarem a modelar o novo projeto de futuro?

§

Utopia (matriz política) e mito (matriz poética) são abstrações concretas que apresentam a mesma expressão genética. Numa sociedade dividida por muros sintônicos − anteparos que protegem e preservam, mas não separam as pessoas −, estejam certos de que uma nova utopia fecundará e gestará um novo mito, e vice-versa.

§

A convergência sintônica precisará de um novo mito que seja completo, cuja poderosa substância simbólica entrelace, muito bem entrelaçados, ingredientes das quatro formas básicas de conhecimento do mundo: arte, religião, ciência e política. Precisará de uma nova narrativa inaugural que articule as oposições − vida e morte, masculino e feminino, matéria e espírito, civilização e natureza, razão e intuição, misticismo e tecnologia, tradição e ruptura, erudito e popular − sem domesticar seu impulso original, sem simplificar os traços de complexidade nem dissolver um dos extremos no outro, evitando assim qualquer síntese artificial.

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Uma nova utopia e um novo mito exigirão uma nova fraternidade, formada por artistas, escritores e pensadores dispostos a cultivar a convergência e a elaborar coletivamente os fundamentos do novo movimento. O carrasco das velhas utopias disseminou a crença no individualismo, na força do sujeito sozinho, indiferente a qualquer tradição e antipático a qualquer confluência teórica e criativa. Outro erro estúpido. Uma multidão de sujeitos sozinhos jamais conseguirá habitar todas as áreas vazias de nosso psiquismo coletivo. Repito: não haverá uma nova utopia nem um novo mito se não houver uma nova fraternidade.

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No campo da arte e da literatura, fraternidade é sinônimo de escola. O fim das velhas utopias artísticas e literárias também foi o fim das escolas-fraternidades que as cultivavam: romantismo, naturalismo, simbolismo, impressionismo, cubismo, suprematismo, dadaísmo, surrealismo, por art, concretismo etc. Os artistas e os escritores contemporâneos evitam formar fraternidades, com medo de perder a liberdade criativa ao aderir a qualquer programa coletivo. Quer reconheçam explicitamente quer não, para esses artistas e escritores o conceito romântico de originalidade continua bastante ativo. Cada um se julga autor de uma obra única e singular, e o carrasco das velhas utopias reforça diariamente essa ilusão individualista. Contrário a essa visão superficial, o filósofo Luigi Pareyson, em Os problemas da estética, argumenta que fraternidade e originalidade genuína não são noções excludentes. Quando alinhadas, são noções que se alimentam reciprocamente, fortalecendo-se. A singularidade verdadeiramente original não rejeita a comunidade e a comunidade não enfraquece a singularidade verdadeiramente original.

§

Suspeito que uma nova utopia e um novo mito, para realmente merecerem o atributo de novo, precisarão enfrentar a crença mais nefasta do nosso tempo: o antropocentrismo. Não se trata de extirpar essa crença tão antiga quanto o próprio sapiens, isso seria ridículo, seria como tentar extirpar para sempre a sombra das pessoas. Trata-se de enfraquecer essa noção chauvinista, que justifica, por exemplo, a devastação ambiental. Todas as formas de vida, da mais simples à mais complexa, são intrinsecamente narcisistas, e o antropocentrismo é a forma coletiva do narcisismo humano. Hoje sabemos que o sapiens não ocupa a posição central no universo. Mas no dia a dia nosso narcisismo antropocêntrico apaga essa verdade tão inconveniente, espalhando doenças intelectuais e emocionais. Há bilhões de anos o universo teve um centro, mas durou muito pouco, e garanto que esse centro fugaz não se parecia em nada comigo ou com vocês. Uma nova fraternidade, formada por artistas, escritores e pensadores dispostos a cultivar a convergência, precisará manter visível na teoria e na prática a certeza de que a suprema beleza estética e existencial está inteira em nossa descentralização evolutiva, política e cosmológica.

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O narcisismo surdo a críticas, o ego cego aos valores mais valiosos da vida, apaixonado apenas pelo brilho trivial das medalhas e dos falsos sorrisos… A nova fraternidade precisará enfrentar − sem jamais pretender vencer, pois ela é invencível − a força centrípeta da vaidade artística e literária. Força que sempre arrasta e esfacela o talento mal orientado, antes que o infeliz tenha tempo de se fortalecer. Muito cuidado: “Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um teto sobre a cabeça, um prato quente no fim do dia e o que mais deseja: o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que com certeza viverá mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço.” [Carlos Ruiz Zafón]

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Outra doença contemporânea que uma nova utopia e um novo mito precisarão enfrentar será a infantilização cultural, promovida pela indústria do entretenimento. Uma distorção severa em nossa percepção crítica está aumentando exponencialmente uma estranha confusão valorativa: obras de menor valor artístico ou literário têm sido confundidas com verdadeiras obras-primas. Artistas e escritores medianos, quando não medíocres, têm sido confundidos com verdadeiros mestres. A indústria do entretenimento alimenta a infantilização cultural, confundindo produtores, instâncias legitimadoras e consumidores. As obras e os profissionais do entretenimento, menos sofisticados, desempenham uma função social importante, mas não devem ser promovidos artificialmente a grande arte e a grandes artistas. Essa confusão valorativa favorece apenas o caixa da indústria. Essa confusão valorativa não faz bem à arte e ao artista, muito menos às obras de entretenimento de qualidade e aos profissionais talentosos que as produzem. O popular e o erudito são categorias distintas, que podem até dialogar, beneficiando-se mutuamente, mas cada qual tem seus critérios e sua escala de valor, que estruturam sua identidade indissolúvel.

§

A infantilização cultural vaza cotidianamente, preenchendo outros compartimentos da vida social e enfraquecendo debates e reflexões. No plano da administração pública, políticos despreparados são confundidos com verdadeiros estadistas, enquanto partidos inconsistentes, sem raiz ou substância, chegam ao poder de maneira atrapalhada e realizam perigosos projetos de governo. No plano da pesquisa acadêmica, dissertações repetitivas e teses anódinas são confundidas com investigações científicas sólidas e originais, apenas porque os pesquisadores souberam usar apropriadamente o discurso impessoal e as normas da ABNT.

[ Manifesto em progresso ]

Cristal visceral

Cristal

Estão percebendo a música?
Chega de afetos tristes.
Estão percebendo a luz?
Chega dessa impotência emocional.
Eu era um homem-bomba, a cabeça a ponto de detonar, quando o cristal visceral me dominou.
Eu era a fúria magnética que explodiria a qualquer momento, fraturando edifícios & inocentes, quando o cristal visceral penetrou meu coração e passou a bombear cores primárias & linhas convergentes.
Existem sete bilhões de pessoas no planeta, mas pouquíssimos produtores de alegria.
Garimpar tristeza, minerar o carvão do desânimo é a principal atividade comercial no Ocidente e no Oriente.
A tristeza e o desânimo fermentam o medo e a raiva, que refinam o combustível mais afiado da maquinaria da escravidão social.
Se examinassem seu próprio esqueleto, as pessoas veriam que nas costelas e nas vértebras há centenas de diamantes adormecidos.
Se prestassem bastante atenção, se apurassem os ouvidos, aprenderiam que essa riqueza toda está aguardando apenas a música certa pra começar a dançar.
A dança é o estado natural − jubiloso − do cristal visceral que hoje me habita.
Estão percebendo?
Esse cristal bombeia cores & linhas, que percutem a pele de dentro pra fora, que despertam os diamantes, que preenchem de radiação emocional meu ambiente animal.
Estão percebendo o movimento?
Estão percebendo a música? O brilho?
Meu corpo é a própria dança e a dança é meu próprio corpo, que também é a música e o brilho viscerais que o cristal exala.
Vocês ainda não sentiram, mas estamos todos ligados quimicamente, compartilhamos todos a mesma nuvem de diamantes.
De onde veio a beleza geométrica de meu cristal visceral, vocês devem estar se perguntando.
Quem sabe de outro planeta, de outra estrela…
Talvez de outro universo.
Tenho certeza de que essa beleza veio do mesmo útero que gerou a vida mais primitiva, mínima, a vida viajante, que evoluiu, cresceu e se espalhou em ondas sucessivas, povoando esta Terra & infinitas outras Terras.
Essa beleza material & pulsante é o momento-lugar de cristalização do espaço-tempo que me define.
Estão percebendo o caleidoscópio?
O arco-íris prismático?
Existem sete bilhões de pessoas-bombas no planeta − vocês, meus irmãos −, todas a ponto de explodir.
O mundo logo será uma paisagem fumegante de edifícios & inocentes fraturados.
A menos que transformemos a impotência emocional, os afetos tristes.
Meu cristal visceral é parte do cristal maior, que em breve acordará os diamantes que dormem também em vocês.
Preparem-se para a dança, para a música.
Preparem-se para a alquimia do brilho.

Mensagem do Paulo Lai Werneck

Capa Subsolo infinito

Nelson,

Sei que você está com inúmeros ateliês por aí e desejo todo sucesso em todos eles, é claro, principalmente na sua trajetória literária, que eu aprendi a admirar logo que li os primeiros poemas do Valerio Oliveira e agora este livro.

Não quero te atrapalhar com lengalenga, por isso direi a meu favor que a minha mensagem tem uma boa intenção.

Acabei dobrando as páginas para não riscar essa edição comemorativa do teu primeiro romance, mas foi uma grande besteira, depois fiquei procurando nas páginas o porquê das marcações, uns porquês mais fáceis de achar do que outros. Mas no Distrito federal irei assinalar impiedosamente com um marcador amarelo.

Arrisco então a emitir uns o-bla-dis o-bla-das sobre a leitura desse livro. Subsolo infinito: como não começar pelo final se o final define determinadas questões?

Você já havia se referido à vampirização, e agora li a mesma declaração no final do livro. Eu que me autovampirizo sem qualquer piedade também tenho pudor em fazer isso com histórias de pessoas próximas, se eu não estiver incluído, mas mesmo assim reservo a mim apenas o ônus da indiscrição, caso ela exista.

Me pergunto se quase toda literatura não é embrionária de seu próprio meio, a literatura gerando a literatura não é apenas uma força de expressão, mas talvez a realidade mais presente dela.

Creio, entretanto, que as paródias, citações e afins é que nos permitem o exorcismo de nossas mais impactantes leituras, mas pergunto se crer nisso não seria um contrassenso, ao mesmo tempo que partilho da mesma visão, de que a leitura engendra ou impregna a escrita na maior parte dos casos.

Outra coisa com que me identifico é a viagem insólita. É que acabo num mundo à parte, de uma realidade quase delirante, entre esse ofício e a própria vida − se eu, ainda aspirante a escritor, posso dizer isso a você. Talvez eu seja muito emocional para a coisa toda, às vezes penso nisso.

Com certeza, lendo seu livro, não dei conta de todas as citações e nem darei, mesmo que leia outra vez. É rica demais a construção do texto, com amarras e costuras por todo lado, dos autores que você citou e outros mais, seja em ideias, seja em nomes de personagens etc., que figuram como aplicações nesse tecido literário juntamente com muitas das invenções, feito o hino com sílabas ao contrário, entre outras, intercaladas com alguns bordados pop e/ou almanaqueanos, desde o o-bla-di o-bla-da repetido duas vezes no livro, figurando com o mesmo sentido (derivado da sacada da similaridade sonora?) do nosso patati patatá, que você também empregou em “um pequeno passo para o homem patati patatá”, faze o que tu queres pois é tudo da Lei, a hexacosioi-hexeconta-hexafobia…

Muitas brincadeiras literárias com as palavras, como o jogo com o título do livro de Lautréamont: “Mal de amor, mal de olor, mal de dolor, ah maldito Maldoror, ouvi alguém praguejar num canto, em todos os cantos da cidade”. E outras: “Absolutas estrelas obsoletas!”, “O gloglogló de água passando sobre pedras e plantas”.

Borges ou Pessoa, fogos-fátuos. O que acha desse encontro? Fernando Pessoa e Borges se encontram em Lisboa.

Dar o título de Ex-libris ao capítulo que narra a perda de identidade, achei bom demais. Enfim, lança o mote principal: um livro sobre livros. Entre cartapácios e alfarrábios. Os livros-objetos que aparecem mais para frente, livros somente para se manusear, aqueles do contêiner, que às vezes cheiram a mofo, mas sempre parecem cheirar melhor que o mundo não literário.

Van Gogh de bafo impressionista citando Dante, a transformação kafkiana, não só do personagem, mas do ambiente (demais isso), indo do desespero ao humor debochado: “terei inadvertidamente tocado uma parede recém-pintada?” Um desespero em torno da suposta pureza perdida de uma alvura viking, abrindo a unhas a nossa ferida do racismo. Ao contrário de Edu, o meta-sagrado, que tem seu dia de Gregor Samsa, de cuja “boca nojenta saíam os filamentos luminosos de um crustáceo escondido”.

O título dos capítulos e sua inversão: a descida subida, a subida descida. Muitos trechos poéticos, seja no registro da prosa poética, seja nas fortes imagens que se impõem.

Começando a tatear o vazio
A escada havia acabado
Não existiam mais degraus
A coluna estreita
Por onde vínhamos descendo
Pouco a pouco foi se alargando
Separando as paredes
Como num funil invertido
Até transforma-se numa abóbada descomunal

(…)

Pequenos pontos de luz
Talvez vaga-lumes, piscavam
Não são vaga-lumes, são pessoas
Descendo por outros respiradouros

Igual a um funil invertido, abre-se uma abóbada descomunal − grande e bela imagem sobre um ambiente escuro onde aparecem “pequenos pontos de luz” (lembrei que no final do romance, se não me engano, você fala de “abóbada abobada”), a trama das luzes, inúmeras fileiras que acendiam e apagavam na queda dos que tentavam a descida-subida pendurados em cordas. Voltando um pouco, um trecho que descreve a formação da nuvem primordial e termina na passagem do cajado ao peregrino Tolstói, também achei quase um poema.

E em A queda para o alto (último capítulo):

Está escutando?
Que força é essa que atravessa paredes
Escorre por degraus
Desliza entre a sombra e a superfície
Sem perturbar nem uma nem a outra?

Tem muita força esse capítulo final, impressionante mesmo.

Chamou a minha atenção, na divisão do romance, a parte específica que trata do subsolo infinito. É quase um livro à parte, uma mini-saga. E as tribos indígenas babélicas, achei demais essa parte.

Deliciosa, a personagem José Maria/Maria José. Genial a sua homenagem a Guimarães Rosa, a Diadorim figura-de-papel, leitura obrigatória do colégio e/ou cursinho, pelo menos. Vou sofismar: ela é a guia da viagem externa e interna de Toni, e inclusive ele revive alguns sentimentos do Riobaldo: ama Maria José e repele José Maria.

O protagonista transfere o dilema para outro patamar, sabe da existência dos dois (macho e fêmea) num só corpo metamorfo, porém desconhece quando será ele ou ela que se fará presente. Até o momento em que Toni avista Maria José, “não Maria José Maria, nem José Maria José”. E no final acontece a reconciliação com José Maria, na pele da irmã. Há também o pacto roseano na encruzilhada, e outra virada: o acerto de contas invertido, levando o demo a viver uma vida quase humana, “perdi a razão, escrevi livros, casei e tive filhos”.

Os personagens se entrelaçam feito fios no fio principal da saga do demônio que virou humano, em contraponto à sombra que se revela lá na frente, do humano que se quis imortal, porém são intrincados fios, igual a uma louca renda de bilros.

Da mística do Edu e/ou Exu? Uma boa referência que eu não conhecia: Edouard Schuré. Há também as constantes repetições esotéricas, cada vez mais diluídas, como um eco que vai se perdendo e ressurge estrondoso na batalha final, não no céu, mas nas margens do caudal mítico, o rio Caiapó.

Com o drama de Fausto e Mefistófeles, de Goethe, e as inúmeras denominações do demo, por Guimarães Rosa, eu tenho mais afinidade, assim como com muitas das referências mitológicas gregas, mas novamente presto atenção nas costuras. Eu me arrisco a beliscar essa camada extra, e me atrevo a tentar entender o seu texto como um momento de afinados expurgos, no qual me referi antes: exorcismo às avessas das referências.

Por falar em exorcismo, em Álvares de Azevedo, Tolstói, Goethe, Rosa e toda uma genealogia da literatura do diabo, o carnaval aflora em outro momento sarcasticamente debochado − Paracelso, Nostradamus e Aleister Crowley −, numa conversa sobre hemorroidas e furúnculos. Tudo ocorrendo dentro da arquitetura de uma viagem dantesca, homérica, através de cenários do centro da Terra de Verne.

Mas vi que não era só isso, claro. Existia um porquê. Pergunto se não é um profundo exercício de liberdade delimitada, depois de escolhido o tema principal, o que determinou a costura da conversa dos autores que você citou. Como nem todo encontro é fluido, também ouso imaginar que daí incide parte do processo criativo que pega não somente referências afins e fáceis de amalgamar, mas referências às vezes díspares, que, no intuito de criar sentido e fluência no texto, estabelecem inúmeras ligações criativas inusitadas.

Subsolo infinito é um romance com um assunto espiritual, mas um tanto quanto físico, digo, de ações e descrições que derivam do ato físico, talvez seja melhor dizer que o livro oferece inúmeras qualidades sensoriais, mas principalmente táteis, por todo lado. Seja o que for que isso signifique. Talvez signifique que percebemos nas descrições a mutabilidade das metamorfoses físicas do ambiente e/ou do corpo biológico dos personagens, através da trama que desemboca nas soluções de caráter fantástico, e nas diversas manipulações da ideia de tempo e espaço.

Termino comentando a citação inicial do livro do Campos de Carvalho, A lua vem da Ásia. Essa é uma leitura que eu me cobro. Não tenho medo nem a superstição do esvaziamento da minha criatividade. Mas, nesse caso, faz um bom tempo que li o começo do romance do autor mineiro. Fiquei tão deslumbrado, embasbacado mesmo, que me perguntei se eu teria tempo hábil de expurgar essa leitura, e fechei o livro. Porém, inadvertidamente, recentemente li Ubik, do Philip K. Dick…

Desculpe se acabo me autovampirizando nessas observações, mas com quem eu poderia falar sobre essas coisas a esta altura da vida?

Quando puder, por favor, diga algo sobre. Assim será mais fácil expurgar você também. Bem que você avisou lá no ateliê, por isso encerrei e fechei qualquer possibilidade de fazer oficinas de escrita criativa com outra pessoa. Já estou bem acompanhado. Afinidades.

O que não expurgarei nunca é minha gratidão.

Abraço!

Paulo

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Recebi essa maravilhosa mensagem dias atrás, por e-mail.
Paulo, que eu conheci há dois anos no ateliê de criação literária da Casa Mário de Andrade, mergulhou nas águas nebulosas do Subsolo infinito e trouxe de lá uma trama particular de inquietações. Um tesouro obscuro.
Considero esse romance delirante, talvez psicanalítico, o melhor livro-pesadelo que eu já escrevi. E também o mais difícil. Apesar de não ser muito extenso, conheço poucas pessoas que conseguiram chegar ao final.
Por isso agradeço muito ao Paulo, pela disposição em investigar essa floresta de símbolos e mitos, e mais ainda pela interlocução enriquecedora.
Valeu, camarada!

R u a s

Teresa

Em São Paulo, logo na entrada da rua dos Cães − uma rua íngreme e muito estreita − há um dobermann descomunal, de olhar feroz e turbulento, sentado sobre as patas traseiras. Onde está o dono de tão irascível criatura? Trancado em casa, é óbvio. Bem como todos os seus vizinhos. Afinal quem se arriscaria a sair à rua em pleno dezembro, no alto verão, com o sol escaldante cozinhando o miolo de seus queridos animaizinhos de estimação? É claro que se houvesse mais árvores nessa rua o problema estaria, se não resolvido, pelo menos atenuado. Todavia, como podem ver, em toda a extensão da rua dos Cães há pouquíssimas árvores. Isso deixa os animais, principalmente os dobermanns, enlouquecidos. Presos a uma realidade que tanto os oprime, eles passam todo o tempo zanzando, indo de uma calçada a outra, de matilha em matilha, misturando-se com os dálmatas, filas, pastores-alemães, buldogues, incontáveis vezes por dia. Línguas de fora, ofegantes, afiadas, enchem-me de pavor. A rua dos Cães é um prolongamento de minha rua, que, por sua vez, é um prolongamento de todas as demais ruas de São Paulo. Dizem − não sei, nunca tive a oportunidade de ver confirmada essa desajeitada afirmação − que em Buenos Aires também é assim. Dizem que lá todas as ruas da cidade, semelhante a uma serpente sinuosa e infinita, fazem parte da mesma e única rua. Pode ser. Contudo, a superioridade dos portenhos − superioridade que muito nos constrange − deve ser reflexo de sua inteligente configuração urbana. Questão de bom senso: não existem cães sem coleira em Buenos Aires, nem ruas tão selvagens quanto as nossas. Isso, pelo menos, é o que dizem os viajantes.

Um verdadeiro milagre. Ao abrir a portinhola da gaiola, meu papagaio saiu de lá de dentro como um raio, atravessou a sala, passou pela janela aberta e ganhou a rua, deixando atrás de si um rastro de ar comprimido. Corri com o binóculo na mão. Fora do apartamento não esperei pelo elevador. Desci as escadas atabalhoadamente, sem respirar. O porteiro abriu o portão e, caramba!, quando apontei as lentes do binóculo para o final da rua, vi que meu papagaio já estava chegando lá, já estava lá, já não estava mais lá, mas muito mais adiante, no começo da rua seguinte. Minha rua emenda com a rua dos Cães, que por sua vez emenda com a rua dos Gatos, que por sua vez emenda com a rua dos Papagaios. Meu papagaio passou da minha rua pra rua dos Papagaios sem o menor problema. Esse, o inconveniente milagre.

Atravessei a rua dos Cães sem olhar para os lados, andei por toda a sua extensão quase sem piscar. Atravessei a maldita rua, a coluna ereta, os músculos rijos, sem pressa, controlando meus movimentos. Qualquer gesto mais afoito e seria o meu fim, disso eu tinha certeza. Enquanto andava ia sentindo nas faces o hálito quente dos cães. Por pouco não desfaleci, não manchei a calçada com meu covarde excremento. Mais do que o bafo, era o rosnar abafado, autocontrolado, cheio de ira e vigor, dos animais, o que mais me intimidava. Silenciosos feito gárgulas, os cães maiores, monstruosos e negros, permaneciam sentados sobre as patas traseiras, como se guardassem as portas do inferno. Esses me aterrorizavam apenas com sua presença pétrea. Eram, contudo, os menores, os malditos poodles, fox-terriers, pinschers − os endemoninhados pinschers de pescoço comprido e orelhas retas −, que me azucrinavam mais. Ah, os menores! Alguns soltos na rua, outros atrás da grade dos portões. Sacudindo os portões, estes. Abocanhando a barra da minha calça, aqueles. Todos latindo sem parar, auauauauauauouououououou!, avançando e recuando.

Uma hora atrás, Vilma, ao me ver na rua, chamara da janela do nosso apartamento: − Consegue ver o Querubim? − Sim. Está na rua dos Papagaios, o desgraçado. − Que merda! Como você pôde ser tão descuidado? Matilde jamais nos perdoará por isso. Emudeci. Matilde, histérica. Só de pensar nessa possibilidade meu corpo estremeceu. Corri para o apartamento, escancarei as portas do guarda-roupa, agarrei o rifle, a capanga de munição e a rede de pegar borboleta. − Sou um homem amaldiçoado se não trouxer o bicho de volta. − Boa sorte. − Espero estar de volta antes que anoiteça. Respirei fundo. No momento em que eu estava saindo Vilma me segurou e, com lábios de mel, me beijou como havia muito não beijava. Não gostei nada disso. Temi por meu destino. Um beijo desses, numa hora dessas, tinha o sabor da morte.

Na rua dos Gatos, estaquei. Peguei o binóculo e olhei o mais longe que pude. Lá estava o desgraçado, dezenas de quarteirões à frente, na rua dos Papagaios. Pensei em desistir. Tive medo. Lembrei de Matilde e tal lembrança deu-me forças pra continuar. A rua dos Gatos era tremendamente mais soturna, mais ensombrecida que a dos Cães. Entrar nela era como entrar numa caverna. Tudo porque, diferente da anterior, possuía essa um grande número de árvores − jabuticabeiras, ciprestes, pinheiros, até mesmo um grande carvalho − cuja sombra caía pesada e impiedosamente sobre prédios e gatos, tornando o sol quase invisível.

Protegidos pela copa das árvores, ai Jesus, sombras, vultos e silhuetas moviam-se silenciosamente, parecendo espectros de uma noite eterna. Possuíam contornos mal definidos, tais espectros. Deslocavam-se, dentro dessa selva insana, semelhantes a entidades imateriais, sem produzir o menor ruído. Prossegui, sempre ereto, sempre firme em meu propósito, fingindo total indiferença, você já entendeu: esnobando os felinos. A cada passo podia sentir o toque de suas patas, o roçar de duas dúzias de caudas em minhas mãos, primeiro, depois em minhas pernas, por baixo da barra da calça. O toque aveludado, acolchoado, sinuoso, da mais desfrutável das fêmeas… De repente um gemido, um salto no escuro e meu reflexo pego de surpresa no branco duns olhos arregalados e aterradores, realmente horripilantes. E então mais outro salto, e mais outro, e outro. Depois, sussurros, como se conspirassem baixinho. E então mais outro salto, e mais outro, e outro. Vi pelos curtos e pelos longos, unhas retráteis e afiadas, caninos agudos e fortes. Siameses, persas, angorás, nos galhos mais baixos de uma figueira. Ao perceberem que eu não pretendia fugir, começaram, os mais audaciosos, a saltar do galho e a me rodear. Havia luz no fim do túnel. De onde me encontrava podia ver sua aura prismática, apesar de muito pequena. Eu estava num túnel? Estava. O fim do túnel era, eu sabia, o início da rua dos Papagaios. As casas e os prédios da rua dos Gatos tinham, todos, extensos jardins cujas plantas, alegres e exuberantes, escorriam pelos muros e pelas grades, e caíam na calçada dificultando e muito a visão. Era planta ornamental por toda a parte. Onde terminava a copa da árvore mais próxima e onde começava o jardim do prédio em frente era algo difícil de dizer. Desviei de uma raiz que já começava a quebrar o concreto em alguns pontos da calçada e topei, assustado, com um vulto tão grande, tão sólido, que, logo concluí, só podia se tratar de um grupo compacto de dez, doze gatos sentados uns sobre os outros. Contudo, logo após o esbarrão dois olhos iluminados grudaram nos meus, feito lanternas. − Putamerda! Nessa hora mudei de ideia. Não, definitivamente não era um grupo de gatos. Recuei num pulo, feito um chimpanzé que tivesse pisado numa cascavel. O vulto arreganhou a boca, exibindo os dentes branquíssimos. Gelei. Seus olhos estavam emparelhados com os meus. Éramos quase da mesma altura. Ele não piscava, muito menos eu. Então, quando pensei ter finalmente atingido o ápice do surpreendente, quando ficou bem claro que nada mais poderia me tirar o fôlego, o vulto começou, devagar, a crescer, chegando a atingir o dobro do tamanho inicial. Quando parou de crescer foi que eu vi que ele, na verdade, tinha era ficado em pé. Devia ter uns três metros de altura. Apoiado apenas nas patas traseiras, estendeu uma das patas dianteiras e me tocou no ombro. Era um toque quente, quase afetuoso. O tipo de toque que só um pai conseguiria proporcionar a um filho. Não esperei pelo momento em que ele abriria a boca e me sussurraria palavras do além. Corri, ah, corri muito, do jeito que só os desesperados e os loucos conseguem correr.

Na rua dos Papagaios, olhei pra trás com o binóculo. Lá estava Vilma, diante de nosso prédio, acenando com um lenço azul. Acenei de volta. − Consegui. Estou aqui, gritei. Mas ela obviamente não me ouviu. Na verdade, devido ao fato de não estarmos conseguindo ouvir um ao outro, seus gestos foram ficando mais nervosos, mais desesperados. Na mão direita, o lenço ondulante, escrevendo no ar uma frase que eu não conseguia entender. Com a mão livre, a esquerda irritada, ela apontava alguma coisa no céu. Alguma coisa que, estando muito longe dela, devia estar próximo de mim. Virei-me, em pânico. − Não pode ser, balbuciei. Um silêncio estranho, amargo, imperava por ali. Voltei o binóculo na direção do fim da rua e nada. A rua estava deserta. Não havia qualquer papagaio em toda a sua extensão. Muito menos o meu papagaio.

Matilde jamais me perdoará por isso, pensei. Conheço seu temperamento, ela é capaz de acalentar uma mágoa por anos a fio, à espera do melhor momento pra se vingar. Entrei em parafuso. Matilde, Matilde. Que decepção! Já era mais de meio-dia. O ônibus da escola estava prestes a chegar em casa e Matilde prestes a entrar correndo na sala, na cozinha, nos quartos, no banheiro, à procura de algo que, diferentemente dos dias anteriores, não estará lá à sua espera.

Nenhum papagaio nas árvores, poucas. Nenhum papagaio nos postes, poucos também. Olhei mais uma vez para o céu. Baixei lentamente o binóculo, confuso. − Não pode ser. Tornei a erguê-lo e a olhar o espaço azul acinzentado acima dos edifícios. Vi, estupefato, centenas de pontinhos escuros sobre a linha do horizonte. − Macacos me mordam, resmunguei igual a um personagem de gibi. Os papagaios estavam todos lá, a dezenas de metros do chão, dirigindo-se para o norte. − Os malditos estão migrando, berrei. No mesmo instante a lembrança do rostinho desconsolado de Matilde me veio à mente. Perdi a cabeça. Comecei a praguejar feito um doidivana dos infernos. Chutei uma lata de lixo, depois outra e mais outra. Chutei, ainda, várias caixas de papelão cheias de jornal velho sujo de graxa. Sim, chutei todas as caixas de papelão cheias de jornal velho sujo de graxa que estavam na calçada, esperando pelo caminhão de lixo. Os jornais espalharam-se pela rua. O lixo, não. Este rolou pra fora das latas, mas, mesmo assim, permaneceu quase no mesmo lugar, embolado, grudado na calçada, cheirando mal. Alguns moradores dos prédios em torno apareceram na janela pra ver que algazarra era essa. Respirei fundo, procurando recobrar o autocontrole. Sentei na sarjeta, sempre com os olhos voltados para o céu, para o bando de papagaios. − Filhos da puta, gritei novamente, pondo pra fora todo o ar azedo dos pulmões.

O vento trouxe de volta algumas folhas de jornal, que imediatamente grudaram em mim, no rosto, nas pernas, talvez pra se vingarem dos pontapés que haviam levado. Estraçalhei-as com raiva. Reduzi-as a pedacinhos, a uma infinidade deles, sempre xingando os papagaios: − Trastes desgraçados, filhos da puta! − Mais gente surgiu nas janelas. Cabeças grisalhas e envelhecidas, pestanas cansadas. Ao vê-las, tive o ímpeto de fazer com as mãos muitos sinais obscenos. Todavia, não fiz. Apenas fiquei ali, sentado, olhando os papagaios, puto da vida. Os papagaios: pontos cada vez menores na linha do horizonte. Enquanto os cornudos sumiam, indiferentes aos meus impropérios, eu fiquei pensando com os meus botões embotados… A velha história… Fiquei pensando se seria de fato verdadeira a história muitas e muitas vezes contada pelos viajantes, das mais diferentes formas. A história de que tanto as ruas de São Paulo quanto as de Bueno Aires fariam parte, todas, da mesma e única e infinita rua. Sendo assim, tudo não passaria de uma extensa linha, margeada, a cada nova região, por cidades diferentes, por culturas diferentes. Uma única e extensa linha, de leste a oeste. Bastaria, se a gente quisesse chegar a Buenos Aires partindo da rua dos Papagaios, seguir sempre em frente, de rua em rua. Se estiverem mesmo certos os viajantes, bastaria, se a gente quisesse ir de Buenos Aires a Nova York, seguir sempre em frente, de rua em rua. De Nova York a Paris? De Paris a Tóquio? Sempre em frente, de rua em rua, pra bem longe de Matilde.

[ Conto publicado no segundo número da revista Teresa, da USP, lançado em 2001 ]

Buscador

Google Futuro

É preciso tomar cuidado. Muito cuidado.

Você levanta da cadeira e vai ao banheiro lavar o rosto pela terceira vez. Olha as pupilas no espelho, massageia as bochechas. Não está delirando, não.

É madrugada, a cidade dorme.

Você volta ao computador, é preciso continuar o trabalho. É preciso continuar o trabalho e tomar muito cuidado.

Faz duas horas que você está enchendo uma planilha com nomes, eventos e datas.

Datas do futuro.

Desde que apareceu essa nova ferramenta na página do Google, você não para de digitar e beber café, beber café e digitar.

Já pesquisou e anotou o resultado das próximas dez mega-senas. Já sabe quem serão os próximos presidentes da república e quando haverá outro golpe. Outro impeachment, outra ditadura militar. Já sabe quem levará os próximos Oscars, as próximas Copas do Mundo. Já sabe quem ganhará bilhões no show business e quem perderá tudo no mercado financeiro. Quem morrerá primeiro na fórmula um.

Mas ainda não sabe o dia da própria morte, não teve coragem de pesquisar.

Desde que apareceu essa nova possibilidade na página do Google − na barra de ferramentas agora é possível definir hora, dia, semana, mês ou ano também no futuro −, você não para de digitar e beber café, beber café e digitar.

No começo você achou que era piada e comentou com a galera, no grupo do whatsapp: “Vocês viram a nova ferramenta do Google?” Os amigos não entenderam a pergunta. Não havia nada de diferente no buscador. Você comentou com o pessoal do escritório, todos responderam do mesmo jeito. Nada de diferente.

Parece que a nova possibilidade só apareceu no teu laptop.

Então é preciso tomar cuidado. Muito cuidado. Ninguém pode saber.

Em dois dias acontecerá o sorteio da próxima mega-sena, você já tem os números, então o jeito é tentar sossegar esse pulso acelerado, respire, rapaz, em dois dias você saberá a verdade.

O prêmio será de duzentos milhões, isso você já sabe. Mas o nome do único ganhador não aparece em lugar algum.

Você prepara mais uma xícara amarga, antecipando o doce gozo dos duzentos milhões, fazendo planos, uma cobertura em Copacabana, um cruzeiro ao redor do mundo…

Isso se você conseguir esperar dois dias.

Mas você não tem coragem de pesquisar.

Se tivesse, saberia que em exatamente cinco horas e trinta e nove minutos, quando a mercearia da frente erguer as portas e o primeiro poodle mijar no portão de sua casa, teu corpo já estará esfriando e enrijecendo.

Ataque cardíaco.

Café demais.